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Interações biológicas: contra a visão antropocêntrica do parasitismo

Artigo de Mário Mariano, professor de Imunologia da USP, em que analisa as interações biológicas do parasito e do hospedeiro humano.

Por 31 dez 1992, 22h00 • Atualizado em 31 out 2016, 18h34
  • Entre todas as espécies que habitam o planeta, o homem é o único ser que tem consciência e repúdio do fenômeno natural de sua morte. Como o homem, as outras espécies animais, instintivamente, preservam sua existência por mecanismos adaptativos extremamente elaborados. A consciência de que nasceu e irá fatalmente morrer o tem levado, desde os primórdios, à busca de uma solução para a morte por meio de crenças ou “remédios” que curem seus males e lhe possibilitem a “eternalização”. No meu entender, esta é a força geradora subliminar de todo o conhecimento científico. Mais especificamente, é a motivação, salpicada pelo vírus da vaidade e da fama, que leva o homem à busca da natureza da “vida” e de todo o conhecimento médico. 

    Esse enfoque, voltado para os valores humanos ou antropocêntricos das ciências biomédicas, trouxe, inquestionavelmente, uma marcante melhoria nos padrões de vida dos homens. Contudo, orientou o conhecimento biológico de tal maneira que fez do parasito o “mal” e do hospedeiro o “bem”. Quando nos deparamos, por exemplo, com a tuberculose ou outro tipo de doença parasitária, tendemos a “sentir” o parasito como vilão, como aquele que invade e agride, colocando em risco nossa existência. Porém, se olharmos as relações hospedeiro-parasito sem nos deixar contaminar pelo sentimento de que podemos ser o hospedeiro, veremos não uma luta entre o bem e o mal, mas um fantástico mundo de interações biológicas onde tanto o parasito como o hospedeiro desenvolvem mecanismos adaptativos de sobrevivência.
     
    É importante ressaltar que não apenas o homem e os animais domésticos se prestam a hospedeiros, mas, praticamente, todas as outras espécies podem ser parasitas das. Até as bactérias podem ser parasitadas por partículas virais. O hospedeiro vertebrado desenvolveu eficientes mecanismos que restringem a instalação do parasito nos tecidos, tais como a fagocitose (propriedade que têm algumas células, chamadas fagócitos, de englobar e matar parasitos) e a produção de anticorpos. Esses mecanismos e outros ainda pouco conhecidos são extremamente eficientes para impedir a “invasão” dos tecidos do hospedeiro por seres a ele estranhos. Essa eficiência pode ser observada pelo maior número de pessoas e animais que se infectam e adoecem, quando comparado com o pequeno número de indivíduos que apenas se infectam. 

    Por outro lado, os parasitos, através de séculos de evolução adaptativa, desenvolveram estratégias que facilitam o escape dos “ataques” dos fagócitos e do sistema imune. Um exemplo fascinante é o dos tripanosomas africanos que causam a doença do sono. Ao infectarem o homem e os animais, induzem nestes a produção de anticorpos contra substâncias químicas de sua superfície. A medida que crescem os níveis de anticorpos, os parasitos vão sendo drasticamente eliminados. Quando o número de parasitos diminui, esses seres são capazes de mudar a natureza química das moléculas de sua superfície, aquelas reconhecidas pelos anticorpos, tomando assim ineficiente o efeito dessas moléculas. Este ciclo se repete indefinidamente, mantendo a sobrevivência destes pequenos seres tão “inteligentes” e bem-:adaptados.
     
    Com certeza, em toda essa “inteligência” não existe a premeditação maldosa de matar o hospedeiro onde vive, mas unicamente o impulso de sobreviver. Na minha opinião, as relações entre o hospedeiro e o parasito são de natureza ecológica. Em outras palavras: existe uma tendência natural de alguns seres de conviver na intimidade de outros. Para tanto, mecanismos biológicos adaptativos são gerados pelo hospedeiro e pelo parasito para que essa relação possa ocorrer, ocupando a morte, inexorável, papel central na biologia tanto de um quanto de outro.

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