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Jogador cerebral

Exemplo de atleta, Raí venceu no futebol transformando as adversidades em estimulantes desafios. Agora, tenta passar a mesma filosofia aos jovens da sua fundação.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h11 - Publicado em 31 Maio 2002, 22h00

Celso Unzelte

Raí se tornou conhecido como um jogador de sangue-frio (até demais, diriam os críticos). E olha que razões para perder a cabeça não faltaram em sua carreira. Derrotas em decisões importantes, quando chegou ao São Paulo; a difícil adaptação ao futebol europeu, em 1993; a decepção de ficar fora da Seleção na Copa de 98. Ele superou tudo isso e parou de jogar consagrado como o maior ídolo da história de dois clubes, o São Paulo e o Paris Saint-Germain. Hoje, ele tenta passar um pouco da sua experiência às crianças da Fundação Gol de Letra, iniciada em parceria com o ex-companheiro de equipe Leonardo. Raí falou à Super sobre a importância de uma boa cabeça no futebol – e não apenas na hora de cabecear a bola.

Você acredita na psicologia no futebol? Teve alguma ajuda profissional nesse sentido ao longo da carreira?

Eu acredito, mas não necessariamente na parte da formação universitária. No futebol, isso não é uma coisa comum. Tive uma única vez a participação de um profissional da área, que era a Suzy Fleury, quando eu jogava no São Paulo. Foi uma experiência interessante, mas os grandes psicólogos, os mestres que tive, foram mesmo os treinadores. Esse papel acaba sobrando para eles, que sabem como motivar, mexer com os jogadores, fazer com que eles coloquem os problemas para fora.

O seu caso é um bom exemplo. Depois de perder duas finais de Campeonato Brasileiro seguidas, em 1989 e 1990, e ser rebaixado com o São Paulo para o Grupo B do Campeonato Paulista em 1990, você sobreviveu e virou campeão mundial. Como aconteceu essa superação?

No São Paulo passei por um processo de adaptação à cidade, pois vinha de Ribeirão Preto. Uma lesão também me deixou dois meses parado. E o técnico Cilinho queria me colocar como centroavante. Às vezes, demoro um pouco para sair de um momento difícil, mas sou uma pessoa que reage bem à adversidade, transformando-a em um desafio. Tenho isso como uma das minhas principais virtudes. Na França também tive um longo período de adaptação. Nos primeiros seis meses de Paris Saint-Germain, havia muita cobrança. Mas dei a volta por cima, joguei cinco anos lá e consegui o respeito de todos.

Você sempre foi considerado intelectualmente acima da média. Isso ajuda?

O futebol reflete a sociedade brasileira. Então, é natural que, nesse meio, poucas pessoas tenham acesso a uma boa formação. Eu tive a sorte de receber essa boa formação familiar e escolar. Mas isso não me fez sentir diferente dos outros como ser humano. Muito pelo contrário: as experiências dos jogadores que vieram de um meio diferente me fizeram aprender muito. Por outro lado, quando a gente vê a importância exagerada que se dá, por exemplo, a uma Copa do Mundo, e tem a consciência disso, pode até atrapalhar. A ignorância, às vezes, tem seu lado positivo (risos)…

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Ter uma boa estrutura familiar ajuda?

Ajuda, porque isso influencia na sua estrutura emocional, de afeto, de carências. E quando você tem um lar sólido tende a ser uma pessoa mais segura, mais estável. Já vi muitos sucumbirem e, embora não conhecesse a história familiar de todos para poder fazer um julgamento, deu para ter idéia, pelos atos, de que eles não tinham tido uma boa formação.

E uma boa escolaridade? Influi?

Eu encaro a escola como uma continuidade da família, tão importante para a formação em termos emocionais quanto culturais. Conheci muita gente que só tinha o primário e era muito inteligente para jogar, mesmo sem ter um grande conhecimento de informações fora do campo. E que, inclusive, fazia besteiras incríveis justamente por essa falta de informação.

O trabalho que você faz na Fundação Gol de Letra tem a ver com isso?

Sempre e esse é o nosso principal objetivo. A missão é investir na formação de crianças e jovens que sejam capazes de vir a transformar sua realidade. E quando digo “formação” me refiro à formação técnica, educativa mas, sobretudo, moral. Uma palavra muito usada na nossa instituição é auto-estima. Promovemos também discussões pedagógicas com educadores. Em todo tipo de atividade temos essa preocupação, seja em esportes, música ou teatro.

Por fim: se na Copa de 94 você tivesse tido a responsabilidade de bater um dos pênaltis na decisão, como reagiria?

Como algo que o destino me reservou. Pensaria: “Já que tem que ser eu mesmo, que seja”. Não teria como fugir. Tentaria me controlar emocionalmente, analisaria a parte técnica, o melhor lugar para chutar. E, aí, confiaria na sorte.

Frases

“Ter consciência da importância da Copa pode atrapalhar. A ignorância tem um lado bom…”

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