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Mania de magreza

A maioria das pessoas que fazem regime têm peso normal. Seguir dietas da moda, emagrecendo depois, é o maior pecado contra a silhueta.

Lúcia Helena de Oliveira

Qualquer pessoa consegue inventar uma dieta de emagrecimento, capaz de se transformar em best-seller e engordar a carteira de dinheiro. Que tal a dieta do chocolate, da lasanha ou das três colheres de feijoada em cada refeição? “Muitos gordos emagreceriam desse jeito”, garante o endocrinologista Alfredo Halpern, professor da Universidade de São Paulo. “Na verdade, qualquer regime para emagrecer, emagrece. Mas ninguém pode passar o resto da vida única e exclusivamente à feijoada, por exemplo”. Esse é o problema número um de todas as chamadas dietas de moda, que fizeram ou ainda fazem sucesso: elas não podem ser seguidas por tempo indefinido. A médio ou longo prazo, sempre prejudicam o organismo, especialmente daqueles que, de fato, não precisam perder peso.

Magrinhos com mania de magreza é o que não falta. Calcula-se que seis em cada dez brasileiros adultos com acesso a alimentos vivem em guerra declarada contra o ponteiro da balança. Sessenta por cento dos que estão em rigorosa dieta, no entanto, têm peso normal ou até abaixo do normal, segundo os padrões da Medicina. Mas outros padrões, os de beleza, tentam impor-lhes a silhueta de cabide dos manequins. Daí, cisman com qualquer esboço de pneuzinho de gordura, refletido no espelho.

“As dietas de moda não têm fundamento científico”, adverte Halpern. “Seguidas à risca, elas quase sempre levam ao emagrecimento rápido, mas também podem causar uma anemia”, exemplifica. No fundo, todos sabem de cor qual seria o regime ideal: comer um pouco de cada tipo – de alimento (verduras, legumes. carnes, frutas e cereais) em horários adequados para as refeições, sem abusar de doces nem de frituras. Sucesso garantido. Mas as pessoas acabam apelando para aquelas dietas que prometem fazê-las perder em uma semana os quilos conquistados em meses. “Se alguém faz uma dieta cheia de restrições, há cerca de 90% de chance de recuperar o peso perdido, tão logo volte a ter uma vida normal”. observa Halpern. “Justamente porque não aprendeu a dispor com moderação de todo tipo de comida presente no cotidiano.”

Quando as formas do corpo se alargam e encolhem sucessivamente feito uma sanfona, graças a diversos regimes fracassados, a pessoa tende a não regressar ao seu antigo ponto de partida na balança, ficando mais gorda após cada tentativa frustrada de ser magra. Engordar significa rechear determinadas células, os adipócitos, com moléculas gordurosas, que correm no sangue. Redondos, os adipócitos lembram balões, capazes de aumentar dez vezes de volume — elasticidade só comparável à das células da superfície da pele. Quando chegam ao limite máximo de armazenamento de gordura, elas se dividem ao meio, em vez de estourar.

Se o organismo é submetido a um regime severo para emagrecer, esses reservatórios de gordura se esvaziam; sua quantidade, porém, é mantida. Assim, é como se os adipócitos aguardassem o primeiro deslize alimentar para ficarem inchados novamente. Quando as moléculas de gordura entram na circulação sangüínea, uma enzima chamada lipoproteína lipase (LPL) trata de arrastá-las para dentro dos adipócitos famintos — só que onde antes havia uma única dessas células, passam a se encontrar duas. Se o fenômeno do ioiô de balança se repetir, existirão quatro, oito, e assim por diante. Essa progressão é acusada pela fita métrica, marcando uma cintura mais grossa a cada final mal resolvido de dieta.

Mesmo as pessoas que fizeram tratamentos bem orientados por médicos correm o risco do chamado efeito sanfona, se não tomarem cuidado com a manutenção do novo peso. “Os maiores inimigos, nessas horas, são os conceitos falsos”, opina a nutricionista Mônica Beyruti, que divide o seu tempo entre os estudos de pós-graduação na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e a orientação de pacientes de uma clínica endocrinológica paulistana. Muita gente diz não saber o motivo de ter recuperado alguns quilos extras, uma vez que belisca queijo branco”, conta. “Ora, queijo branco tem menos gordura do que queijos amarelos. Mas, ainda assim, possui bastantes calorias”.

A maior fonte de “falsos conceitos”, de acordo com a definição da nutricionista, morena e esbelta, são os famosos alimentos diets, cuja indústria nacional movimentou cerca de 200 milhões de dólares nos últimos doze meses. Em geral, são produtos em que o açúcar foi substituído pelos não – calóricos adoçantes. Ou seja, destinam-se a deixar mais doce a vida dos 8 milhões de diabéticos brasileiros. Contudo, o mercado desses alimentos acabou se tornando robusto e chega a alcançar quase 30 milhões de consumidores — mais de dois terços deles preocupados em continuar entrando numa roupa justa. “Só por não conterem açúcar não significa que não engordem”, esclarece Mônica. Ao se comparar uma barra de chocolate normal e outra, do mesmíssimo tamanho, de chocolate diet, nota-se que os ingredientes gordurosos aproximam os dois produtos, em termos de calorias, o que os faz engordar quase o mesmo tanto.

As calorias são unidades de energia que determinada comida gera no organismo. Na economia do corpo humano, o peso permanece inalterado quando a quantidade de energia gasta, seja num piscar de olhos à elaboração de um pensamento, empata com a quantidade de energia obtida nas refeições; se o consumo de energia é maior do que sua aquisição, o corpo emagrece; por sua vez, a pessoa engorda se ingere mais calorias do que seu organismo queima para funcionar. Parece uma matemática simples, mas o organismo de diferentes pessoas consome combustível de forma diferente.

Numa experiência realizada na Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, os cientistas ofereceram uma dieta rica em gorduras para voluntários com peso normal e voluntários obesos (no jargão médico, gordos são aqueles com peso acima da média ideal para pessoas de determinada idade e estatura; obesos são apenas aqueles cujo peso em excesso ultrapassou 30% do valor dessa média). Os cientistas notaram que, para aumentarem 1 quilo de peso, os voluntários magros precisavam ingerir cerca de 8.400 calorias por dia, durante uma semana; para engordarem igualmente um único quilo, bastava os obesos consumirem 4.700 calorias nas refeições, durante o mesmo período. “Existem fatores genéticos”, diz o clínico geral Nicolau Machado Caivano, de São Paulo. Segundo ele, por volta dos 2 anos de idade, já se pode identificar quando uma criança tende a ser um obeso: “Estudos mostram que suas células adiposas são muito maiores do que as de bebês com predisposição a se tornarem adultos magros”. Mas, na opinião de Caivano, fica difícil saber até que ponto a obesidade é herdada pelos genes — “ela é mais freqüente em filhos de pais obesos, admite — e até que ponto o problema é assimilado do ambiente em que se vive.

Apenas cinco em cada cem gordinhos ou mesmo peso pesados, feito os obesos, têm alguma disfunção nas glândulas que controlam o entra e sai de energia do corpo — como a tireóide, na altura do pescoço, encarregada de governar o metabolismo. De fato as mulheres na menopausa têm maior tendência a engordar: “A produção dos hormônios tireodianos fica mais lenta”, diz Caivano. “A mulher, nessa idade, tem de aceitar que dificilmente irá manter o corpo que tinha aos 20 anos . Aceitar os limites do corpo é fundamental: “Algumas pessoas jamais serão esquálidas. Ao tomarem consciência disso, elas se tornam menos ansiosas e emagrecem, dentro dos seus padrões, com mais facilidade. As dietas têm muito mais a ver com a cabeça do que com o estômago”, afirma.

Para saber mais:

A batalha da balança

(SUPER número 5, ano 3)

Sob o domínio da Lua

(SUPER número 8, ano 8)

Encolhi o gordinho

(SUPER número 10, ano 9)

Exemplos de péssimos exemplos

Três regimes que foram moda e acabaram reconhecidos como enormes enganos:

Dieta de Beverly Hills

No inicio da década de 80, os adeptos da alimentação natural ficaram fãs da dieta criada pela ex – rechonchuda californiana Judith Mazel. Ela pregava que certos frutos tropicais, como o mamão papaia e o abacaxi, tinham enzimas capazes de destruir as gorduras do corpo — por isso, as pessoas com vontade de emagrecer, deviam passar dias se alimentando apenas de frutas. Na verdade, as frutas podem estimular os rins a produzir mais urina. Quando os seguidores da dieta de Beverly Hills pensavam estar emagrecendo, eles estavam, isso sim, perdendo a água do organismo. Ao afetar o equilíbrio hídrico do corpo, a dieta provocava taquicardias. Além disso, por ser pobre em proteínas, deixava a pessoa enfraquecida, a médio prazo.

Dieta da lua

Há cinco anos. diversas estrelas brasileiras de TV começaram a divulgar a seguinte receita: a partir do momento em que ocorre uma mudança de Lua e nas 24 horas seguintes, a pessoa só pode ingerir Iíquidos: chás, sopas, sucos e vitaminas coados. O fundamento científico desse método é o mesmo das simpatias de festas juninas. Quem acredita nele, paga um preço: podem ocorrer sobrecarga nos rins e eventuais prisões de ventre.

Dieta do dr. Atkins

Essa foi a coqueluche dos anos 70, especialmente nos Estados Unidos. O médico Robert Atkins desenvolveu uma dieta que permitia consumir carnes, ovos e bacon à vontade, alimentos que os americanos veneram — daí o sucesso em seu país. Embora esses alimentos, sejam gordurosos é preciso quebrar suas moléculas, muito grandes, para que sejam armazenadas dentro dos adipócitos.O custo energético dessa quebra é descontado do valor calórico dos alimentos. Daí, os seguidores dessa dieta acabam emagrecendo. Mas estão terminantemente proibidos de comer carboidratos: cereais, doces e massas. Esses alimentos poderiam fornecer toda a energia necessária para partir as moléculas de gordura — e então tudo iria por água abaixo. O grande problema do regime do dr. Atkins é que as pessoas acabam com taxas elevadíssimas de colesterol. Para hipertensos, por exemplo, ela é um perigo.

Programa bem alimentado

A pessoa acusa o bombom, que saboreia todo fim de tarde no trabalho, pela cintura desfigurada. Mas, para não ficar com peso na consciência, revela detalhadamente o que comeu, de manhã até a hora de dormir, nos últimos três dias. Um computador, então, pode absolver o chocolate e mostrar que os centímetros a mais devem ser causados, na realidade, por aquele sanduíche engolido às pressas no almoço somado àquela colher de óleo no tempero da salada do jantar. Pesquisadores da Escola Paulista de Medicina desenvolveram um dos mais completos programas do mundo inteiro, para analisar dietas. “Quando iniciamos o trabalho, em 1984, estávamos preocupados com a alimentação dos pacientes com insuficiência renal”, explica o professor Meide Anção, do Centro de Informática em Saúde. Essas pessoas precisam ter um controle rígido do cardápio. Por exemplo: não podem comer nada que contenha muito fósforo; em compensação, devem suprir a carência de cálcio, outro mineral.

Antes, uma nutricionista com bastante experiência perdia duas horas para calcular a quantidade aproximada de cada nutriente na alimentação de um doente: “Hoje, o computador faz esses cálculos em oito minutos”, revela a nutricionista Lílian Cuppari, que participa do projeto desde o início. Em parte graças a seu entusiasmo, o programa nunca ficou estagnado: “Selecionei cerca de 600 alimentos, incluindo alguns típicos das regiões brasileiras” ela conta. “Basta digitar o que uma pessoa come durante o dia e o computador é capaz de calcular até o total de aminoácidos, as unidades básicas das proteínas, que ela ingere por dia.” O chamado Programa de Nutrição também calcula o peso ideal da pessoa, de acordo com o sexo, a idade, a estatura e a ossatura “Quando alguém está gordo, a análise do que ele come pode dar pistas sobre os erros em sua alimentação. Mas, para orientar a dieta, a nutricionista continua sendo indispensável, defende o professor Anção.

Esforço relativo

Quem acredita que exercícios compensam os excessos cometidos à mesa, só porque queimam calorias, está quase enganado. Qualquer ginástica consome energia, mas nem tanto. Uma hora e meia pedalando, por exemplo, serve para gastar as calorias de uma porção de arroz com feijão (duas colheres grandes de cada um desses alimentos). É bem verdade que se uma pessoa não aumentar o teor calórico de suas refeições e se exercitar vigorosamente durante 1 hora por dia, de domingo a domingo, perderá até 4 quilos depois de um ano de muito suor.

No entanto, segundo o médico paulista Nicolau Machado Caivano, os benefícios da ginástica são indiretos, para quem pretende perder peso. A vantagem de malhar com disciplina é que em esforço, o organismo produz as chamadas endorfinas — moléculas comparáveis a calmantes naturais. “Essas substâncias podem atenuar a ansiedade, que leva muitas pessoas a comer mais do que necessitam”, diz ele. “Além disso, quem faz algum esporte passa a ter uma melhor imagem do próprio corpo, talvez porque a flacidez vá sendo substituída por músculos tonificados. Essa silhueta, com formas mais definidas, estimula a pessoa a não sair da dieta “