Clique e Assine a partir de R$ 8,90/mês

Molécula presente em veneno de abelha destrói células de câncer em laboratório

A melitina combate tumores nas mamas especialmente agressivos e com poucos tratamentos disponíveis, segundo novo estudo. Testes em humanos, no entanto, ainda devem ser feitos.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 7 set 2020, 21h05 - Publicado em 7 set 2020, 21h00

Se você já foi picado por uma abelha, deve saber que é uma experiência bastante dolorosa. O veneno desses insetos possui um componente chamado melitina, que penetra nas células da pele e promovem a sensação de dor. Um novo estudo, porém, descobriu que a mesma molécula pode ter um potencial terapêutico promissor: destruir células de tumores malignos.

Pesquisadores australianos vinham estudando alguns sub-tipos de câncer de mama, incluindo um menos comum e especialmente agressivo, conhecido como câncer de mama triplo-negativo. Ele leva esse nome porque não apresenta três moléculas que outros cânceres de mama geralmente possuem: o receptor de estrogênio, o receptor de progesterona e o receptor HER2. Isso é um problema, já que os tratamentos específicos para outros tumores têm como alvo exatamente esses receptores que não existem no triplo-negativo. Ou seja, os outros tratamentos são ineficazes contra ele.

Cerca de 15% de todos os diagnósticos de câncer de mama são do tipo triplo-negativo. Como não há um tratamento específico para ele, utiliza-se em geral recursos mais gerais contra os tumores, como quimioterapia e cirurgias. Tentativas anteriores de se desenvolver um medicamento específico contra as células desse câncer não se mostraram muito frutíferas, porque as substâncias acabavam destruindo tecidos saudáveis no processo.

  • No novo estudo, publicado na revista Nature Precision Oncology, cientistas australianos testaram o uso da melitina encontrada em veneno de abelhas como tratamento para esses tumores. A substância já havia sido apontada anteriormente como um possível caminho para destruir células cancerígenas devido a suas propriedades citotóxicas, incluindo para melanomas. De fato, a melitina não está presente apenas no veneno das abelhas – ela também é produzida e armazenada nos próprios tecidos do inseto, funcionando como uma arma contra patógenos e uma possível defesa contra doenças infecciosas. Apesar desses indícios, não havia um estudo que de fato testasse o tratamento até o momento.

    Em células de câncer cultivadas em laboratório, o veneno das abelhas melíferas (Apis mellifera, também conhecida apenas como abelha-europeia) se mostrou extremamente eficaz. Ele destruiu as membranas celulares das células que formam o tumor em cerca de uma hora. Para verificar se a melitina de fato era a substância responsável por esse efeito, os pesquisadores também testaram o veneno de uma outra abelha, a mamangaba (Bombus terrestris), que não possui melitina, mas sim outras substâncias também capazes de destruir células. O veneno dessas abelhas, por sua vez, quase não teve efeito nos tumores, o que indica que a molécula responsável de fato é a melitina. 

    Continua após a publicidade

    A melhor parte: além de destruir as células dos tumores, uma quantidade específica do veneno da abelha causou poucos danos às células saudáveis – algo essencial para um tratamento médico. O estudo indica que isso ocorre porque as células do câncer expressam duas moléculas específicas – chamadas EGFR e HER2 – que não aparecem com tanta intensidade em tecidos normais. O veneno de abelha, por sua vez, parece interagir mais com esses receptores. Além de destruir por completo as células em 60 minutos, o tratamento também impediu que elas se reproduzissem em menos tempo ainda – 20 minutos. Isso porque o veneno pode interferir nas mensagens químicas que levam ao processo de divisão celular do tumor.

    Não satisfeitos, a equipe também produziu uma versão sintética  da melitina, e os testes mostraram que a versão de laboratório da substância teve efeito quase igual ao veneno produzido naturalmente pelas abelhas. Eles testaram se seria seguro utilizar a molécula em conjunto com outros tratamentos de quimioterapia, utilizando camundongos. Nos testes, a melitina teve resultados promissores, especialmente quando combinada com o docetaxel, um medicamento já utilizado para tratar vários cânceres de mama.

    “A combinação de melitina e docetaxel foi extremamente eficiente na redução do crescimento do tumor em camundongos”, disse em comunicado Ciara Duffy, autora do estudo.

    Os resultados são bastante positivos, mas é essencial lembrar que os estudos foram feitos apenas em laboratório. Centenas de substâncias podem destruir células de câncer cultivadas em laboratório, mas, quando se trata do corpo humano, o processo é bem diferente. Os próprios autores escrevem que o próximo passo é testar a toxicidade da substância em células normais – afinal, a melitina é a principal causadora da sensação de dor em uma picada de abelha. Isso sem falar do perigo para pessoas alérgicas, em quem o veneno pode ser fatal. Por isso, qualquer tratamento que envolva a molécula deve levar em conta todos os efeitos colaterais no nosso corpo.

    Até lá, nada de tratamentos alternativos que envolvam picadas de abelhas em pacientes com câncer – vai causar mais mal do que bem.

    Continua após a publicidade
    Publicidade