Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

O pó da onipotência

A planta que brota nos Andes virou emblema da busca frenética do sucesso.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h38 - Publicado em 31 ago 1998, 22h00

Pedro Biondi

A cocaína é a droga da euforia. Cheirada, injetada ou fumada, ela incute em seus usuários fantasias de força, poder, beleza e sedução. Nasceu nos Andes, onde os indígenas têm o costume de mascar a folha da coca como estimulante. Entrou na Europa em forma de um pó branco, resultado do refino da planta sul-americana, e em menos de um século se tornou símbolo do estilo de vida frenético dos jovens executivos do mercado financeiro. Hoje, entretanto, suas maiores vítimas são os pobres, que passaram a ter acesso à droga com a difusão do crack – sua versão fumável e barata, que causa dependência quase instantânea. Uma escolha suicida.

Elixir mágico já foi vendido em farmácias

O efeito estimulante da coca, planta da qual se extrai a cocaína, já era conhecido pelos indígenas dos Andes muito antes da conquista espanhola, no século XVI. Mas seu consumo era rigorosamente controlado. Fora dos rituais religiosos, os únicos que podiam mascar as folhas eram os mensageiros, obrigados a correr a pé enormes distâncias, respirando o ar rarefeito da cordilheira. Os espanhóis generalizaram esse hábito ao distribuir coca aos nativos submetidos ao trabalho forçado nas minas.

A Europa só se interessou pela planta em 1862, quando o químico alemão Albert Niemann conseguiu, em laboratório, produzir, a partir da coca, um pó branco – o cloridrato de cocaína. No início, ele era vendido nas farmácias como remédio, misturado ao vinho. Só foi proibido na virada do século, quando os casos de morte pelo seu abuso come-çaram a assustar.

Mais do que a ilegalidade, o que levou a cocaína ao ostracismo foi o surgimento das anfetaminas, mais baratas. Mas, na década de 70, a gangorra se inverteu. Os efeitos nocivos das anfetaminas “reabilitaram” a cocaína. Associada à ambição e ao dinamismo, ela se tornou a droga típica dos anos 80. Passou a ser aspirada vorazmente por jovens angustiados e executivos pressionados pela competição nos negócios, os yuppies. Em festas, a oferta de pó pelos anfitriões se tornou um sinal de exibicionismo de novos-ricos.

Ficha técnica

Nome

Cocaína, crack, merla, pasta de coca.

Classificação

Alcalóide estimulante do sistema nervoso central.

De onde se extrai

Folhas do arbusto Erythroxylon coca.

Origem

Andes centrais (Bolívia e Peru).

Formas de uso

Aspirada, fumada e injetada.

O corpo turbinado

A coca é um estimulante poderoso.

Efeitos imediatos

1. Diminuição da fadiga, da fome e da sensibilidade à dor. Paranóia.

Continua após a publicidade

3. Aumento da pressão sangüínea. Taquicardia. Grandes doses podem causar parada do coração e morte.

Efeitos a longo prazo

1. Dependência e lesões cerebrais.

2. Mucosas nasais corroídas.

4. O crack irrita os brônquios e contém impurezas cancerígenas.

5. Perda de peso e alterações hormonais.

Euforia exige doses cada vez maiores

O cantor inglês Sting, ao lamentar a época em que cheirava cocaína, a definiu como “a mais patética das drogas, a maneira de Deus dizer que você já ganhou dinheiro demais”. Com a multiplicação dos casos de morte por overdose, a coca perdeu muito do seu atrativo como um símbolo de riqueza e de sofisticação. O avanço da heroína – que já conquistou o mercado europeu e se espalha pelo resto do mundo, inclusive o Brasil – é considerado um problema bem mais grave. Mas não se pode imaginar que o pó branco esteja saindo de cena. Uma estimativa da Organização das Nações Unidas de 1997 registra 13 milhões de usários – duas vezes mais que em 1984.

A cocaína costuma causar um efeito de euforia e agitação intensa. Seus usuários se sentem autoconfiantes, com vontade de falar e de se movimentar. Com o uso freqüente, passam a necessitar de doses cada vez maiores para reviver as sensações agradáveis do início. Surgem sintomas de distúrbios mentais, como mania de perseguição e a irritabilidade. Lesões cerebrais graves podem aparecer com poucos anos de uso. O dependente de cocaína tem insônia e falta de apetite. Os casos de morte decorrem, quase sempre, de doses exageradas ou de mistura com outras drogas. No Brasil, seu uso pela via injetável, entre grupos de viciados que compartilham a mesma seringa, é um dos principais fatores de disseminação da Aids.

Uma paixão que durou pouco

Quem diria: Sigmund Freud (1856-1939), o pai da Psicanálise, foi um adepto da cocaína. Ele provou a droga pela primeira vez aos 27 anos, no início de sua carreira médica, e se entusiasmou por aquele misterioso pó que fazia esquecer o cansaço. Passou a receitá-lo como remédio para diversos males, da depressão à cólica. Num texto de 1884, Sobre a Coca, escreveu: “É como se a necessidade de comida e sono, que se faz sentir em algumas horas do dia, simplesmente sumisse”. Além de recomendar o pó à mãe e aos amigos, exaltou suas propriedades em cartas apaixonadas à sua noiva, Martha – algumas delas sob o efeito da cocaína, que bebia diluída em água e, às vezes, injetava. A empolgação desapareceu diante da morte de um amigo ao qual havia receitado 1 grama de pó por dia. Freud abandonou a coca em 1887, aos 31 anos, e nunca mais a elogiou. Fez o que pôde para que seus artigos sobre a droga fossem esquecidos da sua obra.

Ingrediente original

O nome do refrigerante mais popular no planeta não é uma coincidência. Inventada em 1894, a Coca-Cola tinha, de fato, cocaína em sua fórmula original – e deve muito de seu êxito inicial ao efeito estimulante provocado pela droga, que, na época, circulava livremente. Um anúncio de 1888 sugeria: “Você vai ficar surpreso ao perceber como Coca-Cola reanima as mentes cansadas”. Em 1903 (quando a garrafa era a da foto ao lado), os fabricantes tiraram a cocaína da receita e a substituíram por cafeína.

A devastadora escalada do crack

O que preocupa mesmo as autoridades brasileiras não é tanto a cocaína em pó – mais consumida pelas classes de maior poder aquisitivo – e sim o crack, sua variante fumável, que vicia com apenas três ou quatro doses e faz efeito em menos de 10 segundos. Mais barato que a cocaína (uma dose custa cerca de 5 reais), o crack está se alastrando no país com uma rapidez comparável à de sua ação no organismo. A “pedra”, como é conhecida, chegou à Grande São Paulo em 1988 e, em dez anos, já conquistou 120 000 usuários – o que, no caso, é quase sinônimo de dependentes. Na parte mais decadente do centro da cidade, o tráfico criou uma espécie de feira livre de venda e uso da pedra, a Crackolândia. “Aqui todo mundo usa. A gente passa a noite pipando e de dia descansa”, disse à SUPER uma moradora de rua, de 46 anos. Na Crackolândia, é comum encontrar meninas de menos de 18 anos se prostituindo em troca de crack ou de dinheiro para comprá-lo. As maiores vítimas, em São Paulo, são os meninos de rua. Uma pesquisa do Cebrid com 38 crianças, em 1993, revelou que 48 delas fumaram crack naquele ano. Curiosamente, a droga é quase inexistente no Rio de Janeiro. Os traficantes de lá proíbem o crack, temendo que ele vicie os adolescentes que trabalham para o tráfico nos morros.

O crack surgiu nos Estados Unidos, no final dos anos 70. Era, no início, uma droga “de elite”, de uso restrito. Tornou-se uma epidemia ao entrar nos guetos miseráveis das cidades americanas, onde faz estragos entre os jovens negros e de origem latino-americana. Mas nem todos os viciados são pobres. O crack também seduz indivíduos de classe média e alta, atraídos pelo ambiente que envolve o consumo.

Mistura simples e mortífera

O crack custa menos do que a cocaína em pó porque é um produto mais grosseiro. As duas drogas partem da pasta-base da coca, obtida pela mistura das folhas esmagadas com querosene e ácido sulfúrico diluído. Até o pó, são necessárias outras etapas de purificação, em que entram éter, acetona e ácido clorídrico. O crack, em forma de pedra, é a própria pasta misturada com bicarbonato de sódio. O nome imita o som das pedras queimando no cachimbo, geralmente improvisado com um pedaço de antena de carro e um pote de iogurte. O efeito dura de 1 a 2 minutos.“É a droga com maior capacidade de criar dependência”, diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, diretor da Unidade de Álcool e Drogas da Universidade Federal de São Paulo.

Três vias para o cérebro

Qualquer que seja a maneira de usar, o efeito é sempre destrutivo.

CHEIRADA, a cocaína passa pelas mucosas nasais (1), pulmões (2) e coração (3). Parte vai para o fígado (4) e parte chega ao cérebro (5) em cerca de 1 minuto.

FUMADA, a droga atinge o cérebro (3) em cerca de 8 segundos, após passar pelos pulmões (1) e coração (2). O efeito também é mais breve.

INJETADA, na veia, a cocaína cai imediatamente na corrente sangüínea (1) e atinge o coração (2). De lá, será bombeada diretamente para o cérebro (3), em cerca de 10 segundos.

Continua após a publicidade
Publicidade