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O que a provável saída dos Estados Unidos significa para a OMS

Trump quer cortar relações com a organização. Mas a ruptura é mais complexa que uma simples canetada – e pode afetar esforços humanitários em países pobres.

Por Carolina Fioratti - Atualizado em 1 jun 2020, 17h25 - Publicado em 1 jun 2020, 17h14

Na última sexta-feira (29), Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS). O presidente americano estaria insatisfeito com a relação entre a organização e a China, afirmando que o país asiático foi negligente no início da pandemia de covid-19 – colocando outras nações em risco – e agora tem controlado decisões da OMS. 

O rompimento com a OMS não é tão simples assim. Os EUA participaram do seu processo de criação e se tornaram membros da organização em 1948, por meio de uma resolução conjunta. Foi necessária aprovação do Congresso americano o país entrar, então essa permissão também será exigida para o país sair. Ou seja: o anúncio não é definitivo. Devemos esperar os desdobramentos. De acordo com a NPR, Trump possui atalhos para cortar o financiamento sem apoio dos parlamentares.

E que financiamento: os EUA são o país que mais põe dinheiro na OMS. Só no último ano, foram cerca de US$ 450 milhões destinados à causa. Agora, o governo afirma que irá redirecionar os fundos para outros projetos globais de saúde, dos quais falaremos mais adiante. De toda forma, a saída do país é prejudicial tanto para o combate à pandemia de Covid-19 quanto para o enfrentamento de outras epidemias espalhadas pelo globo. 

Para começar, vamos entender como a OMS se mantém: ela conta com 194 países membros que, anualmente, pagam uma espécie de taxa, que é ajustada de acordo com o tamanho e situação econômica do país. Como foi dito ali em cima, no ano passado, os EUA concederam à OMS US$ 450 milhões. Do valor, apenas 15% era taxa obrigatória – o resto entrou como doação. 

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De acordo com o periódico científico Nature, o governo americano fornece 27% do orçamento da OMS para erradicação da poliomielite (paralisia infantil); 19% para o combate a tuberculose, HIV, malária e outras doenças evitáveis por vacina, como o sarampo; e 23% para operações emergenciais de saúde. 

Trump diz que continuará financiando a saúde global por meio de agências próprias. Na última semana, o Departamento de Estado americano passou a divulgar uma iniciativa de US$ 2,5 bilhões que supervisionaria respostas às pandemias nacionais e internacionais, chamada Resposta do Presidente aos Surtos (PRO, na sigla em inglês). Também foi apresentado ao senado a “Lei de Segurança e Diplomacia da Saúde Global de 2020”, uma iniciativa para conter epidemias no país e no exterior que custaria US$ 3 bilhões. 

Esses novos projetos não terão, logo no início, um alcance tão expressivo. A OMS tem confiança e infraestrutura para atuar em diversos locais em que outros órgãos não conseguem intervir. Na República Democrática do Congo, que está sofrendo um surto de ebola, membros da OMS controlam sozinhos a epidemia enquanto outros grupos de assistência se afastaram com medo da guerra e da violência.

Kelley Lee, pesquisadora global de políticas de saúde da Universidade Simon Fraser (Canadá) explica a Nature que “você não pode simplesmente aparecer no Afeganistão e começar a vacinar pessoas”. Esse é um trabalho longo e delicado, que não depende só de dinheiro mas também de anos de dedicação.

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A distribuição de possíveis medicamentos e vacinas para diversas doenças, inclusive o novo coronavírus, também pode ser afetada. Mas o Departamento do Estado Americano diz que não: afirmou em nota que os EUA seguirão na liderança do combate à covid-19. Além disso, outros doadores podem segurar a barra durante a pandemia. O presidente chinês Xi Jinping, por exemplo, prometeu US$ 2 bilhões em resposta à doença.  

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, disse nesta segunda-feira (01) que a organização deseja manter a parceria com os EUA. Caso os laços sejam cortados de vez, sem nenhuma forma de contribuição, o país perderá seu direito ao voto para decisões globais de saúde, juntando-se a outros três que se encontram nessa situação: Venezuela, República Centro-Africana e Sudão do Sul.

A OMS é a principal responsável por disseminar notícias sobre a evolução em pesquisas e andamento de epidemias. Sem a colaboração dos Estados Unidos, a OMS pode ficar sem acesso a dados valiosos – que poderiam ser úteis para a gestão de crises futuras.

Com implicações tão graves, há quem acredite que o anúncio do americano é apenas manobra política. Thomas Whalen, cientista político da Universidade de Boston (EUA) disse à BBC Brasil que “O presidente Trump é o mestre da distração política. A retirada dos EUA da OMS é uma tentativa desesperada de afastar (a atenção da) sua gestão imperdoável e inepta da pandemia”.

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