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Quais são as doenças transmissíveis no sexo entre duas mulheres?

Spoiler: todas. Depois que a nossa repórter, lésbica, ouviu de uma médica que não precisava de alguns exames ginecológicos porque não havia feito sexo com homens, ela resolveu investigar. E encontrou um mar de informações erradas.

Tudo começou quando eu fui fazer um exame chamado colposcopia, indicado para detectar câncer de colo de útero e alterações causadas pelo HPV. Quem pediu o procedimento foi a minha ginecologista, que sabe que eu nunca transei com homens, e que queria garantir que eu não estivesse com alguma infecção não diagnosticada. Até aí, tudo certo. Na hora de fazer o exame, porém, a médica que ia realizar a colposcopia me perguntou se eu já havia tido relações sexuais. Eu respondi que sim – e recebi um olhar de desconfiança em troca. “Hm, mas com quem?”, ela perguntou. “Só com mulheres”, disse.

Ela não fez o exame. Disse que o procedimento era só pra quem “tinha feito sexo” e que “HPV é uma doença que pega no sexo”. Fiquei sem saber o que dizer. Eu fazia sexo, ué. Vi que ela não sabia absolutamente nada sobre relações entre mulheres – e desconfiei de sua resposta: já havia lido que o HPV é muito comum entre lésbicas, por exemplo. Saí do consultório perplexa e cheia de perguntas.

Fomos investigar e descobrimos como é difícil encontrar informação sobre o assunto. Por isso, eis aqui 5 perguntas práticas para entender o sexo entre mulheres – para ninguém mais passar perrengue na hora H e ter muito prazer, com segurança e sem estresse.

1 – Mas afinal, sexo entre mulheres é sexo?

Claro que é. São duas pessoas tendo prazer juntas, independente da orientação sexual de cada uma (lésbica, bissexual ou qualquer outro tipo de classificação com o qual se identifique). E esse prazer pode vir de várias formas, seja no oral, na penetração digital (com os dedos), no tribadismo (vagina com vagina, a famosa “tesourinha”), usando brinquedos sexuais… As possibilidades são muitas. Basta sentir vontade, ter consentimento e fazer.

2 – Quais são as ISTs que podem ser transmitidas durante o sexo entre duas mulheres?

O sexo entre duas mulheres não difere de nenhum outro nesse quesito: qualquer IST pode ser transmitida durante uma relação sexual se você não estiver se protegendo. Estamos falando de: herpes, sífilis, gonorreia, clamídia, HIV e – ao contrário do que me disse a médica – HPV.

3 – Por que agora as DSTs são chamadas de ISTs?

As ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) são infecções transmitidas principalmente pelo contato sexual sem o uso de um método preventivo. São causadas majoritariamente por bactérias, vírus ou fungos que podem se instalar na vagina, ânus ou boca. A transmissão ocorre no contato de mucosas com esses microorganismos (que podem estar no sangue, na pele, nas mucosa dos genitais, nas secreções vaginais etc). A mudança na nomenclatura foi feita porque o termo “doença” pressupõe sintomas e sinais visíveis no corpo, enquanto “infecções” é mais adequado já que várias dessas disfunções podem não apresentar sintomas.

4 – Como me proteger no sexo com mulheres?

A verdade é que não há um método ideal, que funcione 100% e que seja prático de usar. Todas as opções não passam de um quebra-galho. Na hora de compartilhar acessório ou fazer a penetração digital dá pra usar a camisinha masculina (envolto no acessório/dedo) ou feminina (dentro da vagina), porque isso evita o contato com as secreções vaginais.

Mas a grande dificuldade mesmo está no sexo oral – também é preciso usar uma barreira para se proteger. Uma opção é pegar uma camisinha (masculina ou feminina) e recortar, tirando aquele anel e fazendo um pequeno lençol. Dá para fazer o mesmo com uma luva descartável – você corta os dedos, abre e faz um lençol também. Outra alternativa pouco conhecida é o dental dam, que é um pequeno lençol de borracha tradicionalmente utilizado por dentistas, e que serve como uma barreira protetora. É difícil, porém, encontrá-lo.

 (Redação/Superinteressante)

Mas aí vem o verdadeiro problema. Todas essas opções não são práticas ou ~sensuais~: na hora do oral a menina teria que segurar o lençol enquanto faz o sexo – e isso restringe a posição, além de ficar escapando. “A verdade é que essa é uma prevenção muito difícil”, comenta a ginecologista e obstetra Márcia Borrelli. Algumas mulheres usam papel filme, mas não existem estudos científicos que comprovem a sua eficiência. “O grande motivo de não se usar nenhuma dessas alternativas é esse desconforto, é tudo pouco atrativo. É preciso pensar seriamente sobre alguma forma mais atrativa que possibilite sexo oral entre mulheres”, inclui o médico e especialista em saúde pública Valdir Monteiro Pinto. Mesmo na posição “tesourinha” não existe nada que proteja. “Quando se trata de proteção, tudo pras mulheres que fazem sexo com mulheres é meio adaptado, infelizmente não existe nada feito especificamente pra elas, é meio nisso de ‘o que temos pra hoje’.”, completa Valdir.

5 – Existe alguma ligação entre período menstrual e transmissão de ISTs?

Sim. O fluido menstrual é um meio de cultura para o crescimento de bactérias – ou seja, está cheio delas. Os métodos de prevenção, porém, são os mesmos, independente de a menina estar menstruada ou não. Outra coisa para se ter em mente é sobre a escovação de dentes. Existe o mito de que limpar os dentes antes de fazer sexo oral pode evitar doenças – mas o efeito pode ser exatamente o oposto. “Escovar os dentes, pode machucar a gengiva e causar alguma ferida. Então o ideal para fazer sexo oral é esperar um tempo depois da escovação, e não fazer logo em seguida”, explica a ginecologista Márcia Borrelli.

 


PEQUENO GUIA PRÁTICO DE ISTs ENTRE MULHERES

Não dá para confiar apenas nos sintomas para saber se você está com alguma infecção ou não. Os tempos de incubação de cada doença variam muito, por isso é importante sempre fazer os exames médicos.

   Infecções causadas por bactérias:

  1. Causam corrimento:
  • Gonorréia e clamídia: infecções que acometem principalmente o colo do útero, causam secreção e dor no pé da barriga durante a relação sexual.
  • Vaginose bacteriana: a vaginose é um desequilíbrio da flora vaginal que causa um corrimento mais acinzentado com mau cheiro, que se acentua perto da menstruação. Não é considerada uma IST.
  1. Causam ferida
  • Sífilis: causada por uma bactéria, a infecção começa com o cancro duro (uma feridinha que aparece onde a bactéria entrou – boca, vagina, ânus) e em grande parte das vezes a mulher não percebe sua existência porque essa ferida não coça, não sangra, não dói e desaparece com ou sem tratamento, mas não significa cura.

   Infecções causadas por vírus:

  • Herpes: é uma das infecções mais comuns, visto que 90% da população já entrou em contato com o vírus segundo dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia, podendo ou não desenvolver a doença. São pequenas bolhas que se juntam e rompem formando uma ferida que, diferentemente da sífilis, dói bastante e coça. A transmissão do vírus só ocorre enquanto há lesão (lembrando que ela pode não ser aparente).
  • HPV: existem diversas variações deste vírus, algumas que podem causar verrugas genitais e outras que podem levar a alguns tipos de câncer. Por ser uma infecção que usualmente não causa nenhum sintoma aparente, sua prevenção é de extrema importância, e deve ser feita por meio de vacinas e do exame Papanicolau (que mede a alteração das células do colo do útero). Inclusive por lésbicas, sim.
  • HIV: não possui sintomas até que a infecção evolua ao longo do tempo debilitando a imunidade do portador, abrindo a porta para doenças oportunistas – que é o que chamamos de AIDS.

   Infecções causadas por fungos:

  • Cândida albicans: causa a candidíase vaginal. Se manifesta através de coceira, vermelhidão, inchaço, corrimento esbranquiçado (parecida com leite talhado) e dor ou queimação ao urinar. A candidíase não é considerada uma IST.

   Infecções causadas por protozoários:

  • Trichomonas: causador da tricomoníase, que pode causar ardência e/ou um corrimento verde bolhoso.

 

Fontes para a reportagem: Valdir Monteiro Pinto, interlocutor de DSTs da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e do Programa Municipal de DST/Aids da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo; Márcia Borrelli, médica, ginecologista e obstetra.