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Quais são as doenças transmissíveis no sexo entre duas mulheres?

Spoiler: todas. Depois que a nossa repórter, lésbica, ouviu de uma médica que não precisava de alguns exames ginecológicos porque não havia feito sexo com homens, ela resolveu investigar. E encontrou um mar de informações erradas.

Por Steph Minucci e Beatriz Novaes - Atualizado em 29 Maio 2018, 12h02 - Publicado em 22 Maio 2018, 16h25

Tudo começou quando eu fui fazer um exame chamado colposcopia, indicado para detectar câncer de colo de útero e alterações causadas pelo HPV. Quem pediu o procedimento foi a minha ginecologista, que sabe que eu nunca transei com homens, e que queria garantir que eu não estivesse com alguma infecção não diagnosticada. Até aí, tudo certo. Na hora de fazer o exame, porém, a médica que ia realizar a colposcopia me perguntou se eu já havia tido relações sexuais. Eu respondi que sim – e recebi um olhar de desconfiança em troca. “Hm, mas com quem?”, ela perguntou. “Só com mulheres”, disse.

Ela não fez o exame. Disse que o procedimento era só pra quem “tinha feito sexo” e que “HPV é uma doença que pega no sexo”. Fiquei sem saber o que dizer. Eu fazia sexo, ué. Vi que ela não sabia absolutamente nada sobre relações entre mulheres – e desconfiei de sua resposta: já havia lido que o HPV é muito comum entre lésbicas, por exemplo. Saí do consultório perplexa e cheia de perguntas.

Fomos investigar e descobrimos como é difícil encontrar informação sobre o assunto. Por isso, eis aqui 5 perguntas práticas para entender o sexo entre mulheres – para ninguém mais passar perrengue na hora H e ter muito prazer, com segurança e sem estresse.

1 – Mas afinal, sexo entre mulheres é sexo?

Claro que é. São duas pessoas tendo prazer juntas, independente da orientação sexual de cada uma (lésbica, bissexual ou qualquer outro tipo de classificação com o qual se identifique). E esse prazer pode vir de várias formas, seja no oral, na penetração digital (com os dedos), no tribadismo (vagina com vagina, a famosa “tesourinha”), usando brinquedos sexuais… As possibilidades são muitas. Basta sentir vontade, ter consentimento e fazer.

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2 – Quais são as ISTs que podem ser transmitidas durante o sexo entre duas mulheres?

O sexo entre duas mulheres não difere de nenhum outro nesse quesito: qualquer IST pode ser transmitida durante uma relação sexual se você não estiver se protegendo. Estamos falando de: herpes, sífilis, gonorreia, clamídia, HIV e – ao contrário do que me disse a médica – HPV.

3 – Por que agora as DSTs são chamadas de ISTs?

As ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) são infecções transmitidas principalmente pelo contato sexual sem o uso de um método preventivo. São causadas majoritariamente por bactérias, vírus ou fungos que podem se instalar na vagina, ânus ou boca. A transmissão ocorre no contato de mucosas com esses microorganismos (que podem estar no sangue, na pele, nas mucosa dos genitais, nas secreções vaginais etc). A mudança na nomenclatura foi feita porque o termo “doença” pressupõe sintomas e sinais visíveis no corpo, enquanto “infecções” é mais adequado já que várias dessas disfunções podem não apresentar sintomas.

4 – Como me proteger no sexo com mulheres?

A verdade é que não há um método ideal, que funcione 100% e que seja prático de usar. Todas as opções não passam de um quebra-galho. Na hora de compartilhar acessório ou fazer a penetração digital dá pra usar a camisinha masculina (envolto no acessório/dedo) ou feminina (dentro da vagina), porque isso evita o contato com as secreções vaginais.

Mas a grande dificuldade mesmo está no sexo oral – também é preciso usar uma barreira para se proteger. Uma opção é pegar uma camisinha (masculina ou feminina) e recortar, tirando aquele anel e fazendo um pequeno lençol. Dá para fazer o mesmo com uma luva descartável – você corta os dedos, abre e faz um lençol também. Outra alternativa pouco conhecida é o dental dam, que é um pequeno lençol de borracha tradicionalmente utilizado por dentistas, e que serve como uma barreira protetora. É difícil, porém, encontrá-lo.

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Redação/Superinteressante

Mas aí vem o verdadeiro problema. Todas essas opções não são práticas ou ~sensuais~: na hora do oral a menina teria que segurar o lençol enquanto faz o sexo – e isso restringe a posição, além de ficar escapando. “A verdade é que essa é uma prevenção muito difícil”, comenta a ginecologista e obstetra Márcia Borrelli. Algumas mulheres usam papel filme, mas não existem estudos científicos que comprovem a sua eficiência. “O grande motivo de não se usar nenhuma dessas alternativas é esse desconforto, é tudo pouco atrativo. É preciso pensar seriamente sobre alguma forma mais atrativa que possibilite sexo oral entre mulheres”, inclui o médico e especialista em saúde pública Valdir Monteiro Pinto. Mesmo na posição “tesourinha” não existe nada que proteja. “Quando se trata de proteção, tudo pras mulheres que fazem sexo com mulheres é meio adaptado, infelizmente não existe nada feito especificamente pra elas, é meio nisso de ‘o que temos pra hoje’.”, completa Valdir.

5 – Existe alguma ligação entre período menstrual e transmissão de ISTs?

Sim. O fluido menstrual é um meio de cultura para o crescimento de bactérias – ou seja, está cheio delas. Os métodos de prevenção, porém, são os mesmos, independente de a menina estar menstruada ou não. Outra coisa para se ter em mente é sobre a escovação de dentes. Existe o mito de que limpar os dentes antes de fazer sexo oral pode evitar doenças – mas o efeito pode ser exatamente o oposto. “Escovar os dentes, pode machucar a gengiva e causar alguma ferida. Então o ideal para fazer sexo oral é esperar um tempo depois da escovação, e não fazer logo em seguida”, explica a ginecologista Márcia Borrelli.

 


PEQUENO GUIA PRÁTICO DE ISTs ENTRE MULHERES

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Não dá para confiar apenas nos sintomas para saber se você está com alguma infecção ou não. Os tempos de incubação de cada doença variam muito, por isso é importante sempre fazer os exames médicos.

   Infecções causadas por bactérias:

  1. Causam corrimento:
  • Gonorréia e clamídia: infecções que acometem principalmente o colo do útero, causam secreção e dor no pé da barriga durante a relação sexual.
  • Vaginose bacteriana: a vaginose é um desequilíbrio da flora vaginal que causa um corrimento mais acinzentado com mau cheiro, que se acentua perto da menstruação. Não é considerada uma IST.
  1. Causam ferida
  • Sífilis: causada por uma bactéria, a infecção começa com o cancro duro (uma feridinha que aparece onde a bactéria entrou – boca, vagina, ânus) e em grande parte das vezes a mulher não percebe sua existência porque essa ferida não coça, não sangra, não dói e desaparece com ou sem tratamento, mas não significa cura.

   Infecções causadas por vírus:

  • Herpes: é uma das infecções mais comuns, visto que 90% da população já entrou em contato com o vírus segundo dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia, podendo ou não desenvolver a doença. São pequenas bolhas que se juntam e rompem formando uma ferida que, diferentemente da sífilis, dói bastante e coça. A transmissão do vírus só ocorre enquanto há lesão (lembrando que ela pode não ser aparente).
  • HPV: existem diversas variações deste vírus, algumas que podem causar verrugas genitais e outras que podem levar a alguns tipos de câncer. Por ser uma infecção que usualmente não causa nenhum sintoma aparente, sua prevenção é de extrema importância, e deve ser feita por meio de vacinas e do exame Papanicolau (que mede a alteração das células do colo do útero). Inclusive por lésbicas, sim.
  • HIV: não possui sintomas até que a infecção evolua ao longo do tempo debilitando a imunidade do portador, abrindo a porta para doenças oportunistas – que é o que chamamos de AIDS.

   Infecções causadas por fungos:

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  • Cândida albicans: causa a candidíase vaginal. Se manifesta através de coceira, vermelhidão, inchaço, corrimento esbranquiçado (parecida com leite talhado) e dor ou queimação ao urinar. A candidíase não é considerada uma IST.

   Infecções causadas por protozoários:

  • Trichomonas: causador da tricomoníase, que pode causar ardência e/ou um corrimento verde bolhoso.

 

Fontes para a reportagem: Valdir Monteiro Pinto, interlocutor de DSTs da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e do Programa Municipal de DST/Aids da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo; Márcia Borrelli, médica, ginecologista e obstetra. 

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