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Rasteira no HIV

Desde que o coquetel de drogas anti-Aids começou a ser usado no Brasil, em 1997, o número de mortes caiu pela metade. Quem pode se tratar praticamente não morre mais da doença.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h33 - Publicado em 31 Maio 1999, 22h00

Ivonete D. Lucírio

O inimigo é forte e rápido. Em poucas semanas um vírus da Aids (HIV) espalha milhares de cópias. O corpo reage mas, sem as drogas, o HIV ganha a batalha. No Brasil não falta munição para combatê-lo. “Fornecemos os remédios gratuitamente”, afirma o infectologista Pedro Chequer, diretor da Coordenação Nacional de Aids do Ministério da Saúde.

O governo atende 70 000 doentes – todos os que procuram ajuda, em um universo estimado em 400 000 infectados. A maioria ou não sabe que está contaminada ou não quer fazer o tratamento. Mesmo assim, segundo Chequer, os remédios fizeram o número de mortos cair pela metade desde 1997. A redução foi da ordem de 6 000 para 3 000, por ano.

Isso confirma a eficiência do coquetel, que impede a reprodução do vírus. É verdade que o número de infectados cresce: houve 7 564 novos casos no ano passado. E parte carrega micróbios resistentes às drogas. Mas o HIV está sendo derrotado. “Quem se trata não morre mais de Aids”, arrisca o infectologista Guido Levi, diretor do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo.

A tática que derrubou o inimigo

Em 1996, a paciente Rosana, então com 34 anos, chegou ao consultório de Guido Levi com as defesas em frangalhos e um número enorme de vírus circulando no corpo. Estava magra e fraca. Em 1997 ela começou a ser tratada com uma combinação de três remédios (veja o infográfico ao lado). Desde então, Rosana ganhou peso e a quantidade de células CD4, uma das defensoras do organismo, aumentou muito, passando de apenas quinze por mililitro de sangue para 276. Hoje a paciente recebe mensalmente os medicamentos do Ministério da Saúde e mantém a Aids sob controle.

O milk-shake de poções que devolveu o ânimo a Rosana e ajuda milhares de outros cidadãos é composto de cerca de vinte drogas, divididas em dois grupos: os inibidores de transcriptase e de protease. Todas servem para bloquear a reprodução do vírus.

Os remédios têm pequenas diferenças químicas entre si e são mais eficientes se combinados dois a dois ou de três em três. O médico escolhe a fórmula adequada para cada paciente. Mas não toma a decisão sozinho. Ele segue recomendações feitas por um conselho dos principais especialistas em Aids do país.

Conselho de guerra

Desde 1996, eles se encontram no Ministério da Saúde, em Brasília, sempre que é preciso tomar medidas importantes. Foi o que aconteceu no dia 18 de maio. Dessa vez, conforme apurou a SUPER, a principal recomendação do conselho foi a de restringir o uso das inibidoras de protease, que, atualmente, fazem parte de mais de 60% dos tratamentos. Isso evitaria que o vírus se tornasse resistente a elas muito depressa. O remédio ficaria reservado apenas para os casos mais graves.

Enquanto os médicos tentam atrapalhar o contra-ataque do HIV, os laboratórios procuram reduzir um aspecto incômodo dos remédios. Os pacientes se queixam porque têm de engolir de quinze a vinte comprimidos por dia. “Muitos até deixam de tomar a dose completa”, conta o infectologista Davi Uip, da Universidade de São Paulo. Para reduzir o desconforto, versões recentes de algumas drogas estão vindo em concentração mais alta. Com isso, o número de comprimidos cai para somente dois ou três ao dia. O que nenhum esforço conseguiu, até hoje, foi eliminar os efeitos colaterais, que começam com dores de cabeça, náuseas e diarréia. Mais tarde vem o aumento excessivo de peso e dos níveis de colesterol. Mesmo assim, o sucesso do tratamento compensa, com folga, todos os inconvenientes.

Ressarce até as despesas que o governo faz com o coquetel. Cada paciente custa cerca de 1 000 reais por mês e já foram gastos 500 milhões de dólares para garantir o fornecimento deste ano. “Esse montante é, em parte, compensado pela economia com tratamento em hospitais. Desde que a terapia começou a ser financiada, foram evitadas mais de 47 000 internações”, diz Pedro Chequer, do Ministério da Saúde. “E nem estou levando em conta a profunda melhora no dia-a-dia dos pacientes”, completa.

Tão simples que se torna indestrutível

O HIV é feito de apenas nove genes e faz parte de um grupo de vírus, chamado retrovírus, muito primitivo. Para construir seus sucessores precisa seqüestrar substâncias das células que invade. E, mesmo sendo tão rudimentar, consegue muitas vezes driblar as drogas ao sofrer mutações durante a sua replicação.

Esse é o principal motivo pelo qual não se pode ficar acomodado com a eficiência do coquetel que vem derrubando a Aids. Em 1998, a infectologista Susan Little, da Universidade da Califórnia, avaliou 69 pacientes em cinco cidades americanas e concluiu que 25% deles já tinham vírus imunes a pelo menos um dos medicamentos. Um estudo semelhante, com 100 pacientes contaminados há três anos, está sendo feito no Brasil pelo Instituto de Medicina Tropical, da Universidade de São Paulo, e pelo laboratório Bristol-Meyers.

“Os dados preliminares indicam que os portadores de vírus resistentes não são tantos quanto esperávamos”, diz o virologista Paolo Zanotto, coordenador do projeto. Mas ele adverte que, desde o início dos exames, podem ter surgido novos mutantes que não aparecem nesse resultado animador.

Por enquanto, há um empate entre as drogas e o HIV. O desafio é evitar que ele tome a dianteira. “Se isso acontecer, será um problema contê-lo”, diz Davi Uip. “Dificilmente surgirá algum medicamento mais forte nos próximos cinco anos”, explica o cientista.

Também não há perpectivas de destruição total do invasor. Primeiro porque, em algumas partes do mundo, na Ásia e na África, faltam recursos e organização para comprar e distribuir o coquetel à população. Com isso, a epidemia continua crescendo. De acordo com um relatório divulgado no mês passado pela Organização Mundial da Saúde, a Aids foi a doença infecciosa que mais matou em 1998: 2,28 milhões de vítimas, a maioria na África.

A salvo no refúgio

Em segundo lugar, mesmo onde não falta remédio, nunca é possível destruir todos os HIVs. O motivo é que os bandidos desenvolveram uma estratégia astuta de se esconder dentro do núcleo de algumas células de defesa, chamadas linfócitos-T. Nesse refúgio, não podem ser atingidos e conseguem sobreviver até sessenta anos, de acordo com uma avaliação feita na Universidade Johns Hopkins, Estados Unidos.

O azar do HIV é que as pesquisas não param. Agora mesmo o infectologista Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, nos Estados Unidos, procura um jeito de expulsar o vírus de sua toca. Sua arma é uma substância que o corpo produz para estimular as células a crescer, a interleucina-II. “Suspeito que, ao disparar o processo de desenvolvimento das células T, a interleucina possa arrancar o HIV do esconderijo”, diz o cientista. “Assim, ele pode finalmente ser destruído pelas drogras”, raciocina Fauci. Se estiver certo, isso pode levar à rendição incondicional do invasor.

Para saber mais

Na Internet

http://www.vivacazuza.org.br

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http://www.aids.gov.br

Pergunte Aids (Ministério da Saúde) 0800-61-1997

Quanto pior, mais remédio

O número de células de defesa e de vírus determina a combinação das drogas.

O médico pede dois exames ao paciente. O primeiro revela quantas cópias de HIV ele tem no sangue, para saber o tamanho do exército inimigo. O segundo faz uma contagem das células de defesa chamadas CD4, que são as primeiras a ser invadidas e destruídas. Se elas são poucas, significa que o corpo está perdendo a batalha. A partir dessas duas informações, é feita a receita.

Sem gravidade

As grávidas usam apenas um tipo de droga. Elas representam 3,6% da população de infectados e tomam AZT, que é um inibidor de transcriptase reversa (veja à direita como funciona). O objetivo é proteger o feto, que também tomará AZT infantil após o nascimento.

Um pouco pior

Para 33,7% dos pacientes, são necessários dois inibidores de transcriptase. Assim, se um não der conta, o outro vem ajudar. Esse grupo é composto dos que carregam muitos vírus, mas contam com um número razoável de células de defesa.

Estado crítico

A maior parte, 63,7% dos aidéticos, recebe a terapia tríplice. Além dos inibidores de transcriptase, ela inclui um inibidor de protease que ataca o vírus na sua última fase de reprodução. A dose extra entra em cena quando as defesas ficam muito fracas e há sintomas.

Ataque duplo

Dois remédios atrapalham a replicação do HIV.

1. O vírus se une à superfície da célula e joga seu material genético, chamado RNA, dentro dela.

2. O RNA começa a se transformar em uma molécula de DNA, com forma de hélice. Aqui entram em ação drogas que interrompem o processo. Elas têm um nome complicado: inibidoras de transcriptase reversa. Usam-se uma ou duas inibidoras, conforme a necessidade.

3. Caso o inibidor não dê conta de parar o processo, o RNA vira DNA e se apossa do núcleo da célula. Aí, obriga a hospedeira a produzir pedaços de filhotes de vírus.

4. Fora do núcleo, as partes começam a se juntar para formar novos vírus inteiros. Isso só não ocorre se um outro remédio, o inibidor de protease, acabar com a festa.

Artilharia preventiva

O ideal é conseguir uma vacina que evite a contaminação.

No ano 2000, 1% da população mundial estará infectada. Por isso, tem muita gente trabalhando para descobrir meios de imunizar o corpo com ajuda de uma vacina. O Centro Regional de Pesquisa Yerkes, nos Estados Unidos, preparou uma poção com exemplares de HIV que haviam sido alterados até se tornar inofensivos (veja no infográfico). Macacos inoculados com esse caldo se tornaram imunes à doença. O antídoto, agora, vai ser experimentado em humanos.

1. A chave da vacina é um pedaço do RNA do HIV. Ele serve para alertar o sistema de defesa do organismo. Advertido, ele produz anticorpos contra o vírus.

2. Este naco de RNA é colocado dentro de um vírus da catapora, outro inimigo do corpo. Assim, a presença de duas ameaças deixa o organismo mais preparado para o combate.

Ele sabe como se defender

O HIV usa duas estratégias para sobreviver aos ataques.

A primeira é pura sorte…

Entre vários filhotes, surge um especial.

1. O vírus invade a célula, ordenando que ela produza cópias dele. Mas não é habilidoso e comete erros durante a replicação. O resultado é que um HIV nunca é igual a outro. Aparecem alterações na sua capa ou na parte interna. As falhas muito grandes são prejudiciais e matam o micróbio.

2. Outras mudanças não são tão importantes e o vírus continua funcionando do mesmo jeito, sendo destruído pelas drogas.

3. Contudo, algumas modificações no seu recheio acabam por beneficiá-lo. Eles passam a ser resistentes, ou seja, os remédios não fazem mais efeito.

… E a segunda, camuflagem

Escondido dentro da célula, o linfócito sobrevive.

1. Um vírus invade o linfócitos T, uma das células de defesa do organismo. Mas, em vez de replicar, cria uma cópia do seu material genético no núcleo da célula, que pode ficar anos adormecida. Enquanto isso, o vírus também fica inativo.

2. Uma infecção qualquer, como uma gripe, põe o linfócito em atividade novamente. Os genes do HIV também voltam à atividade e dão a ordem para a célula produzir mais e mais HIVs, reiniciando a infecção.

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