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Só será feio quem quiser

A medicina estética não pára de evoluir, prometendo um futuro no qual qualquer pessoa poderá ter a beleza que desejar - desde, é claro, que possa pagar

Alexandre Petillo

No filme Minha Vida sem Mim (2003), uma personagem revela o que faria se acertasse na loteria: “Quero o nariz da Cher, a bunda da Cher, os seios da Cher e as pernas da Cher”. Atualmente, para que os sonhos dela se realizem, bastaria ganhar o dinheiro – o resto fica por conta da altamente evoluída medicina estética. “Se uma paciente quiser ter o rosto parecido com o de alguma atriz famosa, é perfeitamente factível”, diz o cirurgião plástico gaúcho Denis Valente, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgiões Plásticos. Mas, segundo o médico, ainda há limites do que pode ser feito. “Não poderemos ser exatamente quem gostaríamos de ser. Isso só será possível com o avanço da terapia genética, uma vez que mudanças na altura, por exemplo, ainda não podem ser obtidas.”

O Brasil é o segundo país no mundo que mais realiza cirurgias plásticas, atrás apenas dos Estados Unidos. Em 2003, foram feitas 621 342 cirurgias no país. Desse total, mais da metade foi realizada com fins estéticos, em sua maioria lipoaspiração. E não pense que isso é coisa só de mulher: 19% das operações foram feitas em homens. E mais: as pessoas estão entrando na mesa de operação cada vez mais cedo. Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps), entre 2002 e 2003, o número de jovens com menos de 20 anos que se submeteram a cirurgias plásticas subiu 42% no Brasil.

A tendência é que as cirurgias plásticas se banalizem ainda mais nos próximos anos. O motivo é simples: os preços dos métodos de embelezamento estão caindo a cada ano e tendem a diminuir ainda mais, graças ao aumento da oferta de clínicas e de planos que fazem financiamento de cirurgias plásticas. Há dez anos, só quem tinha uma conta bancária polpuda tinha condições de investir na eliminação das marcas da idade ou na correção de imperfeições corriqueiras, como orelhas de abano ou um nariz avantajado. Hoje, qualquer pessoa pode sonhar em fazer uma lipoaspiração para eliminar os depósitos de gordura. No embalo, pode aplicar silicone para deixar os seios mais volumosos. E fazer outras sessões de lipoaspiração para enxugar a barriga e as costas e afinar a cintura. Nos cabelos, apliques podem deixar as madeixas do tamanho desejado. “Com o avanço das terapias, conseguimos fazer verdadeiros milagres no embelezamento humano”, diz Valente. “Certamente, só será feio quem quiser.”

Como ocorre em quase todas as mudanças comportamentais, a busca da beleza é alimentada pela cultura de massa. Astros da TV, do cinema e da música são os paradigmas dos que buscam uma recauchutagem geral ou parcial. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), a influência de personalidades públicas é um dos principais motivos que levam alguém a procurar uma clínica de estética. Entre as mulheres, os itens mais pedidos atualmente são os seios da modelo Gisele Bündchen, o bumbum da atriz Juliana Paes e o nariz da apresentadora Xuxa. Entre os homens, os best-sellers são pedacinhos de atores: o queixo e o nariz de Luciano Szafir e Reynaldo Gianecchini, o rosto de Marcello Antony e o conjunto da obra das faces de Tom Cruise e de Brad Pitt.

Novas Técnicas

Para realizar o sonho da clientela, as clínicas de medicina estética estão adotando técnicas cada vez mais sofisticadas. Uma das novidades é a bioplastia, uma cirurgia sem cortes, feita com a aplicação de implantes injetáveis permanentes que moldam o contorno facial e corporal. Outra técnica é a videoendoscopia, que exige incisões mínimas e é utilizada para o rejuvenescimento de rostos. Nesse método, introduz-se uma microcâmera por uma incisão de 1,5 centímetro no couro cabeludo. Outros três pequenos cortes acomodam os instrumentos cirúrgicos miniaturizados, que são manipulados pelo médico enquanto ele observa num monitor as imagens internas captadas pela microcâmera.

Outra cirurgia que começa a ser utilizada no Brasil é a gluteoplastia com tensores búlgaros. O procedimento aumenta o volume e ergue a região dos glúteos sem implante de silicone ou enxerto de gordura. O médico faz pequenas incisões e aplica fios sobre os músculos dos glúteos.

Os métodos de recauchutagem contemplam até mesmo as partes mais íntimas. Nos Estados Unidos, por exemplo, é crescente o número de mulheres que realizam a cirurgia plástica genital, apertando os músculos vaginais, arredondando ou encurtando os lábios, lipoaspirando a região púbica e até mesmo restaurando o hímen. Procedimentos antes adotados para resolver problemas como incontinência urinária e má-formação congênita são agora oferecidos como técnicas de “rejuvenescimento vaginal”, seja para melhorar o visual dos genitais, seja para acentuar a satisfação sexual.

Muito mais simples é a aplicação do Botox para disfarçar as rugas. A técnica se tornou tão corriqueira que, hoje, algumas mulheres vão ao médico fazer uma aplicação do Botox como se estivessem indo a um salão de beleza para arrumar os cabelos ou pintar as unhas. “As mais jovens aplicam o Botox esporadicamente para ir a um baile ou outro evento social”, diz o médico Laércio Gomes Gonçalves.

Fim da rejeição

Embora algumas cirurgias plásticas pareçam absolutamente desnecessárias, cabe ressaltar que os avanços nessa área beneficiam também pessoas que sofreram acidentes e tiveram parte do corpo danificado. O professor David Soutar, ex-presidente da Associação Britânica de Cirurgiões Plásticos, disse ao jornal The Guardian que 2020 deverá ser o ano de ouro da medicina estética. Até lá, prevê Soutar, uma importante barreira deverá ser superada. A ciência conseguirá criar pedaços de tecidos e estruturas inteiras, como orelhas, a pedido do cliente, usando as células do próprio paciente. Assim, deve eliminar o problema da rejeição de próteses e órgãos transplantados.

Resta saber se, com tudo isso, não estamos condenados a ser todos iguais. Será que todos os homens serão magros, terão ombros largos e a cara de Tom Cruise? E todas as mulheres terão peitão, bundão, cintura fina, cabelos loiros e a cara de Pamela Anderson? Seremos todos esteticamente perfeitos, mas sem nenhuma identidade? O cirurgião plástico Denis Valente não vê o risco da padronização da beleza. “Não seremos iguais, pois o conceito de beleza não é igual para todas as pessoas”, diz.

Tendências

• PARA TODOS

As pessoas estão fazendo cirurgia plástica cada vez mais jovens. E os homens estão em alta no mercado – já respondem por um quinto das operações.

• REJEIÇÃO

Até 2020, a ciência deve conseguir criar tecidos a partir de células do próprio paciente, superando assim o problema da rejeição.

• NADA ESCAPA

As técnicas e os tipos de cirurgia estão se diversificando. Os métodos de recauchutagem incluem até mesmo o embelezamento de órgãos genitais.

Viagem no Tempo

A plasticaria de dra. Pâmela

Luciana Pinsky

– Adorei aquele queixo, mãe, dá para mim, dá, dá, dá, DÁ!!!!!

– Fica quietinha, menina, você é muito nova para isso. Melissa ensaia um choro, mas prefere observar as máquinas trabalhando. Seus olhos brilham ao ver carnes sendo marcadas, depois abertas por riscos precisos. Algumas recebem pequenos pacotes, outras diminuem à medida que a esteira rolante prossegue para o próximo estágio. Tamanha perfeição recebe ainda uma inspeção geral para ver se o serviço certo foi feito. São muitas opções. Atualmente, há no catálogo oito tipos de bocas, olhos, queixos e narizes, cinco modelos de coxas e bumbuns, quatro de quadris e um só de cintura e barriga porque, afinal, nesses dois lugares o mínimo é o máximo, claro! É olhar, escolher, deitar e sair. Tudo no mesmo dia. A plasticaria da dra. Pâmela ganhou ainda mais clientes ao garantir o seguro-espelho. Se depois de um mês a pessoa não estiver satisfeita com os resultados, ganha um novo procedimento de sua escolha. Um achado que aumentou a credibilidade – e os lucros – da doutora, que leva sua filha de 10 anos para o escritório-consultório-fábrica todo mês para que conheça seu ofício. A única aporrinhação é que toda vez a garota pede uma nova parte de corpo. Dessa vez a médica conseguiu acalmar a criança:

– Em dois anos, Melissa, você alcança a maioridade e com isso se tornará imputável, apta para votar e também para fazer plástica. Uma conquista de toda a sociedade para que os adolescentes participem, de fato, deste mundo que em breve será só de vocês. E eu prometo guardar o queixo e dar de presente no seu aniversário de 12 anos.

Luciana Pinsky é jornalista, mantém a coluna “Retratos”, de ficção, no site da SUPER e coordena a coleção de jornalismo da Editora Contexto