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Um médico bem diferente

Erickson revolucionou o tratamento da esquizofrenia com hipnose e técnicas não-verbais

Por 31 out 2004, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h31
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Álvaro Oppermann

Um passageiro desce do táxi em uma casa num bairro de classe média em Phoenix. Ele vem de Nova York e cruzou o Meio-Oeste americano para se encontrar com Milton Erickson, um dos maiores psiquiatras da época. Em 1950, a cena era comum. Diariamente, pacientes vindos de todos os cantos dos Estados Unidos e México visitavam o médico estimulados pelo sucesso de seu tratamento para casos tidos como insolúveis.

A reputação de Erickson, estranhamente, foi construída em cima de suas deficiências: ele era paralítico, não distinguia tons sonoros e tampouco enxergava cores. Suas limitações físicas contribuíram para que desenvolvesse uma sensibilidade fora do comum, que, 20 anos depois, seria responsável pelo advento da neurolingüística.

Erickson nasceu em 1901 em Aurum, Nevada. Ainda na infância, mudou-se com os pais para Wisconsin, onde os médicos constataram que o pequeno Milton não distinguia as cores, com exceção do púrpura. Apesar de ouvir perfeitamente, não conseguia diferenciar o tom dos sons – um agudo de um grave numa conversa ou música, por exemplo. Aos 17 anos, para piorar, teve poliomielite e nunca mais conseguiu andar.

Nos anos 20, ainda em Wisconsin, Erickson foi estudar medicina. Ao chegar a hora de decidir qual especialização seguir, escolheu a psiquiatria. O momento decisivo para sua futura carreira, no entanto, foi o encontro com o professor Clark L. Hull, especialista em hipnose.

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A hipnose foi essencial em sua prática clínica, mas o que mais chamava atenção em Erickson era sua acuidade sensitiva. Conseguia perceber mudanças sutilíssimas na inflexão de voz, na temperatura corporal, nas expressões faciais e até mesmo no tônus muscular dos pacientes. Tal sensibilidade ajudou-o sobretudo no tratamento de pacientes que sofriam de esquizofrenia.

O psiquiatra nunca se preocupou em escrever livros sobre seus casos clínicos. Nos anos 70, entretanto, dois pesquisadores do campo da psicologia, Richard Bandler e John Grinder, chegaram até ele. Notaram que a razão dos seus êxitos residia justamente na complexa rede de sinais não-verbais estabelecida entre médico e paciente. A dupla gravou sessões de Erickson, coletou dados e os sistematizou. Ao juntar os resultados do estudo com os obtidos por outros dois gênios da psiquiatria, Gregory Bateson e Virginia Satir, criaram a programação neurolingüística, um ramo da lingüística que estuda a estrutura do cérebro humano no que diz respeito à aquisição da linguagem, às desordens da fala e ao uso de uma língua. Ficaram ricos.

Milton Erickson, no entanto, não teve tempo de ver suas técnicas popularizadas. Morreu em 1980, ao lado da esposa e dos oito filhos. Em seus últimos anos, divertia-se assistindo televisão – era fã de Vila Sésamo. Depois que se aposentou, trocou a gravata pela camisa esporte. Só não trocou a cor delas: o púrpura.

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