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Como as ideologias do Vale do Silício impactam o funcionamento da internet

Colonização interplanetária, desenvolvimento irrestrito e a vitória da IA sobre a humanidade. Entenda as teorias e gurus que inspiram os bilionários techs

Por Eduardo Lima 13 Maio 2026, 12h00

O primeiro disse em um podcast que é preciso uma cultura “que celebre um pouco mais a agressão”. O segundo postou teorias conspiratórias sobre imigrantes, além de defender discursos de superioridade racial. E o terceiro sugeriu, durante um evento, que a ativista climática Greta Thunberg pode ser “o Anticristo”.

Parecem discursos de influenciadores do submundo da internet. Mas não. Eles pertencem, respectivamente, a Mark Zuckerberg (fundador e presidente da Meta, dona do Facebook, do WhatsApp e do Instagram), Elon Musk (do X, Tesla e SpaceX) e Peter Thiel, que não é tão famoso quanto os outros dois, mas é um dos principais investidores do Vale do Silício; foi o primeiro a apostar no Facebook.

Thiel é também um dos donos da Palantir, empresa de big data que oferece tecnologia de vigilância para os EUA. Recentemente, viralizou o manifesto da empresa, que defende o alistamento militar obrigatório nos EUA e a remilitarização de países como Alemanha e Japão, além de dizer que as empresas tech têm uma “dívida moral” com o governo norte-americano – e que deveriam ajudá-lo a produzir armas.

Juntos, esses três figurões da tecnologia somam mais de 1 trilhão de dólares em patrimônio líquido. E eles não são os únicos do Vale do Silício que parecem ter perdido o filtro. Alguns CEOs e executivos da região estão cada vez mais confortáveis em se associarem a valores extremistas.

Algumas ideias populares entre essa galera incluem ainda acelerar o desenvolvimento tecnológico sem nenhum tipo de freio e começar uma nova civilização em Marte, deixando quase todo mundo para trás numa Terra marcada pela crise climática.

Esses pensamentos não surgiram da noite para o dia. Para entender a raiz deles, vamos voltar às origens do Vale.

Colagem digital com dois homens em estilo glitch. À esquerda, rosto de um homem em tons de roxo e azul, com olhos e boca visíveis. À direita, homem sorrindo, de óculos escuros e camiseta preta, com fundo rosa e detalhes em azul e amarelo.
Nick Land (esquerda) e Mark Zuckerberg (direita) (Reprodução/Montagem sobre reprodução)
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No princípio, era o pomar

Durante a Guerra Fria, por questões de segurança, diversas empresas do setor de defesa deixaram os centros urbanos e se instalaram no campo – no caso, a zona rural da Califórnia –, com subsídios do governo dos EUA. Antes da chegada das companhias bélicas (como a Lockheed, onde trabalhou o pai de Steve Wozniak, cofundador da Apple), o Vale de Santa Clara, lar da maioria das empresas associadas ao Vale do Silício, era uma região tranquila, repleta de pomares.

A indústria militar e a ajuda estatal atraíram vários engenheiros, como o ganhador do Nobel William Shockley, que foi para a Califórnia nos anos 1950 produzir transistores à base de silício – peça-chave para a fabricação de eletrônicos que, duas décadas depois, daria o apelido para a região.

Craque da computação e antissocial, Shockley era centralizador e abertamente racista. As equipes da sua empresa eram clubes do Bolinha, com pouco espaço para as mulheres.

As características da empresa de Shockley serviram de base para muito do que veio depois no Vale do Silício. A forma como as companhias se estabeleceram ali facilitou essa influência (1). Os engenheiros que ganhavam dinheiro com uma boa ideia  – como Shockley – eram, por sua vez, os investidores de risco das startups, e moldavam as equipes e culturas dos novos negócios.

A partir dos anos 1970, os jovens engenheiros da Califórnia começaram a se ver como revolucionários que transformariam a sociedade em uma utopia tecnológica. O Vale do Silício era um caldeirão de ideias contraditórias – a contracultura que florescia nas universidades e o capitalismo que ela denunciava –, mas elas eram conciliadas com a crença no progresso e no potencial transformador das novas tecnologias.

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Colagem digital com duas imagens estilizadas. À esquerda, uma figura humana em tons de verde-oliva e azul-claro, com linhas horizontais. À direita, um homem em preto e branco granulado, com camisa clara e paletó escuro, olhando para baixo, com a mão direita levantada perto do queixo. O fundo é azul e roxo com linhas horizontais e formas abstratas.
Peter Thiel (Reprodução/Montagem sobre reprodução)

É essa conciliação de ideias contraditórias que, em 1995, os professores da Universidade de Westminster Richard Barbrook e Andy Cameron chamaram de “ideologia californiana” (2): a união entre o espírito livre dos hippies e o dos jovens empreendedores (os yuppies) para criar uma sociedade com liberdade de expressão total e verdadeiramente democrática com ajuda das máquinas.

O tecno-otimismo era tanto que, na mesma época, popularizou–se no Vale a extropia: a ideia de que os avanços da tecnologia vão permitir que as pessoas continuem a viver até quando quiserem, com a ajuda de nanotecnologia, biomedicina e criogenia.

Já em 1995, os professores britânicos alardeavam que os encantados pela ideologia californiana ignoravam o custo humano de suas ideias. As “tecnologias da liberdade” estavam se tornando “máquinas de dominação”, perpetuando as desigualdades dos EUA e fortalecendo grandes monopólios empresariais – as big techs.

Acelerados

No começo dos anos 2010, parecia que a ideologia californiana tinha prosperado. As redes sociais nos conectavam com amigos e desconhecidos de todos os cantos, e a possibilidade revolucionária dos algoritmos era aparente: manifestações no Egito, na Líbia, nos EUA e no Brasil eram organizadas pelo Facebook e pelo Twitter. A democracia cibernética havia chegado.

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Mas não demorou para a ilusão passar. Características estruturais dos algoritmos, como o excesso de feedback positivo, confirmando o que você já acredita, e a preferência por conteúdos que geram raiva montaram o tabuleiro para que as fake news durante a campanha de Donald Trump, em 2016, viralizassem.

Naquele ano, Peter Thiel foi o primeiro bilionário do Vale do Silício a apoiar Trump publicamente. Ele e os estrategistas do político compartilhavam a admiração por um recluso filósofo-blogueiro: Nick Land.

Colagem digital com dois homens em preto e branco sobre fundo colorido. À esquerda, um homem jovem com cabelo escuro e olhos penetrantes. À direita, Donald Trump, com expressão séria e mão levantada, vestindo terno e gravata. O fundo tem padrões abstratos em tons de roxo, azul e verde, com linhas horizontais e texturas pontilhadas.
Sam Altman (esquerda) e Donald Trump (direita) (Reprodução/Montagem sobre reprodução)

Nos anos 1990, Land morava no Reino Unido. Exagerava nas drogas, refletia sobre tecnologia e era um dos chefes do CCRU (Unidade de Pesquisa de Cultura Cibernética, na sigla em inglês), da Universidade de Warwick. As suas palestras encantavam (e assustavam) os alunos.

“Land diz que somos uma espécie ‘polinizadora’. A única coisa que dá sentido à nossa existência é que somos a espécie através da qual as tecnologias, enquanto um tipo superior de inteligência, irão se impôr, desenvolvendo no futuro uma sociedade de máquinas autônomas”, explica Fabrício Silveira, pesquisador e autor de O Exterminador do Futuro, primeiro livro sobre Land em português.

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Para Land, o que mais importa é o conceito da aceleração: o desenvolvimento tecnológico e capitalista precisa ser intensificado para criar um futuro em que “as máquinas são mais centrais do que os humanos”, explica Silveira. Na história do filme Exterminador do Futuro (1984), Land torce pela Skynet, e não por Sarah Connor.

Land largou a vida acadêmica e foi ser blogueiro na China. A partir daí, transformou-se num guru do Vale do Silício, assim como o também blogueiro Curtis Yarvin, dando as bases do movimento neorreacionário: eles defendem que deveríamos retornar à monarquia, com CEOs no lugar dos reis e Estados funcionando como empresas – sem todos os entraves à aceleração que o governo, a democracia, a grande mídia e as universidades representam.

O aceleracionismo e a neorreação podem parecer ideias nichadas, mas pegaram entre os ricaços do Vale do Silício. Marc Andreessen, que virou investidor de risco depois de criar o primeiro navegador gráfico para computador, publicou em 2023 o “Manifesto Tecno-Otimista”, que bebe tanto do aceleracionismo de Land quanto do futurismo italiano, movimento artístico que glorificava a velocidade e a guerra – e se associou ao fascismo.

“Não há problema material que não possa ser resolvido com mais tecnologia”, escreve Andreessen. Para quem acredita nessa máxima, qualquer restrição ao desenvolvimento tecnológico (como regular o uso e o desenvolvimento da IA ou das redes sociais) é absurda.

Andreessen e Sam Altman, CEO da OpenAI, são associados ao effective accelerationism (“aceleracionismo eficiente”, ou e/acc), movimento que defende o progresso tecnológico irrestrito e o desenvolvimento de uma IA superinteligente como solução para todos os problemas da humanidade – até a morte, como os extropianos sonhavam. Musk também já flertou com o assunto.

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O pensamento de Land é cada vez mais popular no Vale, sobretudo após o boom da IA. “É uma filosofia radicalmente pró-
-tecnologia, pró-desregulamentação, contra o Estado, que apela ao futuro e ao livre fluxo dos investimentos num mercado verdadeiramente aberto. Não sei mais o que as big techs podem querer”, diz Silveira. “É algo que lhes serve como luva.”

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Copia, só não faz igual

Os executivos do Vale do Silício também bebem da fonte da ficção científica. Um exemplo é Snow Crash (1992), de Neal Stephenson, uma distopia que se passa num século 21 onde as cidades viraram empresas e a vida só é boa no metaverso (foi Stephenson quem cunhou o termo, diga-se). O livro virou queridinho do mundo tech. Era leitura obrigatória dos desenvolvedores do Xbox e inspirou a criação do Google Earth, das criptomoedas e do próprio metaverso.

Elon Musk já declarou muitas vezes que era uma criança apaixonada por sci-fi. Fundação, de Isaac Asimov, era um dos seus favoritos. Nele, um herói genial prevê a decadência de seu império e, então, decide fundar colônias intergalácticas para salvar a espécie.

Segundo o bilionário, o livro serviu de inspiração para, no contexto da crise climática, pensar a expansão da humanidade para novos planetas, como Marte. Ao melhor estilo sci-fi, Musk chamou um designer de Hollywood para projetar o traje espacial minimalista da SpaceX.

Inspirar-se nas especulações da ficção científica não é um problema – Jornada nas Estrelas antecipou a criação do tablet, das videoconferências e até das portas automáticas. A coisa complica quando a interpretação é superficial e não leva em conta os debates éticos da evolução tecnológica. Snow Crash, por exemplo, critica o capitalismo desenfreado, mas essa parte não costuma integrar as discussões dos executivos do Vale. 

“É quixotesco”, afirma Michel Nieva, professor de filosofia da Universidade de Nova York e autor do livro Ficção Científica Capitalista. No clássico espanhol, Dom Quixote enlouquece de tanto ler romances de cavalaria. Aqui, os CEOs enlouquecem depois de ler ao pé da letra os livros de sci-fi. “Era para ser uma advertência ao futuro, e eles tomam como manual de instruções.”

Elon Musk com camiseta
Elon Musk (esquerda) e Curtis Yarvin (direita) (Reprodução/Montagem sobre reprodução)

Na prática

Nos primeiros oito meses depois que Musk comprou o finado Twitter, o discurso de ódio aumentou em 50% na plataforma (3). O empresário justifica a mudança no tom do X como uma defesa irrestrita da liberdade de expressão. Musk já baniu jornalistas que publicaram reportagens de que ele não gostou, e sua IA sem limites, o Grok, já gerou imagens sexualizadas de crianças.

No começo de 2025, Mark Zuckerberg anunciou que Facebook e Instagram abandonariam a checagem de fatos e afrouxariam os filtros de moderação. Foi um aceno a Donald Trump, que Zuckerberg acredita confiar para defender as big techs (uma crença plausível, dado o temor do presidente norte-americano ante o avanço chinês).

Musk e Zuckerberg estão acompanhando o que, há anos, já se mostrava uma tendência em suas redes sociais: a radicalização dos discursos, impulsionada pelo algoritmo. “À medida que a base de usuários vai se radicalizando, eles vão ganhando confiança para também adotar essa atitude – em especial porque viram que não tem muita gente ali para pará-los”, diz a antropóloga Letícia Cesarino, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A popularidade de ideias extremistas entre CEOs e fundadores, contudo, não parece se traduzir para a base da pirâmide no Vale do Silício. Não há pesquisas extensas sobre identificação política entre trabalhadores da indústria tecnológica dos EUA, mas sete em cada dez moradores da região votaram em Kamala Harris em 2024.

Funcionários já conduziram protestos internos no Google, na Amazon e na Meta contra a associação das empresas com Trump. Várias entidades da sociedade civil também estão mobilizando usuários da internet para enfrentar as big techs. É o caso da recém-lançada CTRL+Z, organização brasileira que pretende conscientizar as pessoas sobre direitos digitais, fazer jornalismo investigando as grandes empresas e entrar com ações judiciais estratégicas para tentar mudar precedentes e defender os usuários.

Uma forma de fazer isso é o Arquivo de Danos Digitais, canal da CTRL+Z para onde as pessoas podem mandar relatos de prejuízos ou violações de direitos causadas pelas big techs – como a suspensão de uma conta sem motivo explícito –, na intenção de organizar ações coletivas.

“Qualquer enfrentamento deve levar em consideração, expor e questionar a ideologia que sustenta esse sistema”, argumenta Tatiana Dias, diretora de programas da CTRL+Z.

Por enquanto, é essa ideologia do Vale do Silício, preconceituosa e extremista, que decide os rumos da internet. Expô-la é o primeiro passo para mostrar que não precisa ser assim.

Fontes (1) Livro A máquina do caos, de Max Fisher; (2) artigo “The Californian Ideology”, de Richard Barbrook e Andy Cameron; (3) artigo X under Musk’s leadership: Substantial hate and no reduction in inauthentic activity. Agradecimentos Bruna Castanheira, Editora Ubu.

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