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Dos mares, o maior: por dentro do maior navio do mundo

Nosso repórter embarcou no maior navio do mundo, e encontrou uma cidade com 8 mil habitantes, sete bairros, praças arborizadas, cadeia e necrotério.

Tiradentes (MG); Lindoia (SP); Chuí (RS); Rio Quente (GO): a população de qualquer uma dessas cidades caberia com folga no Allure of the Seas (algo como “Esplendor dos Mares”), o maior navio de cruzeiro do mundo, que carrega 8 mil pessoas. Se o Allure fosse um carro, e o Titanic outro, o malfadado gigante do início do século 20 seria um Fiat 500; e o Allure, uma picape Hilux. Seus 16 andares (“conveses”, em linguagem náutica) têm 2.706 cabines, o suficiente para acomodar 6.296 passageiros – mais os 2.384 tripulantes, alojados em uma área fora do alcance dos turistas.

Uma população flutuante – no sentido mais literal possível – desse tamanho resulta em um microcosmo curioso. Ainda mais se você levar em conta a situação de confinamento e a variedade de perfis sociais, nacionalidades, idiomas, expectativas e interesses a bordo. Eu sou um desses sujeitos.

Ao me aproximar do porto de Fort Lauderdale, na Flórida, posso divisar o colosso construído na Finlândia, com bandeira das Bahamas e de propriedade da companhia americana Royal Caribbean. São 65 metros de altura a partir do nível da água – o equivalente a um prédio com 22 andares – e 360 metros de proa a popa. Seu peso, 229 mil toneladas, é ligeiramente maior do que a produção anual brasileira de açaí, castanha de caju e palmito, tudo somado.

Junto à área de embarque, uma dúzia de homens aborda todos os que chegam. Escolado em aeroportos e rodoviárias, mas praticamente virgem nas artes náuticas, concluo que se trata de carregadores – profissionais que oferecem seus préstimos em troca de dinheiro miúdo. Ofereço resistência quando um deles tenta tirar a mala das minhas mãos. O sangue quente da vergonha sobe à face ao perceber que o cidadão é um funcionário encarregado de despachar a bagagem para o navio. Ele pede o número da cabine, anota-o em uma etiqueta, me dá um canhoto, cola a etiqueta na mala e joga as minhas coisas num carrinho que se dirige a uma montanha com cerca de 12 mil bagagens de todos os tamanhos, cores e formatos. “Vai dar m*&#a”, penso.

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Uma escada rolante leva ao saguão adjacente a uma área com várias lojas, ambiente que lembra um misto de hotel e shopping center. Um ser humano em trajes de Princesa Fiona (a mulher do ogro Shrek) dá as boas-vindas a quem chega. Já estou no navio. Um tripulante examina meu cartão de embarque e me indica um elevador. Entro, subo, saio, peço informações novamente, ando, ando, ando e chego aos meus aposentos.

A suíte Royal Loft tem dois andares, 141 metros quadrados mais uma varanda com metade dessa área, equipada com jacuzzi e uma mesa de jantar. Entre outras comodidades, oferece serviço de barman, praia particular nas paradas e mordomo no pacote – que varia de US$ 11 mil a US$ 16,3 mil por pessoa, a depender do itinerário, da temporada e da duração do cruzeiro. Virtuoses dos teclados, atenção: o primeiro andar da suíte conta com um piano de cauda. Nada mau. Só pena que esse não é o meu quarto. Vamos a ele.

Água doce sempre foi um problema em navios. Grandes barcos resolvem parte da questão desalinizando água do oceano – dessa forma, o Allure produz 3,7 milhões de litros de água doce por dia.

Sou agraciado com uma suíte com varanda e vista para o mar, que também não fazia feio. De cortina fechada, o cômodo parece um bom quarto de hotel. O banheiro é um pouco claustrofóbico, e a pressão da água que sai do chuveiro é pífia. Esse é um dos poucos lembretes de que estamos em uma embarcação: o fornecimento de água doce sempre foi um problema em navios. Grandes barcos resolvem parte da questão captando água diretamente do oceano e processando o líquido em usinas dessalinizadoras – dessa forma, o Allure produz 3,7 milhões de litros de água doce por dia.

De repente, uma voz grave e tonitruante quase me faz pular de susto no quarto. É o capitão, em sua mensagem de boas-vindas reproduzida por alto-falantes instalados em todos os ambientes do navio. Os passageiros estão convocados também para um exercício de procedimentos de emergência. Um alarme altíssimo nos expulsa, e a tripulação nos guia até o local do treinamento. Um filminho, com dicas para evitar morrer em caso de naufrágio, nos é apresentado em um teatro com três níveis de plateia e capacidade para 2.161 espectadores.

Na volta para a minha cabine, a mala me espera junto à porta. Não deu m*&#a. Instruído, de posse de minhas roupas e zarpando rumo ao coração do Triângulo das Bermudas, de agora em diante é só diversão.

O barco comporta quatro piscinas, dois simuladores de surfe, pista de patinação no gelo e quadra de basquete oficial. Mas a opção mais tentadora para muita gente é aquela clássica dos cruzeiros: o cassino. A jogatina é liberada assim que o barco começa a navegar em águas internacionais – e fora da legislação de qualquer país. Não recomendo. É que o risco do jogo de azar se multiplica devido a uma peculiaridade desse tipo de passeio: ninguém carrega a carteira. Ela passa a viagem toda em um cofre na cabine, enquanto as despesas são computadas em um cartão magnético. É fácil demais torrar os dólares que não estão lá (até cair a fatura do cartão de crédito), em particular quando tudo e todos conspiram para você tomar umas e outras.

Pois o que não falta no Allure são lugares para beber. Há 37 bares, que vendem 10.200 garrafas e 8.500 latas de cerveja toda semana. Tem um especializado em champanhe e coquetéis, um wine bar com 120 rótulos, um com karaokê e até um instalado em uma plataforma levadiça, que sobe e desce dois deques (outra palavra para convés) com clientes, barmen, cadeiras, mesas, balcão e garrafas.

De movimento, para mim já basta o balanço do mar, que àquela altura era bem suave. Escolho um bar estático e básico. O Bow & Stern (“proa e popa”) reproduz um pub inglês da forma mais autêntica que é possível dentro de um navio. Das 32 opções de cerveja, pego uma Sierra Nevada Pale Ale (US$ 6), e sento em uma mesinha na área externa para praticar meu esporte favorito: observar pessoas. Em outras palavras, bisbilhotar a vida alheia.

O Bow & Stern fica na Royal Promenade, um dos sete “bairros” do navio. É o equivalente ao centrinho de uma cidade de praia, com lojas, pizzaria, cafés, bares, gente. Todo tipo de gente.

O Bow & Stern fica na Royal Promenade, um dos sete “bairros” do navio. É o equivalente ao centrinho de uma cidade de praia, com lojas, pizzaria, cafés, bares, gente. Todo tipo de gente: casais jovens, famílias, idosos em carrinhos motorizados, adolescentes em bandos, machos e fêmeas avulsos em busca de acasalamento. A ampla maioria é de americanos – muitos dos quais não largam por nada o copo especial que lhes dá acesso ilimitado a uma máquina de refrigerante. Há também um contingente razoável de caribenhos, latinos e asiáticos. Logo ali, um grupo de seis ou sete mulheres vestindo hijab, véu muçulmano que cobre cabelo, orelhas e pescoço. Não entendo árabe, mas as gargalhadas das moças sugerem que elas estão se divertindo. Como era de se esperar, passam batido pelo pub.

Mais tarde, talvez elas passem pelo pomposo refeitório principal do navio, cujo custo da comida está incluído na passagem. São 3.056 assentos dispostos em três deques. Parece muito, mas não é: isso só basta para atender de uma vez metade da lotação do navio. Se todo mundo for jantar ali ao mesmo tempo, complica. Para que o sistema funcione, então, todo passageiro tem lugar marcado e horário rígido para aparecer. O método do escalonamento obedece à demografia de cada cruzeiro: americanos jantam antes de o Sol se pôr; brasileiros e outros latinos não se incomodam de comer depois das 21 horas.

Quem quer flexibilidade de horário pode comer pizza à vontade na Sorrento¿s, que fica sempre lotada. Quem também quer flexibilidade, mas sem filas gigantes, precisa desembolsar uns dólares a mais e optar por sushi, comida mexicana ou risoto italiano num dos 25 restaurantes avulsos do barco. No 15º andar, escondido em meio às piscinas, há até uma churrascaria rodízio brasileira, a Samba Grill. Tem picanha. Tem fraldinha. Tem linguiça. Tem alcatra. Mas não tem churrasqueira a carvão.

Por razões de segurança, nenhuma das 28 cozinhas opera com gás, carvão ou qualquer equipamento que produza chamas. Os fogões e fornos são todos elétricos. Os passageiros não devem portar nada que possa incendiar o navio, como ferros de passar ou incensos. Fumantes são confinados a pequenos quadriláteros demarcados em áreas ao ar livre. Evitar a propagação de bactérias e vírus é outra obsessão dos administradores do navio – surtos costumam ter dimensões desastrosas num navio. Assim, aplicadores de álcool em gel estão por toda parte, e placas nos banheiros públicos aconselham a usar toalhas de papel para abrir a porta ao sair.

Administrar um monstrengo com 8.700 pessoas é uma tarefa complexa. Quem descasca o abacaxi é o canadense Martin Rissley, o hotel director – literalmente, “diretor de hotelaria” – do Allure of the Seas. As atribuições do cargo vão muito além de acalmar o hóspede que reclama da falta de água com gás no frigobar. Martin é o responsável por tudo o que não é relacionado à navegação: qualidade da comida, manutenção e limpeza de todos os espaços, coordenação do serviço, relacionamento com os hóspedes e mediação de eventuais tretas. “Isto aqui é uma cidade, e eu sou o prefeito”, diz.

São duas cidades, na verdade. A cidade que o visitante conhece tem átrios amplos com iluminação natural e até o próprio Central Park – um parque com 56 árvores, 12 mil plantas e alto-falantes ocultos que reproduzem sons de pássaros ininterruptamente. Por trás das divisórias e de discretas portas cinzentas, fica a zona crew only, restrita à tripulação. De lá surgem num passe de mágica os trabalhadores eficientes e educadíssimos, gente oriunda de 80 países distintos, que resolvem os pepinos dos passageiros e desaparecem. Os camareiros do meu corredor falam espanhol e me chamam pelo nome, ou melhor, de señor Marcos. A intimidade acaba por aí.

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O código de conduta da Royal Caribbean, disponível no site da companhia, veta o “relacionamento físico” entre hóspedes e tripulantes e proíbe os funcionários de “socializar com hóspedes além do que é exigido por suas obrigações profissionais”. Parte da tripulação é invisível para os passageiros (marinheiros, por exemplo, não dão as caras na cidade dos hóspedes), assim como todos os ambientes destituídos de charme e glamour. A cidade onde vivem quase 2.400 trabalhadores é proibida para turistas e jornalistas enxeridos, sob a justificativa de não invadir a privacidade dos tripulantes. Com uma dose extra de cara de pau e insistência, consigo uma tênue descrição desse mundo misterioso. As pessoas que trabalham no navio têm suas próprias instalações de lazer: bar, restaurante, clube, academia de ginástica.

Uma embarcação desse porte demanda ainda estruturas e serviços de que ninguém quer ouvir falar, muito menos fazer propaganda deles. Além do ambulatório que fornece remédio contra enjoo para os passageiros, há um centro cirúrgico com três médicos e cinco enfermeiros de plantão. E, como dizem os americanos, shit happens: portanto as profundezas do Allure escondem uma cela de detenção provisória e um necrotério.

Se todos os 298 navios de cruzeiro viajassem juntos, haveria 486 mil turistas em alto mar neste momento.

Grandes navios de cruzeiro são extraordinários – e o maior deles é mais extraordinário ainda – porque constituem comunidades um tanto bizarras. Trata-se de juntar indivíduos suficientes para povoar uma pequena cidade, quase todos estranhos entre si, e confiná-los por alguns dias. Descrito assim não parece divertido, mas é. A impossibilidade da fuga cria uma dinâmica social bem diferente daquela de um hotel comum, com muito mais abertura para a interação entre desconhecidos. Só não pode paquerar a Princesa Fiona – sob pena de conhecer a masmorra no porão do navio.