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ECA Digital: o começo do fim do vício em telas?

O mundo está décadas atrasado em contornar o estrago das redes sociais. Mas a conversa, enfim, toma forma.

Por Rafael Battaglia 17 abr 2026, 12h01 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h35
ECA Digital: o começo do fim do vício em telas? Priorizar nos meus resultados Google

Carta ao leitor da edição 486 da Superinteressante, de abril de 2026

No começo dos anos 2000, o designer Aza Raskin teve uma ideia enquanto navegava no MapQuest, precursor do Google Maps e de sites similares e que atualizava a página toda vez que você explorava um canto diferente do mapa. Ele imaginou uma ferramenta que tornasse a experiência online menos truncada, na qual novos conteúdos surgissem na tela sem a necessidade de sucessivos reloads.

Imerso no mundo tech desde pequeno (ele é filho de Jef Raskin, um dos primeiros funcionários da Apple e um dos pais do Macintosh), Aza criou, em 2006, o infinite scroll. É a rolagem infinita. O feed sem fim.

O designer projetou a ferramenta para blogs. Mas logo a ofereceu para empresas como Google e o então recém-nascido Twitter. A coisa pegou, você bem sabe. A rolagem infinita nas redes é uma das estratégias para nos manter fisgados. Você não passaria tanto tempo no Insta se tivesse que abrir a página 2, depois a 3, depois a 4…

Como diminuir o seu tempo de tela

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Raskin, vale dizer, pode não ter sido o único inventor do infinite scroll. Na mesma época, uma equipe da Microsoft registrou a patente de um mecanismo similar na pesquisa de imagem do MSN. Seja como for, ele acabou virando o nome mais famoso ligado ao recurso – e, talvez, o mais arrependido.

Em diversas ocasiões, Raskin disse não imaginar que a sua criação poderia ser usada de forma tão nociva. Ele, que mantém uma organização que advoga pelo uso ético da tecnologia, gostaria que as redes parassem de usar a rolagem infinita.

Raskin não é o único nessa luta. Começou a valer no Brasil o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital, que estabelece regras para a proteção de menores de 18 anos nas redes. A lei exige que as plataformas criem, para essa faixa etária, ferramentas mais eficazes de verificação de idade e de supervisão parental, além de acabar com o “design persuasivo”. Tornar a navegação menos tentadora, limitando a reprodução automática de vídeos, sistemas de recompensa – e a rolagem infinita.

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Os jovens são os mais vulneráveis à dependência das telas, e o mundo está décadas atrasado em contornar o estrago. Mas a conversa, enfim, toma forma. No Brasil, além do ECA Digital, a proibição dos celulares nas escolas já mostra resultados positivos um ano após o veto. A Suécia, referência em educação, abandonou o ensino 100% digital e voltou a usar materiais didáticos impressos.

Nos EUA, big techs têm sido processadas pelos danos causados à saúde mental dos jovens. Asa Raskin testemunhou contra a Meta em um desses processos.

“É como colocar lombadas numa estrada”, disse ele em entrevista à rádio NPR sobre tornar as redes menos viciantes. “Não tira a liberdade de ninguém. Só sugere que talvez seja melhor ir mais devagar, dando um pouco mais de tempo para pensar.”

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Cobrir tecnologia, considerando todas as suas implicações, é uma tarefa cada vez mais complexa. Por sorte, conto com uma equipe incrível aqui na Super. Nossos jornalistas e designers são motoristas competentes em dirigir por essa estrada, de olho no retrovisor, nos passageiros (você, leitor) e com direito a música e parada prum lanchinho.

A matéria de capa é um especial feito pelo editor Bruno Garattoni, que há mais de 25 anos escreve sobre tecnologia com esmero. Um passeio pelos trunfos e derrapadas da Apple – essencial para entender a vida moderna. Boa viagem.

Rafael Battaglia Popp

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