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Efeito Eliza e os perigos de humanizar a inteligência artificial

Robôs como terapeutas ou namorados não são de hoje. O primeiro chatbot da história já escancarou nossa tendência em achar que há alguém do outro lado da tela.

Por Rafael Battaglia 19 set 2025, 12h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h26
Efeito Eliza e os perigos de humanizar a inteligência artificial Priorizar nos meus resultados Google

Esta é a Carta ao Leitor da edição 479, de setembro de 2025.

O primeiro chatbot da História era uma psicóloga. Quer dizer, mais ou menos.

Em 1963, o programador Joseph Weizenbaum (1923-2008) tornou-se professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT. Antes disso, fez carreira em empresas como a GE e o Bank of America, numa época em que os computadores eram do tamanho de um apartamento e só entendiam comandos por meio de cartões de papel perfurados (os furos, e a ausência deles, eram os uns e zeros do código binário).

Weizenbaum se juntou ao time de pesquisadores do MIT, que, com o apoio do governo dos EUA, buscava desenvolver meios acessíveis para se comunicar com as máquinas. Em 1966, ele lançou Eliza, um programa que simulava uma conversa. O nome vem da protagonista da peça Pigmalião: uma pobre florista que, ao mudar de sotaque, passa a ser vista como uma dama da alta sociedade.

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O robô Eliza também fingia, já que ele não entendia de fato o que as pessoas escreviam. Ele analisava as palavras-chave da conversa e, com base em scripts pré-programados, respondia com perguntas vagas para manter o papo de pé. Um dos scripts simulava uma terapia. Quem digitasse “Estou triste hoje” recebia algo como “Por que você está triste?”.

Comparado aos chatbots de hoje, a mecânica era simplória. Mas Eliza foi um sucesso. Estampou jornais e aproximou Weizenbaum do pioneiro laboratório de inteligência artificial do MIT, fundado na década anterior.

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Na época, muita gente custou a acreditar que não havia uma pessoa do outro lado da tela. A própria secretária de Weizenbaum, mesmo sabendo como a salsicha era feita, pediu que o professor a deixasse a sós durante uma “sessão” com o bot. Sigilo entre terapeuta e paciente, sabe como é.

Assim nasceu o “efeito Eliza”, termo usado até hoje para descrever a nossa tendência em humanizar (e criar laços) com máquinas que fingem sotaque e se comportam como gente de carne e osso. Bots modernos, que emulam o nosso senso de humor e parecem se importar com o que dizemos, apertam ainda mais esse nó cognitivo.

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Importante ressaltar: IAs não sentem emoção nem empatia. Acreditar nisso pode ser um caminho perigoso para a saúde mental. Esse é o assunto da reportagem de capa deste mês, apurada com esmero pela dupla de repórteres Bela Lobato e Manuela Mourão, a ala mineira da equipe.

Weizenbaum não comprava a ideia de que a IA era uma panaceia, e se preocupava com a linha cada vez mais tênue entre humanos e máquinas. Para ele, mesmo computadores feras em realizar cálculos deveriam ficar distantes de ações e julgamentos que envolvessem valores morais. Não raro, o professor comprava briga com cientistas que, segundo ele, não refletiam sobre as consequências de suas criações.

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Toda revolução tecnológica, por mais sensacional que possa parecer, precisa ser encarada com um grau saudável de ceticismo. Com os dois pés no chão, e sem esquecer a peça mais importante de todas: a que senta na frente das telas. É nisso que Weizenbaum acreditava – e nós aqui da Super também.

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