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O mercado milionário de corridas de pombo da Bélgica

Nesta semana, um pombo foi vendido em um leilão por R$ 10 milhões. Saiba como essa prática começou, como as aves se orientam – e quem anda faturando uma grana com isso.

Por Rafael Battaglia 19 nov 2020, 17h58

O que você faria com 1,6 milhão de euros (R$ 10 milhões)? Compraria uma mansão? Viajaria pelo mundo? Nesta semana, esse dinheiro foi usado por um chinês para comprar um pombo de corrida.

New Kim é um pombo de dois anos de idade com uma curta, porém bem-sucedida carreira. Em 2018, o animal foi eleito como o melhor pássaro jovem da Bélgica, berço desse tipo de competição, e se aposentou das corridas.

A disputa pela ave, contudo, foi ferrenha. Tudo foi organizado pela Pigeon Paradise (Pipa), uma casa de leilões especializada no ramo. Os lances começaram em 200 euros no dia 2 de novembro. Em menos de duas horas, um grupo sul-africano subiu o sarrafo e ofereceu 1,3 milhão.

No final, dois compradores chineses disputaram o pombo – o autor do lance derradeiro usou o pseudônimo Super Duper. A título de comparação, aves do tipo geralmente são vendidas a 2,5 mil euros.

O leilão de New Kim quebrou o recorde como o pombo de corrida mais caro da história – e olha que a marca havia sido batida recentemente. Em março de 2019, Armando, conhecido como o “Lewis Hamilton dos pombos”, foi vendido por 1,25 milhão de euros (R$ 7,87 milhões atualmente).

Site da Pipa, casa de leilões belga especializada em pombos de corrida.
Pipa/Reprodução

Pegue o pombo!

Dotados de grande capacidade cognitiva, os pombos são frequentemente usados em testes de inteligência animal, dos mais variados: identificar microcalcificações em mamografias (o que pode preceder câncer de mama), corrigir a ortografia de palavras e até distinguir artistas pelas suas pinturas.

Mas é claro que a habilidade mais notável deles é a orientação. Há milhares de anos, gregos e egípcios perceberam que essa capacidade poderia ser usada como correio, levando mensagens a até 100 quilômetros. Afinal, pombos têm um desejo nato de voltar para o seu ninho.

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Pensa só: se você morasse na cidade X e quisesse se comunicar com os vizinhos da cidade Y, bastava presenteá-los com pombos. Isso porque, no momento em que fossem soltos, os bichinhos inevitavelmente voltariam até você – trazendo pedaços de papel com mensagens enviadas pela outra cidade. Eles se orientam pelas posições do Sol ao longo do dia e por uma espécie de bússola biológica: partículas ferrimagnéticas no bico e nos ouvidos que reagem ao campo magnético da Terra. Milhares de pombos-correio foram usados nas duas guerras mundiais, por exemplo.

Com o tempo, percebeu-se que, além de entregar bilhetes, as aves poderiam apostar corrida. Não se sabe ao certo, porém, quando a prática começou, mas ela se popularizou na Bélgica em meados do século 19. O esporte, também conhecido como columbofilia (o nome científico do pombo urbano é Columba livia domestica), se disseminou a ponto dos belgas começarem a criar aves que pudessem voar mais rápido e por longas distâncias. Todos esses cruzamentos artificiais deram origem a pombos “Voyageurs” (“viajantes”, em francês), também chamados de “Racing Homer”.

A corrida de pombos, vale dizer, foi o primeiro esporte a ser retomado na Inglaterra , em junho – desde março a modalidade estava paralisada em função da Covid-19. Há columbófilos também no Brasil. Nesta reportagem do Globo Esporte e nesta matéria da revista piauí, dá para conhecer um pouco mais das competições nacionais.

É claro que a popularidade não é a mesma de outrora. Depois da 2ª Guerra Mundial, havia 250 mil columbófilos na Bélgica. Hoje, são 20 mil. Mesmo assim, os entusiastas são persistentes. “Se você tem esse número de competidores, em um país pequeno como o nosso, o nível se torna muito alto”, disse à Reuters Nikolaas Gyselbrecht, presidente e fundador da Pipa. “É como a Liga dos Campeões.”

Mesmo sendo um nicho, a competitividade das corridas faz com que as cifras pelos competidores sejam altas. No mesmo leilão em que New Kim foi adquirida, seus antigos donos, a família Van de Wouwer, venderam outros 287 pombos. No total, ganharam 9,5 milhões de euros (R$ 59,9 milhões).

“Ora, mas por que gastar tanto dinheiro em pombos que só sabem voltar para onde nasceram?”, você deve estar se perguntando. É verdade: chineses que compram pássaros belgas não podem colocá-los para correr (no caso, voar) na China. Mas é um investimento, já que os pássaros campeões vão se reproduzir no novo habitat e os filhotes, por sua vez, poderão competir.

Isso, inclusive, torna a compra de New Kim ainda mais impressionante, já que ela é fêmea – machos costumam valer mais, já que podem inseminar várias outras aves, transmitindo os genes para mais indivíduos. Mas há uma explicação. Ao que tudo indica, Super Duster, que adquiriu Kim, é também o comprador de Armando – seria o início de uma família de superpombos?

Além disso, New Kim tem apenas dois anos, e os animais dessa espécie conseguem se reproduzir até os dez. Ela ainda poderá render muitos euros – digo, filhotes – para os seus novos donos.

 

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