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O que já se sabe sobre a explosão no Líbano – e o que ainda não

Tragédia foi causada pelo armazenamento inadequado de nitrato de amônio. Extensão dos danos ainda não está clara, mas deve agravar crise humanitária no país

Por Bruno Carbinatto - Atualizado em 5 ago 2020, 16h56 - Publicado em 4 ago 2020, 21h09

Na tarde desta terça-feira (4), Beirute, capital do Líbano, foi atingida por uma enorme explosão, que deixou um rastro de destruição pela cidade. Até o momento, foram confirmados 78 mortes e 4 mil feridos, além de diversas casas e prédios destruídos pela onda de choque resultante do estouro. Horas depois da tragédia, não se sabe ainda a real dimensão da explosão, e informações sobre o caso – bem como o número de mortos e feridos – seguem sendo atualizadas.

De acordo com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos, o estouro gerou ondas sísmicas semelhantes às produzidas por um terremoto de magnitude 3.3. Como explicou Don Blakeman, geofísico do Centro Nacional de Informações sobre Terremotos, dos EUA, em entrevista à CNN, o fato de a explosão acontecer na superfície – e não embaixo da Terra, como é o caso dos terremotos – fez a energia se espalhar pelo ar. Isso significa que, se a mesma energia tivesse sido liberada embaixo da terra, a potência da explosão seria comparável a um terremoto de magnitude maior – e com potencial destrutivo mais alto.

O que se sabe até agora

Uma explosão, inicialmente pequena e acompanhada de um incêndio e uma nuvem negra de fumaça, foi avistada em uma área portuária na zona leste de Beirute, no que parecia ser um armazém. Às 12:05 no horário de Brasília, uma segunda explosão ocorreu, dessa vez muito maior e mais destrutiva. Com ela, uma enorme onda de choque e uma nuvem de fumaça esbranquiçada foram lançadas na cidade, causando danos severos à área ao redor e em regiões vizinhas.

A segunda explosão foi registrada em vídeo sob diferentes ângulos, por espectadores que filmavam a fumaça no armazém. Em minutos, os vídeos compartilhados nas redes sociais viralizaram e dominaram o noticiário internacional. Você pode assistir a um exemplo desses registros abaixo.

Danos significativos apareceram em um raio de até 10 quilômetros do porto, e há relatos de janelas de prédios sendo quebradas em distâncias ainda maiores. Em pouco tempo, a cidade ficou tomada pelo caos; milhares de pessoas feridas procuraram ajuda médica e hospitais passaram a enfrentar superlotação.

Um hospital próximo à explosão foi parcialmente destruído e os profissionais de saúde tiveram que prestar socorros aos pacientes graves na rua, segundo relatou o jornal britânico The Guardian. Há relatos também de que a explosão foi sentida no Chipre, ilha que fica a mais de 200 quilômetros do Líbano.

Os números de mortos e feridos ainda não são oficiais e estão sendo atualizados a medida que os escombros são vasculhados. Até o momento da publicação deste texto, o Ministério da Saúde do país contava 78 mortos e 4.000 feridos. A Cruz Vermelha, por sua vez, estimou “centenas” de mortos em decorrência da tragédia. O primeiro-ministro do Líbano, Hassan Diab, decretou um dia de luto oficial no país e, em pronunciamento, disse que quem quer que seja responsável pela tragédia “irá pagar o preço”.

O que não se sabe com certeza

Uma das perguntas cruciais ainda segue sem uma resposta: o que exatamente causou a explosão? Inicialmente, a mídia local reportou que um dos galpões na região armazenava fogos de artifício, o que levou muitos a especularem que essa poderia ter sido a origem. Mas essa suposição foi negada, posteriormente, pelas autoridades.

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A informação correta, divulgada no início da noite, é que o que causou a explosão foi uma enorme quantia de nitrato de amônio (NH₄NO3) que estava armazenada em um galpão na região litorânea do país. Trata-se de um composto comumente utilizado em explosivos industriais e até caseiros.

A substância serve como fertilizante na agricultura, mas também é altamente explosiva quando misturada com outros componentes. Em 1947, um incêndio em um navio que transportava nitrato de amônio no Texas causou uma enorme explosão que deixou 581 pessoas mortas. Em 2015, uma série de explosões e incêndios em Tianjin, na China, também aconteceu, em partes, por conta do nitrato de amônio.

As autoridades do Líbano confirmaram a presença de mais de 2,7 mil toneladas de nitrato de amônio estocadas na região da explosão. Como destaca este artigo do NIH, Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, o nitrato de amônio explode facilmente quando aquecido. Por outro lado, dificilmente se torna explosivo quando recebe um choque – o que descarta, pelo menos à princípio, a possibilidade de uma falha elétrica ter causado a explosão. Vale lembrar, também, que a substância só se torna perigosa quando misturada com outros compostos. Se isso de fato causou a explosão no Líbano, falta saber as condições que permitiram que essa “mistura” – ou aquecimento anormal – ocorressem.

O primeiro-ministro do país disse, em comunicado, que há alertas quanto à segurança das substâncias estocadas nos armazéns da região desde 2014, embora não tenha entrado em detalhes sobre o assunto. Já Michel Aoun, presidente do país, disse em seu Twitter, que é “inaceitável” que 2.750 toneladas de nitrato de amônio tenham ficado seis anos armazenadas na região de forma inadequada.

Uma outra possibilidade, já descartada, é de que a explosão teria sido fruto de um ataque de um grupo terrorista – ou mesmo bancado por um país rival. Pouco após a explosão, o governo da Israel emitiu um comunicado dizendo que não tinha nada a ver com o incidente. Não foi à toa: tecnicamente, os dois países estão em guerra (mesmo que não haja uma batalha direta entre eles atualmente). As relações entre Israel e Líbano não são amigáveis há bastante tempo, o que levantou suspeitas sobre o vizinho quando a notícia começou a se espalhar.

Outra teoria, levantada especialmente em posts nas redes sociais, teria sido uma explosão causada por um depósito de mísseis e bombas do Hezbollah, um movimento político e paramilitar caracterizado como terrorista por grande parte do Ocidente, que tem sede no Líbano. Em pouco tempo, um vídeo do primeiro ministro-israelense Benjamin Netanyahu viralizou, em que ele aponta um suposto local que serviria como armazém dos mísseis em um mapa de Beirute. Mas o vídeo desinformava ao tentar insinuar que o local apontado por Netanyahu era o mesmo da explosão que ocorreu hoje: na verdade, os dois pontos estão separados por 12 quilômetros. O Hezbollah também negou qualquer envolvimento com o incidente e pediu para que as forças políticas do país se unam para enfrentar o momento de tragédia.

As proporções dos danos causados pela explosão ainda não estão claras. Regiões afastadas do armazém já relataram danos a prédios e casas e ferimentos causados por desmoronamentos, quedas e cacos de vidro. E o número de vítimas fatais deve aumentar, não somente por mais corpos encontrados mas também porque diversos sobreviventes estão em estado grave e precisam de cirurgia.

De qualquer forma, é fato que a tragédia já causou danos enormes ao país, em uma época em que as coisas já não caminhavam nada bem. Em plena pandemia de Covid-19, o Líbano vive uma das suas maiores crises dos últimos tempos, que levou dezenas de milhares à pobreza e iniciou uma série de protestos que tomaram as ruas.

Recentemente, o Banco Mundial estimou que 75% da população libanesa precisará de ajuda para sobreviver em um futuro próximo (antes da pandemia, esse número era de 45%). Um dos maiores problemas é a fome: há alguns dias, o país já havia ganhado atenção da mídia internacional após um homem ter se suicidado por conta da falta de comida. O caso é só mais um representativo da crise do país, que precisa importar grande parte de sua comida – e, como diversos analistas apontaram, o porto de Beirute, cuja região foi devastada pela explosão, é um dos principais pontos de entrada dessas importações.

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