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A quarta fronteira

Gilberto Stam

Em breve, os jovens americanos que não quiserem se alistar no Exército, na Marinha ou na Aeronáutica terão uma quarta opção: ingressar nas forças armadas espaciais. Isso mesmo: prepare-se para ver canhões a laser entre as estrelas, cruzadores do vácuo, satélites-espiões e quartéis na Lua. A militarização do espaço agora é para valer, especialmente porque está na cabeça do homem mais poderoso do mundo, o presidente americano George Bush. Logo depois de assumir o governo, em janeiro, ele causou um pequeno terremoto político e diplomático ao anunciar um plano de fechar a “fronteira” espacial americana por meio de um escudo supostamente impenetrável. “Ninguém gosta de admitir, mas, mais cedo ou mais tarde, vamos lutar no espaço”, afirma o ex-chefe do comando espacial das Forças Armadas dos Estados Unidos, general Joseph Ashy.

Como era de esperar, russos e chineses chiaram. “Esperamos que os Estados Unidos desistam da idéia. Caso contrário, estaremos prontos para criar um esquema de defesa ainda melhor”, afirma Sha Zukang, responsável pelo programa de desarmamento do governo chinês. Igor Sergeyev, ministro da Defesa da Rússia, também bateu o tambor: “Essa medida vai desencadear uma corrida incontrolável por novos mísseis e armas nucleares espaciais”.

O governo americano diz que só quer se defender de ditadores, como os do Irã, do Iraque ou da Coréia do Norte. Afirma também que o novo sistema tem função meramente defensiva: o plano, de imediato, envolve apenas a fabricação de mísseis antimísseis mais precisos que os atuais. É compreensível, tendo em vista o sentimento de insegurança de um país que tem sido vítima de metade dos quase 400 ataques terroristas que são desfechados pelo mundo afora, todos os anos. Já existe até um site na internet em que residentes das cidades americanas podem verificar quais mísseis ameaçam a sua comunidade. Lá se vê, por exemplo, que Nova York está na mira de 18 tipos de mísseis da China, da Rússia e do Irã. Um dos mais temidos são os SS-18 russos, apelidados de Satã.

Os Estados Unidos, este ano, realizaram vários testes – o último deles dia 9 de março – com canhões espaciais a laser. Criados pela empresa Lockheed Martin Space Systems, os canhões têm a potência de um milhão de watts (ou seja, descarregam, a cada segundo, energia equivalente à de 10 000 lâmpadas comuns). Experimentadas em terra, as armas seriam, até 2003, instaladas no bico de Boeings reformados para combate. Mais tarde, seriam instaladas em um ônibus espacial militar, o X37, em desenvolvimento pela Boeing. Esses movimentos, segundo analistas dentro e fora dos Estados Unidos, indicam que o que hoje é meio de defesa pode facilmente virar instrumento de ataque amanhã.

Dentro de casa, Bush enfrenta a crítica de que o novo sistema de defesa, além de representar um problema para a diplomacia, não é garantia efetiva de segurança. Vários especialistas, inclusive dentro do governo americano, dizem que, em simulações realizadas até agora, os mísseis antimísseis se mostraram incapazes de acertar seus alvos. E, por enquanto, os testes nem levaram em consideração as tentativas de o inimigo ludibriar o sistema, o que certamente ocorrerá na prática. “Sem dizer que a tecnologia necessária para furar a defesa é relativamente simples”, afirma Theodore Postol, físico do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, especialista em segurança nacional. “Não há a menor chance de o sistema atual funcionar.” E o uso de raios laser, segundo ele, não melhoraria a situação.

Mesmo assim, Bush não está jogando dinheiro fora, diz Rebecca Johnson, diretora do Instituto Acronym, em Londres, especializado em pesquisas sobre desarmamento. “A estratégia é desenvolver agora a tecnologia que dentro de 20 anos dará aos Estados Unidos o domínio do espaço”, afirma ela.

fdieguez@abril.com.br

Síndrome de Flash Gordon

Estudos do Ministério da Defesa dos Estados Unidos revelam como o governo americano pretende militarizar o espaço

Canhões a laser

Montados em uma constelação de 20 naves-casamatas, teriam o poder de neutralizar qualquer míssil de ataque. Cientistas e técnicos do Pentágono esperam que estejam operacionais dentro de mais 30 ou 40 anos

Quartel na Lua

Já existe idéia de construir uma base militar americana na Lua, movida a energia nuclear

Satélites inteligentes

Serviriam para lançar alertas e para guiar a pontaria das naves armadas. Têm sensores para indicar quando eles próprios estão na mira de um atacante. Com isso, conseguiriam fugir da artilharia inimiga. Funcionariam em 2015

Base orbital

Ao contrário dos foguetes atuais, que saem da superfície, esses novos bólidos ficariam estacionados no espaço e partiriam daí para alvos na Terra. No papel, estarão operacionais por volta de 2040

Belonave cósmica

Em 2020 os Estados Unidos poderão lançar o X37, um destróier do espaço projetado pela Boeing. Serviria para patrulhar o céu e destruir satélites inimigos. Também teria armas de raio laser

Bombas ocultas

Acredita-se que até 2040 o céu poderá estar coalhado de minas espaciais. Não há plano concreto para isso; trata-se de mera possibilidade. Seriam acionadas pelo calor gerado pelos mísseis