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Anatomia de um grão de poeira

O microscópio eletrônico documenta um mundo no qual o homem está imerso, mas a vista não alcança. O pó de toda parte abriga milhares de fungos e um estranhíssimo aracnídeo.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h35 - Publicado em 31 mar 1990, 22h00

Norton Godoy

O ambiente é escuro, silencioso e abafado. A paisagem faz lembrar os escombros de uma guerra devastadora. O único sinal de vida provém de uma criatura monstruosa, que parece um rinoceronte de seis pernas com mandíbulas de crustáceo, andando vagarosamente por cima de um monte de entulho onde se misturam pedaços disformes de outras criaturas. Cego, o monstro perscruta o local com tentáculos de grande sensibilidade, à procura de seu alimento predileto: pele morta de seres humanos.

De repente, um turbilhão de vento começa a soprar, erguendo boa parte de toda aquela sujeira. Agarrada às grandes hastes que brotam do chão e se assemelham a compridos troncos nus de árvores desfolhadas, a criatura tenta resistir à tempestade. Mas a força sorvedoura é tão forte que o estranho ser é carregado para longe, desaparecendo na escuridão.

Na verdade, o que parecia o desfecho de uma cena de ficção científica nada mais é que a limpeza de um carpete por um aspirador, vista em escala microscópica, ao rés do chão. O ente monstruoso não passa de um aracnídeo, designado pelos cientistas Dermatophagoides farinae, o doméstico ácaro. E o entulho amontoado, uma coleção de fragmentos de fios de cabelo, pêlos de animais, pólens, pedacinhos de asas e de patas de pernilongos e pulgas, restos de fibras sintéticas de roupa, fungos, cristais e lascas de pele humana descamada. Tudo isso reunido numa simples bolinha de algo incomparavelmente banal — o pó, encontrado em qualquer ambiente, mesmo naqueles que acabaram de ser submetidos a uma restauradora faxina. Tão corriqueiro é o pó que até meados dos anos 60 nenhum cientista se preocupou em olhá-lo ao microscópio, a não ser por mera curiosidade. O interesse em pesquisar a poeira foi motivado pelo já citado ácaro, do qual quase nada se conhecia.

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A difusão do microscópio eletrônico , permitindo esquadrinhar e fotografar o universo das coisas menos que milimétricas, ampliando-se até centenas de milhares de vezes, proporcionou informações surpreendentes, sobre o pó e seu principalmente personagem. Para conseguir uma boa amostra da composição da poeira de algum lugar, no entanto, não é preciso ir ao microscópio: basta examinar o conteúdo de um aspirador que acabou de ser usado; por sinal, o cheiro característico do aparelho quando ligado resulta da queima de poeira que penetra no motor. Nos Estados Unidos, onde há estatísticas até sobre isso, calcula-se que 43 milhões de toneladas de poeira flutuam no ar todo ano — 72 por cento de origem natural e 28 por cento produzidas pelo homem. A forma mais comum são partículas de terra procedentes do solo, seguidas de perto pelo sal, cujos minúsculos cristais evaporam dos oceanos à razão de 300 milhões de toneladas por ano. Terra ou sal, as partículas viajam pelas correntes de ar e penetram em qualquer ambiente, por mais fechado que esteja; ou então são levadas a grandes altitudes onde irão formar o núcleo dos pingos de chuva. Se não houvesse poeira não existiriam nuvens no céu.

Os eventos naturais que mais produzem pó são a atividade vulcânica e os incêndios florestais. Em certos anos, a queima de florestas foi responsável por 7 por cento de toda a poeira do mundo. Mas os vulcões são imbatíveis nesse jogo. A maior produção já registrada foi do vulcão Krakatoa, na Indonésia, que explodiu em agosto de 1883. Essa catástrofe despejou cerca de 6500 metros cúbicos de terra na atmosfera, o que daria para encher o espaço de cinco piscinas olímpicas. Três anos mais tarde sua presença no ar ainda prejudicava a luminosidade durante o dia em muitas áreas do mundo. Ou seja, parte do trivial pó doméstico pode ter passaporte estrangeiro. Ou mais ainda, segundo o americano John Ferguson, especialista no assunto. “A casa de qualquer pessoa não apenas possui poeira de vários locais do planeta, mas também, poeira extraterrestre, transportada por meteoros e meteoritos, que acabam por aumentar a massa da Terra em dezenas de milhares de toneladas todos os anos”, contabiliza ele.

Muito embora poeira seja sinônimo de sujeira, também é responsável por um dos mais bonitos espetáculos da natureza. Acontece que as partículas de pó tem a capacidade de dispersar a luz em diferentes comprimentos de onda. Quando o Sol está alto no céu, apresenta uma coloração amarelo-esbranquiçada porque os raios incidem em ângulo quase reto sobre a superfície terrestre, sofrendo pouca interferência ao passar pela camada de poeira suspensa no ar. No final da tarde, porém, tanto o Sol como o poente adquirem uma bela cor avermelhada porque quanto menor o ângulo de incidência dos raios maior a quantidade de poeira que eles têm de atravessar na linha do horizonte. A mudança de cor se dá porque as partículas dispersam com mais facilidade as ondas de luz de menor comprimento — as do lado do espectro que tende para o azul — do que as ondas maiores, do lado vermelho. A ironia da história é que nas grandes cidades o acaso tende a ser mais rubro, portanto mais esplêndido, quanto maior a poluição do ar, que aumenta a quantidade de partículas em suspensão.

Há sempre mais pó dentro de casa do que fora — uma informação que deve despertar a dona de casa que vive passando o dedo nos móveis para ver se estão imaculadamente limpos. Pois os ambientes fechados proporcionam as condições ideais de umidade, temperatura e isolamento para a manutenção de um típico habitat de poeira. Por isso mesmo, ao contrário do que poderia supor a mesma dona de casa, deixar as janelas por algum tempo antes ajuda a limpar do que a sujar a casa, a menos, é claro, que se viva ao lado de uma indústria poluidora. Segundo o por assim dizer poeirólogo Richard Williams, do Centro de Pesquisas Sarnoff, nos Estados Unidos, “as bolinhas de poeira crescem em locais onde não são perturbadas, particularmente embaixo de móveis, cantos de quartos, frestas de assoalho ou mesmo fora dos espaços de circulação da casa”.Parte do pó que habita algumas residências é composta também de ínfimas bolinhas de borracha, produto do atrito dos pneus dos veículos com o asfalto das ruas. Essas borrachinhas costumam freqüentar apartamentos entre o terceiro e o sétimo andares de um prédio, pelo simples motivo de corresponderem à altura em que esse tipo de partícula fica em suspensão.

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Mas, afinal, quanto pó existe no ambiente de uma cidade grande? É claro que a resposta pode variar enormemente, até porque também variam os critérios de medição. De todo modo, um cálculo aproximado sugere que uma cidade do porte de São Paulo abriga 120 microgramas de partículas de poeira por metro cúbico de ar. Como em condições normais uma pessoa respira por dia pouco mais de 5 metros cúbicos de ar, isso significa que cada paulistano inala em média diariamente algo como 600 microgramas de partículas de poeira.

“O ar de São Paulo é mais empoeirado que o de Nova York ou de Los Angeles”, afirma o químico paulista Cláudio Alonso, da Cetesb, a empresa de saneamento ambiental do Estado, com a autoridade de quem acabou de concluir um estudo comparativo sobre o ar das três cidades. Em que medida poeira demais é um perigo? Se a atmosfera não estiver envenenada pelos gases da poluição, o problema pode não ser alarmante, pois a maior parte daquelas partículas é exalada de volta. Muitas delas, é bem verdade, ficam presas nos pêlos das narinas, na garganta e nos pulmões. Na maioria das pessoas, o organismo não reage a essa intrusão por falta de anticorpos específicos. Os alérgicos, ao contrário, devido ao seu sistema imunológico ultra-sensível, respondem de forma exacerbada a alguns dos corpos estranhos que são inalados ou que penetram através da pele .

A poeira que se junta nos cantos do teto tem origem inconfudível — é obra das teias de aranha. Essa parenta do ácaro faz a teia com objetivo de capturar seu jantar. Se nenhum inseto cair na armadilha, ela mudará o ponto de caça, deixando a teia para trás. O que torna aquele trançado de fibras de proteína pegajosa um excelente coletor de partículas de pó. De tudo que se pode achar num minúsculo tufo de poeira, os ácaros são os mais curiosos. Esses bichinhos — os mesmos cujas fotos devidamente ampliadas lembram o citado rinoceronte com queixada de crustáceo — se alimenta principalmente dos cerca de 50 milhões de microscópicos farelos de pele que se desprendem de um corpo humano todos os dias. Existem muitas espécies de ácaros no mundo e todos os anos são registradas novas descobertas. Habitam camas, travesseiros, sofás e, sobretudo, o interior de pequeninas bolas de poeira. Dez ácaros cabem no ponto que fecha esta frase.

“Numa cama de casal se calcula que vivem cerca de 2 milhões de ácaros”, afirma o professor Domingos Baggio, chefe do Laboratório de Acarologia Médica da Universidade de São Paulo (USP). “Isso porque o corpo humano fornece, durante oito horas por dia, temperatura, umidade e farta descamação de pele.” Felizmente, os ácaros de poeiras são diferentes de seus primos, os carrapatos, e não se alojam na superfície da pele. Somente são nocivos para quem for alérgico aos fungos de que eles se utilizam para digerir o alimento. Em lugares onde houver uma grande concentração de ácaros certamente haverá fungos suficientes para sensibilizar o sistema imunológico de um alérgico. Sem contar com vinte bolinhas de fezes que cada ácaro produz por dia, facilmente inaladas. Como aracnídeos, os ácaros e as aranhas tiveram um ancestral comum a 300 milhões de anos. Mas enquanto as aranhas evoluíram e se tornaram caçadoras que enxergam suas presas, o ácaro é uma espécie de animal de rapina — porque se alimenta de organismos mortos — e é cego. Seu meio preferido de locomoção é a carona, na garupa de uma barata ou de uma mosca. Isso quando não se deixa levar ao sabor das correntes de ar. Tem a vida breve, 45 dias no máximo.

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O fungo, por sua vez, é encontrado na mais variadas formas e cores. O Aspergillus niger, por exemplo, muito comum na poeira, tem a forma de pequenos pontos pretos e, embora pareça mofo, não é. Esse fungo pode causar irritações respiratórias ou infecções no aparelho auditivo das pessoas que praticam a natação, pois estas costumam ter os ouvidos mais úmidos do que o normal. “Nenhum desses fungos é patogênico, isto é não carregam consigo qualquer tipo de doença”, tranqüiliza a pesquisadora americana Chris Carothers, do Maryland Medical Laboratory. “Oportunistas, aproveitam de um sistema imunológico debilitado, crescendo sobre o corpo ou no seu interior. “Calcula-se que existam entre 50 mil e 200 mil espécies de fungos — o que dá formas de microvida que, perigosas ou inofensivas, repartem com o ser humano o espaço do qual ele se julga senhor absoluto. Ou, como diz Shakespeare, pela boca de Hamlet, o homem é a “quintessência do pó.”

Para saber mais:

Resposta errada

(SUPER número 8, ano 3)

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Xeretando com elétrons

No clássico romance do irlandês Jonathan Swift (1667-1745), Viagens de Gulliver, o personagem descobre uma ilha chamada Liliput e fica maravilhado com a reduzida estatura dos seus habitantes. Ao fazer funcionar um microscópio eletrônico em 1931, o cientista alemão que o construiu, Ernest Ruska (1906 -1988) há de ter sentido uma emoção semelhante à de Gulliver. Pela primeira vez, olhos humanos penetravam em um mundo em que a ordem de grandeza é de 1 mícron, a milésima parte do milímetro. O que diferencia o microscópio eletrônico do óptico é o uso de um feixe de elétrons no lugar da luz — o feixe tem um comprimento de onda mil vezes menor, permitindo perceber formas em escala molecular. Os elétrons se enfeixam quando passam por campos magnéticos que agem como lentes, fazendo-os convergir sobre o material que se quer enxergar. Em seguida são refletidos para outro conjunto de lentes magnéticas que, finalmente, os conduzem a um filme especial, sensível ao seu impacto. O processo permite ampliar uma imagem até 500 mil vezes.

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