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O falso exterminador

Filmes exageram o risco de asteróides trombarem com a Terra e promovem as bombas atômicas, antigas vilãs, a salvadoras do planeta.

Carlos Eduardo Lins da Silva, de Washington

Uma pedra gigantesca voa em direção à Terra. Se viesse de mansinho, seria suficiente “apenas” para esmagar os Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo e bons pedaços de seus vizinhos. Mas ela risca o céu a 32 500 quilômetros por hora. Deve bater no planeta azul em dezoito dias, abrindo um rombo do tamanho do Brasil. Inevitavelmente atingirá os oceanos, que ocupam 70% da superfície do planeta. Ondas de 1 quilômetro de altura se levantarão, inundando cidades inteiras. Por anos, a luz do Sol permanecerá encoberta pela grossa nuvem de poeira levantada na hora do impacto. As plantações morrerão. Haverá fome. É bem possível que a espécie humana não resista. Só há uma saída: mandar lá para cima uma poderosa carga atômica, que explodirá parte do asteróide assassino, tirando-o de sua rota ameaçadora.

Ainda bem que a descrição acima é só ficção. E, do ponto de vista da correção científica, bem ruinzinha. Não existe, em possível rota de colisão com a Terra, um asteróide do tamanho do mostrado em Armageddon, a produção da Disney que estréia este mês no Brasil. Os maiores, que os astrônomos chamam de “exterminadores”, têm 10 quilômetros, o que já não é pouco, enquanto o do filme tem cerca de 1 000 quilômetros. “Não é só que eles tenham errado demais. Em termos de massa, eles erraram um milhão de vezes demais”, disse à

SUPER o chefe da divisão espacial do Centro de Pesquisas Ames, da Nasa, na Califórnia, David Morrison.

Exagero danoso

Como trata de um perigo real, a licença dramática é arriscada. Quanta gente não sairá do cinema pensando que é boa idéia começar desde já a engrossar o estoque de armas nucleares? Desde 1995, o físico húngaro radicado nos Estados Unidos, Edward Teller, conhecido como o pai da bomba de hidrogênio, vem defendendo a tese. Houve quem sugerisse, na época, que o cientista estava era querendo um objetivo nobre que pudesse tirar do buraco o Lawrence Livermore National Laboratory – o centro de pesquisa de armas nucleares que ele dirigiu por anos e que teve suas verbas cortadas pela metade desde o final da Guerra Fria. O próprio Teller disse à SUPER, com seu jeito caracteristicamente brusco, achar improvável que um objeto com mais de 1 quilômetro de diâmetro atinja a Terra no próximo milhão de anos. “Mas se e quando ele vier, deverá ser desviado com explosivos nucleares.” Muitos cientistas concordam com ele, mas acham que vale a pena pesquisar outras maneiras de livrar a Terra do perigo. Ainda mais nesses tempos em que novos países – como Índia e Paquistão – entram para o perigoso clube atômico.

O asteróide do filme Armageddon é “do tamanho do Estado do Texas”, que tem área maior que a dos Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo somadas. Um objeto como esse teria massa um milhão de vezes maior do que os maiores corpos que podem estar em rota de colisão com a Terra

Frases

“Estamos muito doentes e eu tenho a cura.”

Edward Teller, físico americano, conhecido como o pai da bomba de hidrogênio, sobre o perigo de um asteróide grande cair na Terra

“Para esses caras, a possibilidade de impacto é uma dádiva de Deus.”

Carl Sagan (1934-1996), astrônomo americano, considerado o maior divulgador de ciência de todos os tempos, sobre a opinião de Teller

Perigo poderá ser previsto vinte anos antes

Nenhum astrônomo nega que o risco existe. Mas as probabilidades de um impacto de grandes proporções são pequenas, ao contrário do que a onda de filmes sobre o assunto parece querer mostrar. É bom lembrar que Armageddon chega imediatamente depois de Impacto Profundo e da série de televisão Asteróide, que foi ao ar em fevereiro de 1997 nos Estados Unidos e chegou em março às locadoras de vídeo brasileiras.

Para completar o quadro de pânico, um asteróide de verdade, com 1,6 quilômetro de diâmetro, passou um tremendo susto nos astrônomos, em março passado. Brian Marsden, do Harvard Smithsonian Center for Astrophysics, em Massachusetts, Estados Unidos, considerado o mais importante calculador de órbitas de asteróides próximos da Terra, deu o alarme: o 1997 XF11 passaria dramaticamente perto da Terra, no dia 26 de outubro de 2028.

Por sorte, as contas foram refeitas e o fim do mundo adiado. Se não tivesse sido, o caso se encaixaria perfeitamente no que os astrônomos acreditam que poderia ser uma situação real de perigo. “O mais provável é que seremos capazes de prever o risco – e nos preparar para enfrentá-lo – com pelo menos dez ou vinte anos, e não alguns dias, de antecedência”, explicou à SUPER Paul Chodas, do Laboratório de Propulsão a Jato, da Nasa, na Califórnia.

Empurrão atômico

Como as armas nucleares seriam usadas para desviar um asteróide com órbita que cruza com a da Terra.

1. Um míssil Titan, americano, ou um Proton, russo, levariam uma bomba atômica, que explodiria a uma distância do asteróide igual ao dobro do seu raio.

2. A onda de choque provocada pela explosão é desimportante, mas a energia térmica gerada é enorme e aquece a camada superior da superfície a uma temperatura suficientemente alta para vaporizar algo como 1% dela. O vapor sai em forma de jato, a 4 quilômetros por segundo, provocando um pequeno impulso que tira o asteróide de sua órbita.

3. Calcula-se que, para desviar um asteróide com 1 quilômetro de diâmetro, uma bomba de 10 quilotons (a de Hiroshima tinha 17 quilotons), seria suficiente. Um de 10 quilômetros precisaria de 10 megatons, ou seja, mil vezes mais energia. O método não funciona para corpos menores.

4. O mesmo efeito poderia ser obtido com a implantação do explosivo no próprio pedregulho. Para isso seria necessário mandar uma equipe descer no asteróide. O risco é que o bólido se despedace, jogando pedras menores na Terra.

Esforço inútil

Estudos mostram que um impacto com energia semelhante à da bomba de Hiroshima não conseguiria mover um asteróide fictício de 1,6 quilômetro de extensão.

Se a rocha for sólida, ela pode se despedaçar ou formar uma pilha de pedregulhos unidos por força gravitacional. A vaporização seria pequena e a velocidade de ejeção de material insuficiente para provocar qualquer movimento.

Se for poroso, ou seja, formado por um amontoado de pedaços, o asteróide pode ter uma parte destruída e alguns pedaços deslocados. Mas o seu corpo se manteria na mesma órbita.

Se for composto de duas rochas sólidas, a ejeção de material poderia ser maior, mas não teria força suficiente para impulsionar o corpo todo, pois a onda de choque se perderia na fronteira. Mesmo com uma parte destruída, o asteróide permaneceria no lugar.

Cientistas sabem pouco sobre supostos inimigos

É consenso entre os pesquisadores que a única alternativa para defender a Terra a curto prazo seria o uso de armas nucleares. O problema é que ninguém tem certeza de que isso funcionaria. A desconfiança cresceu depois da análise de fotos batidas no ano passado pela sonda Near. Elas revelaram que o asteróide Mathilde, um monstro de 61 quilômetros de diâmetro que anda perto da Terra, mas em uma órbita que não oferece perigo, parece um amontoado de pedregulhos unidos por força gravitacional. Levando esse dado novo em conta, o astrônomo Eric Asphaug, da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, fez simulações em computador e mostrou que o cutucão nuclear pode ser um furo n’água, porque um objeto como o Mathilde absorveria o impacto da explosão (veja o infográfico ao lado). “Muito mais trabalho é necessário antes de decidirmos se os engenhos nucleares são uma saída viável”, escreveu o pesquisador na revista inglesa Nature.

O alerta não desanima os defensores das bombas. O capitão da Força Aérea americana William Glascoe lidera uma campanha na defesa da criação de uma Força Espacial para coordenar os esforços militares do país no espaço, contra inimigos humanos ou naturais. No mesmo time, o deputado Dana Rohrabacher, do Partido Republicano da Califórnia, vem atacando o presidente Bill Clinton por ter vetado o projeto Clementine 2, do Departamento de Defesa, que também estudaria estratégias contra os asteróides.

Outras alternativas

Algumas idéias difundidas entre os pesquisadores a respeito de como desviar um asteróide.

Reflexo

Enormes espelhos poderiam ser colocados no espaço, de forma a refletir a luz solar sobre um lado do bólido. Para asteróides de 1 a 10 quilômetros, o espelho deveria ter uns 5 quilômetros de diâmetro. O aquecimento provocaria a vaporização da superfície e a saída de órbita (como no caso de uma explosão nuclear próxima).

Laser

Uma nave não-tripulada e carregada com um poderoso emissor de laser seria posicionada de forma a bombardear o asteróide com enormes quantidades de energia. Seriam necessários 10 megawatts (a potência de umas 100 000 lâmpadas elétricas) por metro quadrado para vaporizar a superfície e desviá-lo.

Britadeira

Uma nave não-tripulada levaria uma superbritadeira robótica que poderia quebrar pequenos pedaços do asteróide, jogando-os no espaço. Com a diminuição significativa da massa, o corpo se desestabilizaria e sairia da rota. O probleminha é que num asteróide de 1 quilômetro de diâmetro, a máquina teria de trabalhar pelo menos dez anos.

“Não sabemos praticamente nada a respeito dos asteróides. Por isso, é quase impossível afirmar, com qualquer nível de segurança, como se pode impedir que um deles, a caminho da Terra, não acabe mesmo batendo aqui.”

Paul Chodas, astrônomo do Laboratório de Propulsão a Jato, da Nasa, na Califórnia, Estados Unidos

Os menores são quase imprevisíveis

Asteróides assustam e não é sem razão. De acordo com Brian Marsden, “os números são incertos, mas deve haver algumas dúzias deles com mais de 5 quilômetros de diâmetro próximos da Terra, algo como 2 000 com mais de 1 quilômetro e cerca de 200 000 entre 500 metros e 1 quilômetro”. Esses são os que podem ser estudados. “Com os telescópios atuais não conseguimos acompanhar corpos com menos de 100 metros”, explica Paul Chodas. E há centenas de milhares deles. Eventualmente até poderiam ser vistos, mas, para estabelecer as órbitas, seriam necessárias muitas observações, em pontos variados da sua trajetória. Vários desse tamanho já caíram na Terra. Um abriu uma cratera de 1,2 quilômetro no Arizona, há 50 000 anos. Outro explodiu 80 metros antes de bater no solo e devastou 2 quilômetros quadrados de florestas em Tugunska, na Sibéria, em 1908. Centenas de renas morreram. Gente de diversos países da Europa afirmou ter visto o clarão no céu.

Mas a preocupação com os bólidos aumentou mesmo a partir de 1981, quando foi descoberta a cratera de Chicxulub, no Golfo do México, com 192 quilômetros de diâmetro. Estudiosos acreditam que ela é a cicatriz deixada por um asteróide de 10 quilômetros, que teria sido o responsável pela extinção dos dinossauros há 65 milhões de anos.

Empresário quer unir o útil ao lucrativo

O globo terrestre tem cerca de 150 marcas de impacto de asteróides. Isso sem contar as que devem estar no fundo dos oceanos. Mas foi o susto pregado pelo 1989FC, em 1989, que começou a acordar as autoridades para o problema. A pedra, do tamanho de um porta-aviões, cruzou a órbita terrestre num ponto onde o planeta havia estado apenas seis horas antes. E o fato só foi constatado depois de ter ocorrido.

Hoje, a Nasa investe cerca de 2 milhões de dólares por ano na identificação dos asteróides com mais de 1 quilômetro de diâmetro que apresentam risco de colidir com a Terra. Cerca de 15% do total que se supõe existir já foi rastreado. Mas isso é muito pouco. Para aprender a desviar asteróides, é preciso, antes, conhecer sua constituição e estrutura, o que só se consegue mandando naves para olhá-los de perto. Por isso, a maior esperança dos cientistas está na espaçonave Near (sigla para Encontro com Asteróides Próximos da Terra, em inglês), que já visitou o Mathilde, e, a partir de janeiro, se aproximará do Eros, outro gigante, de 40 quilômetros de diâmetro, que ronda a Terra, mas em órbita inofensiva. Outra alternativa será apelar para a iniciativa privada. A empresa americana SpaceDev já está vendendo espaço na nave que pretende mandar ao asteróide Nereus, de 1 quilômetro de diâmetro, em 2002. Além do lucro com o empreendimento, pretende ir treinando para, no futuro, explorar substâncias como carbono, alumínio, potássio, magnésio e cálcio nesses corpos celestes. Um jeito de unir o útil ao economicamente agradável.

“Já contratamos Tony Spear, que foi gerente do projeto Pathfinder, da Nasa, para liderar nossa missão. Seremos a primeira empresa privada a visitar um corpo celeste e abriremos a possibilidade de explorar os asteróides economicamente.”

James Benson, empresário americano do setor de informática, que quer mandar uma nave para o asteróide Nereus

“Estamos conseguindo muitos progressos. Em dez anos todos os asteróides grandes estarão identificados. Se queremos proteger a Terra, é nisso que precisamos investir: o conhecimento científico.”

David Morrison, chefe da divisão de ciência espacial do Centro de Pesquisas Ames, da Nasa, na Califórnia, Estados Unidos

Filmes trazem erros aos borbotões

David Morrison, da Nasa, costuma dizer que o número de gente que se esforça, na vida real, para identificar os corpos celestes próximos da Terra para ver se eles correm o risco de bater no planeta é menor do que a equipe de uma lanchonete do McDonald’s. Esse pessoal tem sentimentos contraditórios com relação aos filmes que andam saindo sobre seu trabalho. “Eles são bons porque o público toma consciência do problema e pode ajudar a pressionar as autoridades para aumentar as verbas da pesquisa na área”, diz Morrison. “Mas os erros que apresentam tiram parte desse valor.”

Morrison, assim como outros pesquisadores, não gosta da maneira “fácil” como se desviam asteróides com bombas nos filmes. “É como se já tivéssemos certeza de que esse método funcionaria, o que não é verdade.”

Talvez os únicos cientistas que lucrem com os filmes sejam os que participam deles, como consultores. É um tipo de trabalho novo, que não existia quando o primeiro da série dedicada ao assunto, When Worlds Collide, foi feito, em 1951. Hoje, tornou-se indispensável na sofisticada indústria cinematográfica.

Simplificação barata

Nem esses, no entanto, devem estar completamente satisfeitos, pois não conseguem eliminar das histórias certas licenças dramáticas. Ivan Bekey, que se aposentou recentemente do cargo de diretor de programas avançados da Nasa e deu consultoria para

Armageddon, sabe muito bem que um asteróide daquele tamanho jamais estaria na rota da Terra. Numa situação real, admite ele, seriam necessários quatro ou cinco anos de alerta para preparar uma missão similar à do filme, de seis a doze meses para chegar ao asteróide e um longo período para cavar os buracos e deixar as bombas. “Se o alerta viesse apenas algumas semanas antes do impacto, só nos restaria rezar”, afirma.

O principal concorrente de Armageddon, Impacto Profundo, também teve consultores. Mesmo assim mostra britadeiras furando um cometa, cuja densidade na vida real é similar à de um floco de neve. Além de conseguir a proeza de calcular a órbita do objeto em 15 segundos, quando seriam necessários pelo menos alguns meses. Para completar, a interceptação se dá próxima demais da Terra. Se fosse de verdade, a explosão seria tão danosa quanto uma trombada.

O remédio atômico é perigoso demais

Não custa lembrar àqueles que querem preparar a defesa da Terra contra asteróides que a ameaça de uma hecatombe nuclear – que parecia riscada da lista de perigos potenciais de extinção da raça humana – voltou à tona este ano.

Índia e Paquistão elevaram para sete o número de países capazes de detonar bombas atômicas. E mesmo que os dois rivais não tivessem realizado seus testes, o mundo não estaria menos ameaçado.

Os veteranos do clube atômico estão longe de ter aberto mão de seus arsenais, apesar de todas as promessas. Além disso, o sistema de controle sobre as armas russas está muito mais deteriorado do que nos tempos da União Soviética, o que aumenta o risco de venda ilegal de artefatos nucleares para países ou organizações políticas.

Dinheiro a rodo

Nos Estados Unidos, o orçamento prevê o gasto de 35,1 bilhões de dólares em projetos relativos a armas nucleares em 1998. E, embora os acordos de desarmamento proíbam o desenvolvimento de novas armas, os americanos acabam de criar a B-61-11, uma bomba que penetra na terra antes de explodir, desenhada para arrasar bunkers.

Nesse cenário, o argumento dos asteróides cai como uma luva nas mãos dos lobbistas nucleares. E o remédio proposto por Edward Teller pode resultar mais perigoso do que o provável perigo representado pelos asteróides. Tomara que a Unispace 3, conferência sobre o espaço que a Organização das Nações Unidas (ONU) está preparando para julho do ano que vem, em Viena, discuta o assunto.

“Estou convencido de que se um asteróide vier a ameaçar a Terra vamos ficar sabendo com muita antecedência. Não é preciso pânico.”

Brian Marsden, astrônomo do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, em Cambridge, Estados Unidos