O lado oculto da força
Episódio I - A Ameaça Fantasma, o novo capítulo da série Guerra nas Estrelas, não é só o filme mais esperado dos últimos tempos. É uma das maiores produções tecnológicas do século. Vale a pena entrar nos bastidores - e nos computadores - para entender por quê.
Ricardo Balbachevsky Setti
Vamos admitir que você não seja um fissurado por Guerra nas Estrelas, a série iniciada em 1977 e interrompida em 1983 com O Retorno de Jedi. Mesmo assim é difícil acreditar que você não esteja curioso com o tão esperado Episódio I – A Ameaça Fantasma. Considere que, agora, a história não continua, ela começa – e em alto estilo, pelo menos no que diz respeito aos efeitos especiais. George Lucas, o diretor, conta que demorou dezesseis anos para chegar ao resultado que pretendia. Antes, alega, não havia tecnologia capaz de moldá-lo de acordo com seus sonhos.
Você pode até descartar o enredo, que é divertido, sim, como nos outros filmes – ou mais, uma vez que conta o início de toda a saga de Darth Vader, o grande vilão famoso por sua voz metálica e pela máscara negra, que acaba morrendo em O Retorno de Jedi. O que importa, o que realmente indica que vale a pena encarar a tela, são os efeitos especiais. “Até o último episódio, o diretor usava um ou outro para realçar ou modificar uma cena. Mas a base ainda era o filme, a película”, explica à SUPER Dennis Muren, o supervisor da Industrial Light & Magic (ILM), a empresa de Lucas. “Agora, a base passa a ser uma tela branca e, como numa pintura, o diretor acrescenta o que quer. Até o filme”, exagera Muren. Se você acha que ele está puxando a brasa para a sua sardinha, leia esta reportagem.
Um cinema pouco ortodoxo
De suas 2 078 cenas, o Episódio I só tem 62 sem nenhum toque de informática. Isso mesmo. São 2 016 tomadas turbinadas, batendo o antigo recordista Titanic (1997), que exibiu 500. Ou seja, o filme quase não existe fora do computador.
A grande ferramenta usada para criar toda essa mágica chama-se Animatics. Nessa técnica, a ação é desenhada no computador antes de tudo, do mesmo jeito que se faz em videogames como Tomb Raider ou Fifa Soccer, em que os personagens são criados em três dimensões e depois postos em movimento. Assim, quando George Lucas pôs as câmeras para funcionar, os intérpretes de carne e osso já tinham assistido à versão fictícia do filme. A filmagem é agregada à animação. Algo totalmente inédito no cinema mundial.
“Isso reduziu muito o tempo das tomadas”, contou à SUPER Tom Bertino, chefe de animação da ILM. Em vez de seis meses, foram setenta dias. A edição também ficou mais fácil. Enquanto as gravações aconteciam na Tunísia e na Inglaterra, as imagens eram enviadas pela Internet para a sede da ILM, em São Francisco, nos Estados Unidos, onde os efeitos eram aplicados e mandados de volta para que Lucas decidisse o que precisava ser feito de novo.
Esse vaivém exigiu o esforço de 500 funcionários – 250 técnicos em computação gráfica e outros setenta envolvidos com efeitos especiais –, mas parece ter valido a pena. “Era como ter os alienígenas e todas as naves no set de filmagem. Rodávamos as cenas e víamos aparecer o elenco virtual no dia seguinte”, conta Dennis Muren, supervisor dos efeitos.
Sem computador não haveria filme
Embora as filmagens de Episódio I tenham levado apenas setenta dias, a preparação do longa-metragem demorou quase dois anos. Com um acordo conhecido como “O Tratado Jedi”, a empresa americana Silicon Graphics, maior fabricante de estações de trabalho para computação gráfica do mundo, concordou em desenvolver a tecnologia necessária para a aventura.
Cenários e personagens foram desenhados em programas de edição de imagens em 3D. Na hora de aplicar texturas, curvaturas e outros detalhes, os cálculos consumiram os computadores da ILM por um ano inteiro. “O trabalho era tanto que no fim da tarde a máquina central precisava usar a do funcionário que ia embora para auxiliar nas contas”, disse à SUPER Miles Perkins, gerente de tecnologia da ILM.
Depois de juntar as cenas filmadas, os cenários preparados anteriormente e os efeitos especiais, o filme ficou pronto. Ou quase. É que, depois de tudo, as cenas ainda passaram por um scanner para serem montadas no computador. Com recursos de “copiar e colar”, como os dos processadores de texto, Lucas montou todo o filme sem usar as tradicionais ilhas de edição. Só computadores.
Tudo isso para mostrar na tela, com brilho e perfeição, o início de uma história que começou tempos atrás, em uma galáxia muito, muito distante.
Mocinhos e bandidos
Os novos e os velhos personagens que ajudam você a entender a história do Episódio I.
Anakin Skywalker
É o menino gentil que vai se tornar o vilão Darth Vader. No filme novo, tem 9 anos e não passa de um garoto inocente. Depois de ter sido treinado pelo mestre Qui-Gon Jiin, passa a confiar no impetuoso guardião Obi-Wan Kenobi, que, mais tarde, por inexperiência, deixará o jovem se render aos encantos do lado negro da Força.
Qui-Gon Jiin
Cavaleiro Jedi, Qui-Gon Jiin é a voz da experiência. Calmo e controlado, foi enviado pelo conselho Jedi – a organização que tem por objetivo defender a justiça e a paz na galáxia, usando uma certa energia chamada Força – para resolver uma crise do planeta Naboo.
Rainha Amidala
Soberana de Naboo, é ameaçada pelos comerciantes da galáxia e pede auxílio aos cavaleiros Jedi. Conhece o jovem Anakin, que um dia será seu marido. Juntos, serão os pais dos heróis Luke Skywalker e Leia Organa, que vencem o mal em O Retorno de Jedi (1983).
Obi-Wan Kenobi
Ele já apareceu no primeiro filme da série, Guerra nas Estrelas (1977), só que trinta anos mais velho, como um mestre Jedi. Aqui, é apenas um aprendiz. Com a morte de Qui-Gon Jiin, assume o treinamento de Anakin. Sua inexperiência é uma das causas da transformação do jovem num vilão superperigoso. Kenobi vai ter muito do que se arrepender.
Darth Maul
Um antigo Mestre Jedi que se rendeu ao lado negro da Força, unindo-se aos Senhores de Sith, organização voltada para o mal. No Episódio I, ele é o grande vilão e tem como objetivo destruir seus antigos aliados.
Mace Windu
É um dos doze mestres que integram o conselho Jedi. Influente, tenta vetar o treinamento do jovem Anakin. Windu intui que o garoto tem uma tendência a manipular a Força para o lado do mal, ao contrário do que prega a filosofia Jedi.
Mestre Yoda
O mais simpático Mestre Jedi já apareceu nos filmes O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi. Como pertence a um povo que vive em média 900 anos, continua com a mesma aparência. Erra ao discordar de Mace Windu e apoiar a continuidade do treinamento de Anakin.
Jar Jar Binks
Alienígena da raça Gungan, anfíbios que habitam as profundezas dos oceanos do planeta Naboo. Grande amigo de Obi-Wan Kenobi, tem uma dívida de gratidão para com os Jedi, mas ninguém sabe por quê.
Senador Palpatine
Membro do grande senado galáctico, planeja um golpe para assumir o poder. Finge apoiar os cavaleiros Jedi na defesa do planeta Naboo. Posteriormente se tornará imperador, mas isso é para os futuros episódios da série.
Assim se faz uma reunião de aliens
Uma nova técnica de efeitos especiais, chamada Animatics, criou cenas com atores de verdade, bonecos de silicone além de personagens e cenários virtuais.
1. Em primeiro lugar, é feito o storyboard, ou seja, um desenho de como a cena vai ser, para que todos, atores e técnicos, se orientem por ele.
2. Filma-se o ator, os bonecos e tudo o mais que for real sobre o cenário azul. A cor mostra onde os elementos devem ser recortados para entrar na cena.
3. Faz-se no computador um diagrama da tomada mostrando onde estarão as câmeras, as luzes e os personagens, além dos movimentos.
4. Todos os elementos virtuais – personagens, naves, veículos e até cenários – são modelados em programas tridimensionais.
5. Sobre os modelos virtuais aplicam-se texturas e iluminação de acordo com o diagrama. Aí, faz-se a animação dos objetos. Um de cada vez. Cuidadosamente.
6. Tudo o que foi feito é empilhado, num sanduíche virtual. O diretor pode visualizar as fases separadamente e fazer mudanças. Só depois é que é filmada a cena final.
A evolução do sabre de luz
Repare como a tecnologia melhorou a definição da arma típica dos Jedi.
Efeito borrado (1977)
Depois de prontas, algumas cenas – como esta, em que o velho Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness) luta com seu sabre de luz – foram passadas em uma solução química que realçava e borrava a cor vermelha. Isso dava a luz única para a espada, mas obrigava as cenas de luta a serem feitas sempre no escuro.
Luz digital (1999)
O mesmo Obi-Wan Kenobi, representado por Ewan McGregor, 30 anos mais novo, mostra a evolução de 20 anos de efeitos especiais. A luz da espada, aqui, é totalmente criada no computador. Ele rastreia a cena à procura da arma e acrescenta o efeito da luz digitalmente.
Heróis que deram trabalho
A dupla de robôs ganhou fôlego extra para a nova temporada.
Os personagens mais charmosos do Episódio I são os dois robôs R2-D2 e C-3PO. O primeiro deles, com jeitão de lata de lixo, não mudou muito desde 1977. Mesmo assim, mereceu dezoito protótipos. ”Cada um fazia um movimento”, conta Miles Perkins, da ILM. O C-3PO também deu trabalho. Nos filmes antigos ele era interpretado por um ator vestido com uma armadura. Agora, é uma máquina dirigida por um técnico. Uma marionete. O operador aparecia no filme e só foi apagado depois por David Dozoretz, chefe de produção. O engraçado é que ele fez isso em casa, no Havaí, com seu próprio notebook.





