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Os navegadores de IA

Eles são capazes de assumir o controle do computador e navegar sozinhos, fazendo compras e tarefas online para você. Mas também podem ser bem perigosos. Entenda por que – e confira o teste dos cinco primeiros.

Por Bruno Garattoni Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
19 fev 2026, 12h00 •
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    Em algum momento de 2016, a internet sofreu uma metamorfose silenciosa. Dali em diante a maior parte do tráfego, e do conteúdo online, passou a ser gerada por bots, que assumiram o controle da rede. Eis a “teoria da internet morta”, popular nas redes sociais. É só uma lenda online, sem base concreta.

    Mas, em 2026, pode finalmente começar a se tornar realidade. Três anos após a explosão da IA generativa (que gera textos, imagens, vídeos ou código de computador), com o lançamento do ChatGPT, a indústria de tecnologia começa a apostar em uma nova variante: a IA “agêntica”, que é capaz de agir e executar tarefas a pedido do usuário.

    Em vez de entrar no site do supermercado e ir clicando nos produtos, por exemplo, bastaria digitar para a IA: “Faz a compra do mês pra mim?”. Precisa agendar uma consulta médica, quer ver se já saiu a sua restituição do Imposto de Renda, se inscrever num concurso, comparar os preços de algum produto, ou resolver qualquer outra coisa online? Você pede e o robô faz: ele assume o controle do computador e começa a navegar sozinho, digitando endereços e clicando em links, para executar as tarefas. Essa é a promessa de uma nova geração de navegadores, que trazem IA agêntica embutida e foram lançados por várias empresas nos últimos meses.

    Se a IA agêntica der certo, a internet pode mudar muito. Porque, em vez de navegar, você vai mandar o seu agente de IA fazer isso – e isso fará com que os sites sejam construídos para atender robôs, não gente. É o que afirma um artigo (1) publicado por 18 cientistas dos EUA, da China e da Inglaterra, que imaginam o surgimento de uma “economia da atenção de agentes”: uma versão robótica das coisas que os sites fazem hoje para capturar a atenção humana, como clickbait (títulos enganosos), SEO abusivo (mutretas para aparecer no Google), dark patterns (interfaces que induzem você a clicar em botões errados), conteúdo falso gerado por IA e diversas outras armadilhas – só que em versões para bots.

    Esse cenário ainda está um pouco distante: os browsers com IA agêntica são primitivos e de uso incipiente. Porém, eles já correm um risco imediato: a “injeção de prompt”. Engenheiros da empresa de software Brave descobriram (2) que o Comet, primeiro navegador com IA agêntica, pode ser induzido a vazar dados do usuário, permitindo que um hacker invada o Gmail da vítima.

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    Primeiro, o usuário precisaria visitar uma página pública, como um fórum ou post de rede social, na qual o hacker deixou instruções maliciosas. Aí, se a vítima apertasse o botão “Resumir esta página” no painel do Comet [veja no infográfico abaixo], a IA do navegador leria todo o conteúdo dela – incluindo as ordens deixadas pelo hacker, que ela obedeceria. A injeção de prompt pode transformar a internet num verdadeiro campo minado. E esse risco afeta, por definição, todos os navegadores com IA agêntica.

    A Perplexity, criadora do Comet, admitiu o problema e publicou uma resposta (3) na qual detalha novos mecanismos de segurança que adicionou ao browser. Soam convincentes. Mas aí, em novembro, a empresa de segurança SquareX anunciou ter descoberto uma brecha (4) pior, através da qual a IA do Comet poderia comprometer a segurança do computador como um todo. Essa falha também foi corrigida, por meio de uma atualização. Haverá outras?

     

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    (Caroline Aranha/Montagem sobre reprodução)

    Penso nisso enquanto baixo o Comet no meu notebook. A primeira impressão é boa: a instalação começa com uma animação mostrando uma galáxia, acompanhada de música que lembra a trilha do filme Interestelar. Mas, ao terminar de instalar o navegador, alguns minutos depois, o notebook começa a vibrar de um jeito estranho. É o cooler interno, que eu nem lembrava que existia – ele nunca havia sido acionado, com essa intensidade, nos três anos de vida do laptop.

    Olho o gerenciador de processos do sistema, e vejo que o Comet está usando quase 100% da potência da CPU, fazendo a máquina fritar. Ele se acalma depois de alguns minutos, mas outro problema permanece: seu alto consumo de memória RAM. Sozinho, sem nenhum site aberto, o Comet ocupa 754 MB de RAM (o dobro do Google Chrome, conhecido pelo uso voraz de memória). Embora ele use o mesmo “motor” de renderização de páginas que o Chrome, é bem mais pesado ao navegar.

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    Mas, se os recursos de IA valerem a pena, tudo bem. Começo testando um que serve para resumir vídeos do YouTube. Em vez de me dar um resumo por escrito do vídeo que estou vendo, a IA diz: “Para resumir o vídeo, preciso que você me envie o link (URL) dele no YouTube”. Poxa… mas, apesar desse primeiro tropeço, depois o recurso passa a funcionar corretamente. O assistente de IA também é bom, porque mostra funções diferentes conforme o site. Se você está no Gmail ou no WhatsApp Web, por exemplo, ele se oferece para resumir a mensagem ou a conversa exibida na tela.

    Entro no Google Sheets e ordeno ao navegador: “Faça uma planilha de marcação de ponto”. O Comet pede permissão para assumir o controle do mouse e do teclado, e aí começa a operar o meu computador – é como se houvesse um fantasma mexendo nele. Fico vendo a IA tentar criar a planilha. Ela digita, tira prints da tela, analisa, refaz várias e várias vezes. Depois de cinco longos minutos, o Comet diz que “a planilha está totalmente funcional e salva no Google Drive”. Começo a mexer nela, em que a IA inseriu quatro funcionários fictícios, e logo acho um erro primário: a fórmula de soma de horas só funciona para o primeiro dos quatro.

    Resolvo tentar algo ainda mais simples. Abro minha própria planilha de ponto e peço ao Comet que some as horas que trabalhei em janeiro. “Você atingiu o seu limite semanal de tarefas automatizadas no navegador. Faça o upgrade para o plano Pro.” Pago o tal plano, de US$ 20 mensais, e refaço o pedido. Aí o Comet consegue a proeza de errar na conta: mostra uma soma de horas 25% inferior à real. É um problema típico das IAs atuais, que frequentemente se atrapalham com cálculos.

    Hora de testar o modo de navegação autônoma. Digo ao Comet: “Tô querendo comprar um climatizador de ar. Pesquisa o melhor, até R$ 700, na Amazon e no Mercado Livre?”. Ele entra nesses sites, navega e faz a pesquisa corretamente, mas se atrapalha ao gerar a resposta, na qual inclui links para outros sites (não Amazon e ML, como pedi).

    A IA ainda tem o desplante de me mandar fazer o trabalho (“entre na Amazon Brasil e digite climatizador”). Não desisto, e tento outra ordem: “Entra no site da Receita Federal e checa se já saiu minha restituição do Imposto de Renda?”. Aí dá certo. O Comet vai até a página, clica nos links certos e me leva até a área certa do site, pedindo que eu digite meu login.

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    Ele é promissor. Mas sua IA inconstante, que erra muito, e o peso do programa fazem com que ainda não seja viável para o dia a dia. Passo para o próximo navegador: o Microsoft Edge, que recentemente ganhou novos recursos de IA [veja no infográfico acima]. O Edge usa o algoritmo GPT-5, o mesmo “cérebro” usado no ChatGPT, e é claramente mais inteligente do que o Comet.

    Navego em sites de notícias, começo a ler uma reportagem sobre o Banco Master, e o Edge se oferece: “Se você quiser, posso montar uma linha do tempo dos principais acontecimentos”. Aceito e ele faz isso direitinho, sem erros. A IA também sugere e faz um diagrama conectando o banqueiro Daniel Vorcaro aos demais envolvidos no caso. Legal.

    Aciono o modo Copilot Vision, que concede à IA o controle total do navegador. “Hi there, Brrunou”, me saúda uma voz em inglês. O Copilot Vision só funciona por comandos de voz – não aceita comandos digitados nem mostra respostas por escrito. Pergunto se podemos conversar em português, e a IA responde “claro que sim” com outro sotaque, agora curiosamente portenho.

    Peço a ela que pesquise um climatizador (como fizera antes com o Comet). O Edge começa a navegar sozinho, enquanto a IA narra o que está fazendo e raciocina em voz alta. Impressionante. Mas, ao terminar, ela empaca – e não me mostra os resultados. Digo à IA que faça isso, ela consente (“com certeza, Bruno”, responde, desta vez com sotaque carioca), mas não obedece. Insisto, e ela se limita a dizer: “Achei uns climatizadores top”. Estaria debochando de mim? Por outro lado, o Edge se sai bem no teste do Imposto de Renda.

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    O navegador da Microsoft tem um modo, o Copilot Actions, que faz compras online sozinho a pedido do usuário. Por enquanto, esse recurso só funciona nos EUA. Mas o ChatGPT Atlas, o navegador da OpenAI, também tem isso – e funciona no Brasil. Desde que você tenha um Mac (o browser ainda não tem versão para Windows) e uma assinatura do plano ChatGPT Plus, de R$ 100 mensais. Ao abri-lo pela primeira vez, salta aos olhos o minimalismo extremo: o programa não mostra nem aquela barra para você digitar endereços de sites. Toda a navegação é feita pelo prompt, que é conectado ao ChatGPT.

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    (Caroline Aranha/Montagem sobre reprodução)

    Começo a navegar e o Atlas mostra um botão, o Ask ChatGPT, com opções contextuais – como resumir vídeos do YouTube. Mas o mais interessante é o Agent Mode, que é capaz de navegar sozinho e fazer tarefas online. Ele fracassa miseravelmente nos testes do climatizador (mostra resultados do eBay e do Walmart dos EUA) e da Receita Federal (“não consigo entrar no site, mas posso te mostrar como fazer isso”).

    E as tais compras online? Pergunto à IA e ela sugere um teste: se oferece para comprar ingredientes para guacamole no site do supermercado Pão de Açúcar. Uau. Digo que sim e, espantado, assisto ao robô navegando e colocando os ingredientes no carrinho. Infelizmente, ele acaba decepcionando. Não adiciona itens importantes, como cebola e limão. E, quando vou olhar o carrinho, ele está vazio.

    Os sites da internet são infinitamente diferentes uns dos outros, e isso confunde as IAs agênticas. Para tentar resolver a questão, a OpenAI tem criado “conectores”, plug-ins (escritos por programadores humanos) que ensinam o Atlas a navegar por determinados sites. Nos EUA, ela já oferece um para o supermercado online Instacart. Mas, no Brasil, ainda não há nada do tipo.

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    (Caroline Aranha/Montagem sobre reprodução)
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    (Caroline Aranha/Montagem sobre reprodução)

    Experimento mais dois navegadores: Opera Neon e Dia Browser. O primeiro se sai bem no teste do Imposto de Renda, mas naufraga na pesquisa de climatizadores (não me mostra links para comprá-los). Apesar disso, ele é razoável; seu maior problema é custar US$ 20 mensais. Assim como o Comet e o Atlas, não vale. Já o navegador Dia, gratuito, propõe um uso mais simples, porém interessante, de IA [veja quadro acima].

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    O Google está desenvolvendo um navegador, o Disco, baseado em IA [veja quadro acima]. Também anunciou, no começo deste mês, o modo Auto Browse para o navegador Chrome – que passa a ser capaz de navegar sozinho, como os rivais. Mas esse modo só está disponível para quem está nos EUA e assina o serviço Google AI Pro, de US$ 20 mensais.

    Em suma: os navegadores de IA são caros (porque dependem de algoritmos que rodam na nuvem e consomem muito poder de processamento dela) e não entregam o que prometem. Não conseguem navegar e executar tarefas de forma confiável. Talvez, como acontece com as IAs generativas (que continuam sofrendo o problema das “alucinações”, sua tendência a inventar dados falsos, sem qualquer solução para isso no horizonte), a evolução da IA agêntica acabe batendo num paredão. Ou de um dia para o outro, como num passe de mágica, surja um algoritmo capaz de fazer qualquer coisa. O futuro dirá.

    Fontes (1) “Agentic web: weaving the next web with AI agents”; (2) “Agentic browser security: indirect prompt injection in Perplexity Comet”.  (3) “Mitigating prompt injection in Comet”; (4) “Comet’s MCP API allows AI browsers to execute local commands”.

     

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