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Previsões para 2015: 14 especialistas contam como será o Brasil daqui a 14 anos

Saiba como serão as escolas, a medicina e 12 outros aspectos da vida nacional quando a Super fizer 28 anos.

Ricardo Galhardo

Não temos bola de cristal. Não houve jeito de descobrir quem será o presidente, que número vai dar na loteria ou que time ganhará o Brasileirão de 2015 (embora tudo indique que vá ser o Corinthians, claro). Nesta reportagem, não há adivinhações nem palpites. Para contar a você como será sua vida daqui a 14 anos, fomos buscar as pessoas mais abalizadas do país – as que estão sentadas na janelinha do trem expresso que vai para o futuro. O escolhido para dizer que destino terão os computadores foi Jean Paul Jacob, um brasileiro que passa os dias pensando nos próximos lançamentos da IBM. Já para dar um panorama do que nos reserva a medicina, fomos conversar com Aron Belfer, um médico que usa mais a internet que o estetoscópio para ajudar pacientes. Por falar em internet, não poderia faltar a visão do empresário Jack London. Outro que dedica seu presente ao futuro é o americano Frederic Litto, cujo trabalho é levar as novas tecnologias para a escola brasileira.

Mas tecnologia não serve só a fins nobres. Por isso, entrevistamos o especialista em tecnologia bélica Luiz Paulo Macedo Carvalho. O britânico Andrew Simpson, radicado no Brasil, é um dos maiores responsáveis pelo esforço mundial de encontrar, no nosso DNA, os genes traidores que causam o câncer. Ninguém melhor que ele para falar do futuro da mais terrível das doenças. E, já que o assunto é doenças terríveis, conversamos com o infectologista Caio Rosenthal – o mais destacado soldado na bem-sucedida guerra brasileira contra o HIV – para saber o que será da Aids. O vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Carlos Vogt, prevê o futuro da pesquisa nacional. Marcos Freitas, um dos homens que dirigem a política hídrica do Brasil, fala do que nos restará para beber em 2015. E o respeitado ambientalista João Paulo Capobianco antevê o sombrio futuro das florestas. Marta Grostein, urbanista conhecedora das metrópoles, conta como serão as cidades.

André Fischer, especialista em mercado de trabalho, diz o que vamos ser quando crescermos. Helio Gurovitz, diretor da melhor revista brasileira de negócios, voltou de uma entrevista com Bill Gates para nos dizer o que nos reserva o mundo empresarial. E, como nem tudo é matéria, fomos perguntar para Lia Diskin, a mulher que trouxe o Dalai Lama ao Brasil, como estarão nossos espíritos em 2015. Colocamos nossa mão no fogo pela seriedade e pela competência de cada um dos 14 “profetas” que entrevistamos. Mas só o tempo dirá se eles estão certos. No mínimo, você tem em mãos informações preciosas para calcular os efeitos das decisões que tomamos hoje.

ÁGUA
Marcos Freitas, diretor da Agência Nacional de Águas

Dizer que a tecnologia transforma a economia e o mundo dos negócios é chover no molhado. Só que, hoje em dia, estamos de fato no limiar de uma era inédita em termos de transformação. E essa revolução vai logo chegar ao Brasil. A grande razão de tantas mudanças é o desenvolvimento da informática e das comunicações. “A era digital trará para as empresas e para toda a economia mais que uma mera mudança técnica ou uma nova forma de economizar custos e de criar produtos. Ela permitirá não apenas fazer melhor o que já se fazia, mas sobretudo fazer coisas que antes eram impossíveis”, afirma o jornalista Helio Gurovitz, diretor da revista Negócios Exame.

Se os negócios antes estavam ligados a empresas estanques, agora a conexão por meio das redes de computador permite estabelecer verdadeiras teias dinâmicas de trabalho corporativo entre várias companhias espalhadas pelo planeta. Isso significa que as empresas brasileiras passarão a buscar fornecedores de matérias-primas, parceiros e consumidores em qualquer parte do mundo. Uma companhia amazônica vai poder vender seus produtos na Finlândia com um sócio sul-africano. O mesmo vale para os funcionários. Até hoje, a grande maioria deles estava fixa em um local de trabalho. No futuro, dispositivos sem fio permitirão que uma companhia brasileira conte com os serviços do sujeito mais adequado para o cargo, ainda que ele more no Tibet ou em Marrakesh. Tanta mudança vai forçar os empresários brasileiros a pensarem diferente. Para começar, terão que se acostumar a enfrentar a concorrência do planeta inteiro. “Estaremos preparados?”, pergunta Gurovitz. Só o futuro dirá.

PESQUISA CIENTÍFICA
Carlos Vogt, vice-presidente da SBPC

Haverá uma participação cada vez maior do setor empresarial na pesquisa científica brasileira. “Para isso, teremos que encontrar formas de transformar a ciência num valor econômico”, afirma Carlos Vogt, ex-reitor da Unicamp, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e um dos pesquisadores que se dedicam a arquitetar a universidade do futuro. Com isso, haverá cada vez mais cientistas trabalhando em empresas, em vez de em universidades. Caberá ao poder público apenas definir as prioridades. Vogt acha que o Brasil entra nessa nova era em condições de participar com destaque dos grandes projetos científicos mundiais, como está participando do Genoma. “Em 2015, estaremos falando do Proteoma, o desvendamento das proteínas humanas. E o Brasil está bem aparelhado para isso”, diz.

TECNOLOGIA
Jean Paul Jacob, gerente de pesquisas da IBM americana

Em 2015, os computadores da forma como os conhecemos deixarão de existir – e essa nova era chegará ao Brasil simultaneamente com o resto do mundo. A previsão é do brasileiro Jean Paul Jacob, que trabalha na IBM, na Califórnia, Estados Unidos. “O conceito de computador será substituído pelo de microprocessador, que virá embutido em todo tipo de objeto. Acontecerá o mesmo que aconteceu com o motor: hoje você compra um aparelho e nem sabe quantos motores há nele”, diz Jacob. Ele estima que, em 14 anos, um trilhão de objetos com microprocessadores estarão conectados via internet. Um dia, o técnico de manutenção vai bater à sua porta sem ser chamado e dizer que veio consertar a geladeira. Explicação: o eletrodoméstico avisou automaticamente a manutenção sobre um defeito que você nem sequer havia percebido.

TRABALHO
André Fischer, economista da USP

No Brasil, as áreas de turismo, ambiente e internet serão campos férteis nos próximos anos. Mas, para ter sucesso em 2015, serão necessários, além do diploma, muito estudo “por fora”, visão do mercado e afinidade com a função. Várias profissões irão desaparecer, em especial as operacionais, como cobradores de ônibus, caixas, recepcionistas, balconistas, enfim, tudo o que possa ser substituído por uma máquina. “Junto serão eliminadas suas chefias – aquele chefe que só cuida para que os outros trabalhem”, afirma André Fischer, um dos maiores conhecedores de mercado de trabalho do país. Entre as profissões que ganharão espaço, predominarão os especialistas em selecionar dados e disponibilizá-los. “Por exemplo, alguém que descubra onde estão os fornecedores da matéria-prima que uma empresa precisa”, afirma.

URBANISMO
Marta Grostein, especialista em metrópoles

Se viver em uma grande cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro nos dias de hoje já é ruim, imagine dentro de 14 anos, quando o número de pessoas e, conseqüentemente, de automóveis, engarrafamentos, poluição e assaltos, será ainda maior? Que tipo de lazer e que nível de qualidade de vida os moradores das possíveis Gotham Cities de 2015 terão?

Na opinião da urbanista Marta Grostein, coordenadora do Laboratório de Estudos da Metrópole da Universidade de São Paulo (USP), a tendência é que, se nenhuma providência for tomada, os únicos espaços para diversão sejam cada vez mais privados – shopping centers, bares e restaurantes – e menos públicos – praças, parques e ruas. Isso já pode ser notado hoje, mas a surpresa ruim que o futuro nos reserva é que não só a população de baixa renda, mas também a de classe média, tende a viver cada vez mais na rota casa-trabalho. Os ricos, claro, ainda poderão viajar.

Esse problema, hoje exclusivo das metrópoles, tende a se propagar para as cidades de porte médio, que ainda oferecem uma qualidade de vida razoável. Para isso, contribuem dois motivos: o descaso das autoridades com as áreas de convivência pública e a inacessibilidade a essas áreas por boa parte da população devido à falta de mobilidade de quem depende do transporte coletivo. “Mobilidade é diferente de acesso. Não adianta ter espaços adequados se a população não consegue chegar até eles”, diz a urbanista. E não adianta pensar que levar o lazer para dentro da casa e do carro via internet, TV a cabo e DVD resolverá o problema. “Não podemos viver só na conexão casa-trabalho. Isso leva à segregação, à exclusão. O isolamento contraria a natureza humana”, afirma Marta.

CÂNCER
Andrew Simpson, coordenador do Projeto Genoma do Câncer

Infelizmente, se depender dos avanços terapêuticos advindos do Projeto Genoma, o câncer continuará a causar a morte de milhões de brasileiros em 2015. “Sim, em 14 anos nós ainda vamos morrer de câncer. Podem chamar de pessimismo. É realismo”, afirma o britânico Andrew Simpson, que lidera o esforço brasileiro de seqüenciamento de genes, o maior e mais bem-sucedido projeto da história da ciência nacional.

“Até agora, nenhuma terapia gênica para tratamento do câncer funcionou e existem evidências científicas de que esse não é o caminho certo”, diz o pesquisador. Para Simpson, porém, graças ao Genoma os médicos poderão detectar de forma cada vez mais rápida, simples e barata o surgimento da doença. Em vez das agressivas e, às vezes, imprecisas biópsias, tumores serão descobertos por meio do estudo das alterações genéticas do DNA retirado do sangue, da saliva ou da urina. Será uma espécie de check-up genético. Assim, os tumores malignos serão combatidos antes de a doença se espalhar pelo corpo, o que aumentará enormemente as chances de recuperação e a qualidade de vida dos pacientes. Além disso, os resultados dos exames serão mais precisos e detalhados. Essa técnica já é usada de forma experimental nos diagnósticos de câncer de próstata.

O tratamento também vai melhorar muito. “Poderemos definir os tumores conforme sua identidade genética. O câncer não será mais essa ‘entidade’ única. Teremos abordagens personalizadas para cada caso, enquanto hoje a doença é tratada com base em protocolos genéricos”, diz Simpson, referindo-se aos tratamentos atuais que, por não serem específicos, causam efeitos colaterais quase tão dolorosos e letais quanto o próprio mal.

DEFESA
Luiz Paulo Macedo Carvalho, especialista em tecnologia bélica

O Brasil vai precisar adquirir armamentos poderosos se quiser se proteger de algum eventual inimigo externo. Mas não estamos falando de bombas atômicas – essas talvez nunca sejam produzidas em território nacional. “A linha demarcatória entre armas nucleares e convencionais desaparecerá. Armas convencionais, desenvolvidas com base em princípios modernos e com grande poder destruidor, devem substituir as atômicas em todo o mundo”, diz o coronel Luiz Paulo Macedo Carvalho, o maior entendido em tecnologia bélica do Exército nacional.

O desenvolvimento da microeletrônica e de novas formas de energia permitirá a construção de armas de enorme precisão, automáticas e muito difíceis de detectar. Um exemplo disso é uma nova granada americana que está em fase de testes. Em vez de estilhaços, ela espalha chispas de energia eletromagnética, com poder letal muito maior. Até 2015, ela deve estar nas mãos dos soldados brasileiros. A guerra corpo-a-corpo tende a acabar. As novas armas serão controladas de navios, aviões, ou mesmo do espaço. Com isso, o soldado do futuro será mais um cientista ou um engenheiro do que aquele misto de Rambo com exterminador do futuro que o cinema costuma mostrar.

Isso significa que o número de mortos nas guerras diminuirá? Talvez sim, mas surgirá outro problema. “Com ataques precisos e conduzidos a distância contra alvos previamente selecionados, cai o número de baixas, mas aumenta o risco de ocorrer a desintegração do sistema político, por causa dos danos graves nas usinas de energia, nos centros de comunicação e na rede de transportes”, diz Macedo. Com isso, a população civil sai mais prejudicada que a militar.

ESPIRITUALIDADE
Lia Diskin, co-fundadora da Associação Palas Athena

A professora Lia Diskin, co-fundadora da Associação Palas-Athena e responsável pela vinda do Dalai Lama ao Brasil, antevê um futuro de anseio espiritual. “Hoje nos relacionamos com os outros e com o universo de forma utilitária. Pessoas e coisas existem para atender aos nossos interesses. Essa é a grande patologia contemporânea, mas é também o que pode levar à busca espiritual”, afirma. Entenda-se por anseio espiritual a busca de mecanismos para compreender o propósito da existência. Esses mecanismos podem ou não vir das religiões. A propósito, as religiões dogmáticas e exclusivistas deverão perder espaço no Brasil, na visão de Lia. “Estamos presenciando uma abertura, por parte das tradições religiosas, a um reconhecimento mútuo. Elas não pranteiam um paraíso perdido, mas celebram a possibilidade de ele existir na mente e no coração humanos”, diz.