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Uma revolução em 3 dimensões

Está inaugurada uma nova era no cinema - ou melhor: uma nova era no entretenimento. Daqui em diante, é assim que você vai se divertir

Texto: Luiz Felipe do Vale Tavares

Foi o próprio James Cameron quem disse: Avatar não é apenas um filme, é uma experiência.

Não dá para negar que ele tem razão. Desde a primeira cena, com os astronautas acordando do profundo sono induzido durante a viagem interestelar, já se percebe a preocupação não apenas com a história mas com a imersão da plateia nesse rico e complexo mundo criado pela tecnologia de ponta. Essa sensação só existe graças ao processo de filmagem em 3D criado pelo diretor.

Fato: é perfeitamente possível assistir a Avatar nas cópias convencionais exibidas em muitos cinemas e, mesmo assim, apreciar o filme pela aventura. Mas a experiência não será a mesma. Você definitivamente ainda não viu esse filme se não foi vê-lo em 3D.

Mais do que proporcionar uma experiência única, o filme promete ser o primeiro de uma série, revolucio-nando o cinema para sempre. Prova disso é que outros diretores influentes, como Steven Spielberg, estiveram visitando o set de filmagens de Cameron para conhecer as tecnologias envolvidas na criação do filme.

É certo que, com Avatar para empurrar, o 3D não poderá mais ser ignorado como mera curiosidade para uns poucos cinéfilos entusiasmados. Os diretores serão obrigados a se sofisticar, pensar seus filmes de um novo modo, de acordo com o impacto que a adição da 3a dimensão terá em seu público. A tridimensão vai ganhar as massas. Aliás, já não era sem tempo.

Esse sucesso só foi possível graças a um longo “retiro” de Cameron. Após o lançamento de Titanic, em 1997, ele desapareceu do mapa, uma conduta não muita típica para um diretor logo após o recebimento de diversas pre-miações. O caminho natural era propor ou aceitar os mais diversos convites milionários dos grandes estúdios para a realização de grandes filmes. Cameron justificou sua ausência dizendo que estava planejando novas e sofisticadas câmeras de filmagem para uso em 3 dimensões.

Uma busca de décadas

A ideia de conciliar cinema e 3D, na verdade, não tem nada de nova. A primeira tentativa bem-sucedida de reproduzir alguma sensação de imersão da plateia no filme veio do áudio. Entre os anos 40 e 50, surgiram revoluções importantes, como o som surround – a ideia de cercar o espectador com sons vindos de todos os lados. Um dos primeiros grandes experimentos foi o desenho Fantasia, de Walt Disney, em 1941.

Não demoraria até que experimentos bem-sucedidos com 3D aparecessem. Entre 1952 e 1955 houve o primeiro gran­de estouro do 3D, principalmente pelos filmes House of Wax, com Vincent Price, e Disque M para Matar, de Alfred Hitchcock. Nesse momento, todos os filmes exigiam os desconfortáveis óculos de papelão, com lentes de celofane azul e vermelha. Cansaço nos olhos e dores de cabeça eram naturais durante a exibição.

A Tecnologia 3D em si não é complicada, pois se baseia na maneira pela qual o nosso cérebro capta as imagens de cada um de nossos olhos para criar a perspectiva e a profundidade em nossa mente. O filme era processado com contornos nas cores azul e vermelha nos planos que deveriam se destacar mais à frente ou mais atrás. Como resultado, cada lente captava com mais facilidade um ou outro contorno, e o resultado era a imagem tridimensional.

Depois do experimento, Hitchcock confessou: não gostou, achou que o 3D não agregava nada. E ne-nhuma cópia tridimensional de Disque M para Matar sobreviveu para podermos julgar por nós mesmos.

Como o 3D toscão não vingou, o esforço de imersão acabou produzindo estratégias alternativas, como telas gigantes de cinema. Um destaque foi o Cinerama, que tinha uma tela gigante em forma de semicírculo e usava 3 projetores independentes para exibir o filme. Como essas tecnologias mais “confortáveis” aos o-lhos, o 3D caiu no esquecimento.

Vira e mexe, algum filme tentava quebrar essa escrita. Nos anos 70, Flash for Frankenstein, produ-zido por Andy Warhol, usava 3D em cenas interessantes, como uma em que um coração era arrancado do corpo da vítima e atirado em direção à plateia. Isso garantiu alguns sustos, mas a moda não pegou.

Nos anos 80, nova tentativa. Foram lançados Tubarão 3, Sexta-Feira 13, Parte 3 e Amityville 3, todos em 3D, um pior que o outro. Nos anos 90, o melhor exemplo é A Morte de Freddie. Mas a mais memorável incursão ao 3D no século 20 veio com o próprio James Cameron, num curta-metragem feito para um parque temático em 1996, continuação de O Exterminador do Futuro 2. Os efeitos 3D eram muito superiores aos que existiam até aquele momento. Mas, se contarmos o custo por quadro de filme, foi a peça mais cara da história do cinema.

A nova era do 3D

Chega o século 21, e com ele a verdadeira re-volução. James Cameron, em seu retiro pós-Titanic, trabalhou com Vince Pace, premiado diretor de fotografia, e criou o Reality Camera System (algo como “Sistema de Câmera de Realidade”), desenvolvido para explorar os efeitos tridimensionais de forma inédita.

Com essas avançadas câmeras, Cameron filmou uma série de documentários em 3D. Em vez dos velhos óculos de celofane, a técnica agora se baseava em modernos óculos polarizados, mais confortáveis do que os antigos de papelão e sem acarretar perda das cores do filme.

O quê? Polarizados? O nome é complicado, mas dá para explicar rapidinho. A luz é uma onda eletromagnética. Como tudo que tem campos elétricos e magnéticos, ela pode ser polarizada (lembra dos “maisinhos” e “menosinhos”, representando as cargas?). O segredo do 3D do século 21 foi fazer com que, da tela, emergisse luz em duas polarizações diferentes. Uma seria filtrada pela lente esquerda e a outra, pela direita. Resultado? É como se a cena fosse projetada de ângulos diferentes em cada um dos olhos: um efeito 3D totalmente realista.

Com isso, estava realizado o grande sonho da indústria cinematográfica. Avatar chegou em 2009 para comprovar que 3D não é coisa de criança. Com o amadurecimento da tecnologia, entramos numa nova era do cinema. O futuro promete.


O futuro, nos cinemas e em casa
A tecnologia 3D promete ser mais que uma moda passageira de entretenimento

Avatar é um divisor de águas. É o primeiro filme não destinado só a crianças que vai aos cinemas 100% em 3D. E, com seu sucesso, certamente não será o último. Os estúdios já estão se preparando para a onda tridimensional que deve assolar as salas de projeção ao longo dos próximos anos.

Praticamente todas as grandes animações infantis, como já estava acontecendo, sairão nos próximos anos em 3D. Isso inclui filmes com promessa de grande bilheteria, como o 4o Shrek e Toy Story 3, ambos com estreia marcada para meados de 2010.

A grande novidade, entretanto, será a presença de mais filmes live-action (ou seja, com o uso de atores em cena) no esquema 3D. Entre os já planejados, temos a sequência do clássico Tron, para o fim de 2010, e o primeiro filme com o personagem francês Tintin, dirigido por Steven Spielberg, que tem lançamento marcado para o fim de 2011.

Também para 2011 está planejado o lançamento de Battle Angel, filme de James Cameron baseado em quadrinhos japoneses que usará as mesmas tecnologias de Avatar. Para 2012, provavelmente teremos os novos Homem-Aranha e Star Trek em 3D. E até mesmo o bom e velho George Lucas já andou falando sobre a possibilidade de remasterizar seus velhos filmes da saga Star Wars em 3D.

Ao mesmo tempo, a tecnologia deve começar a invadir os lares de todo o mundo. Durante a CES 2010, maior feira de eletrônicos do mundo, em Las Vegas, foram apresentados diversos modelos de televisores com capacidade tridimensional, e o grupo responsável pelo formato Blu-ray (uma versão 2.0 do dvd, em alta definição, que agora começa a decolar no mercado mundial) já criou um padrão para a codificação de filmes em 3 dimensões. Ou seja, se você gostou de Avatar, prepare-se: o bicho vai pegar.