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5 livros encontrados na biblioteca de Hitler

17 de novembro de 2010

Apesar de ser mais conhecido por queimar livros, Adolf Hitler era um ávido leitor – estima-se que suas três bibliotecas pessoais tivessem cerca de 16 mil livros. Ele lia ao menos um livro por noite – às vezes mais, conforme alegava, quase sempre fazendo anotações nas páginas e colocando suas iniciais nas lombadas das edições.

Listamos 5 livros de sua coleção. As obras ajudaram a formar a personalidade do Führer e moldar sua visão de mundo (uma dela consta, inclusive, na lista de livros banidos durante sua ditadura).

1- “Berlin”, de Max Osborn – um guia arquitetônico e cultural da cidade banido pelo governo nazista
Era novembro de 1915, segundo ano da Primeira Guerra Mundial. Hitler, com seus 26 anos, era então cabo do 16º Regimento de Infantaria de Reserva Bávaro e atuava como mensageiro para o seu quartel-general. Numa manhã fria e cinzenta, ele resolveu aproveitar o dia de folga para comprar o guia arquitetônico e cultural de Osborn, um dos principais críticos de arte da época na Alemanha e conhecido por seus comentários irreverentes sobre estética e cultura. Hitler o tinha como um guia nessa área. Apesar disso, Osborn era judeu, teve de emigrar para os EUA e entrou na lista de autores proibidos na Alemanha, cujos livros foram queimados. Mas o exemplar de Hitler foi preservado – e preservou no meio de suas páginas um fio de bigode preto, encontrado em 2001, quando o livro foi examinado pelo autor do livro “A biblioteca esquecida de Hitler”.

2- “Peer Gynt”, de Henrik Ibsen – uma peça com capítulo introdutório escrito pelo mentor de Hitler


O ator Henrik Klausen como Peer Gynt na primeira encenação da peça, na Noruega, em 1876

O exemplar de Hitler do livro do famoso escritor norueguês traz um capítulo introdutório de Dietrich Eckart, figura intelectual influente em grande parte da Alemanha cuja adaptação de Peer Gynt foi uma das produções teatrais mais bem-sucedidas da época, com mais de 600 apresentações só em Berlim. Em 1921, Eckart fez uma dedicatória especial para Hitler e o presenteou com esse livro, chamando-o de “querido amigo”. Pouca gente o considerava assim, mas Eckart era ainda mais que isso. Ele foi o mentor do líder nazista e o apresentava aos amigos dizendo: “Este homem é o futuro da Alemanha. Um dia o mundo inteiro falará dele”. Eckart foi o responsável por dar forma e ardor ao antissemitismo de Hitler. Ele tinha uma publicação semanal em que incitava o ódio aos judeus e financiou editoras e organizações antissemitas.

3- “Meu despertar político”, de Anton Drexler, em que o fundador do Partido dos Trabalhadores Alemães conta como se converteu ao antissemitismo
No tratado de 40 páginas, Anton Drexler, mecânico ferroviário que fundou o Partido dos Trabalhadores Alemães (Deutsche Arbeiterpartei), conta sobre a sua conversão ao nacionalismo radical e antissemita. Ali, ele alega ter detectado uma suposta predominância da influência dos judeus sobre a economia, as finanças, a imprensa, o movimento bolchevique e a crise do reforço de guerra da Alemanha. Ela acusava os judeus de serem “o verdadeiro inimigo de todos os trabalhadores” e defendia abertamente o seu extermínio. Hitler ganhou o livro do próprio Drexler em uma reunião do Partido, em 1919, e se identificou com as idéias e os sentimentos colocados ali. Poucos dias depois, foi aceito no partido.

4- “Schlieffen: um estudo de sua vida e caráter para o povo alemão”, de Hugo Rochs – um livro sobre virtudes prussianas que orientou militarmente o líder nazista


O conde Alfred Graf von Schlieffen

O livro, publicado em 1921, se declara um “estudo de caráter” do lendário conde da Prússia Alfred von Schlieffen , que atuou na Guerra Franco-Prussiana e ficou conhecido pela genialidade estratégica. Quem escreveu foi seu médico pessoal, que não pretendia fazer apenas uma biografia do paciente: ele queria que isso servisse como um estudo do caráter do inteiro povo alemão, apresentando o conde como a corporificação das virtudes prussianas, como diligência, modéstia e humanidade. Hitler ganhou seu exemplar em 1940 do seu diretor de assuntos sociais, Artur Kannenberg, que marcou diversos trechos para que o ditador lesse. Hitler leu tudo atento, fazendo outras marcações com lápis. Alguns desses trechos falam da necessidade de uma guerra em duas frentes para a Alemanha: de um lado, contra Inglaterra e França, e de outra contra a Rússia. Essas marcações se tornaram os primeiros indícios da intenção de Hitler de promover uma invasão na Rússia. Naquele mesmo ano, ele começaria uma operação na frente oriental.

5- Obras completas de Shakespeare, em tradução alemã de 1925 – fonte de inspiração e de frases de efeito

Era uma coleção que pretendia tornar a grande literatura disponível ao público alemão em geral. Os livros de Hitler estão encadernados à mão em couro marroquino, com uma águia estampada em ouro com as iniciais A e H aos seus pés na lombada. Hitler considerava Shakespeare superior a Goethe e Schiller em todos os aspectos, pois reclamava que os dois alemães desperdiçavam seu talento em histórias de crises da meia-idade e rivalidade entre irmãos. “Ser ou não ser” era uma de suas frases favoritas. Ele chegou a desenhar com detalhes um palco para o primeiro ato de Júlio César e ameaçou mais de uma vez seus oponentes com a advertência feita a Brutus após o assassinato de César: “Nos encontraremos de novo em Philippi”.

As informações foram tiradas do livro “A biblioteca esquecida de Hitler”, de Timothy W. Ryback, publicado pela Companhia das Letras. Para mais curiosidades sobre o ditador: “O arquivo de Hitler”, Patrick Delaforce, Panda Books.


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