Coça aqui, coça!

Todo mundo sente coceira. Mas só agora a medicina está descobrindo como ela realmente funciona

por Texto Nina Weingrill

"Começou pelo nariz, formigando. Depois subiu lentamente e se alojou na minha pálpebra superior. Eu coçava tanto que a região chegou a ficar anestesiada. Não sentia mais dor, e os pêlos da minha sobrancelha esquerda já estavam ralos de tanto que eu arranhava a pele. Procurei dermatologistas, acupunturistas, psicólogos. Não adiantou. Sinto meu rosto pinicar quase todo dia há mais de 5 anos. Em vez de coçar o olho, esfrego o nariz para tentar enganar a sensação. Mas já fiquei em carne viva, porque coçar só me fazia coçar mais”, conta a secretária Kelly S., 26 anos, que evita sair de casa por medo de não conseguir se controlar. Ela sofre de um tipo raro de coceira, que só recentemente a ciência começou a entender. Afinal, por que a coceira existe? O que acontece no organismo quando coçamos? Por que algumas partes do corpo coçam mais? Por que coçar é gostoso, mas aumenta a vontade de coçar? Só de pensar nisso tudo você ficou com coceira? Como é possível? Calma...

Apesar de parecer raro, o caso de Kelly é bem comum – como ela, muitas pessoas sofrem de coceiras permanentes e incuráveis. A americana Mary Ellen Nilsen sentia intensa coceira na sobrancelha direita. Ela não conseguia se controlar e cutucava incessantemente o local, inclusive enquanto dormia. Até que acordou com uma gosma esverdeada escorrendo pelo rosto. Ela havia provocado uma infecção nos tecidos da pele e no próprio osso, que acabou quebrando. Literalmente, se coçou tanto que atravessou o crânio e chegou ao cérebro. Depois disso, Mary passou a dormir de capacete e com as mãos amarradas nas laterais da cama.

Mary é um caso extremo, mas tem um ponto em comum com as pessoas normais: você já reparou que a coceira parece ser mais intensa à noite? Não, não é o lençol da sua cama que está pinicando. Existe uma explicação bem mais científica. “A produção dos hormônios supressores da coceira, como a corticosterona, diminui no período noturno”, afirma Gil Yosipovitch, diretor do Laboratório de Fisiologia da Pele da Universidade de Wake Forest, nos EUA.

Por muito tempo, a coceira foi considerada uma forma atenuada de dor. E ela realmente divide com a dor alguns caminhos do sistema nervoso. Ambas as sensações começam nos nervos periféricos, que ficam na pele, e caminham até a medula espinhal, na base das costas, para daí seguir em direção ao cérebro. Mas uma pesquisa da Universidade de Mannhein, na Alemanha, fez uma descoberta surpreendente. Na nossa pele, existem nervos especializados em coçar, e o cérebro tem uma reação pré-programada a eles. “Quando a gente encosta o braço direito num ferro quente, por exemplo, o cérebro transmite um sinal que movimenta os músculos desse braço, para que tiremos o membro da situação de perigo e dor. Já se sentirmos uma coceira, também no braço direito, a mensagem enviada pelo cérebro vai estimular o lado esquerdo do corpo, para que você use a outra mão para se coçar”, explica Marcus Vinicius Gonçalves, neurologista do grupo de doenças neuromusculares do Hospital das Clínicas da USP. Quer dizer: ninguém precisa aprender a se coçar. É uma ação instintiva, tão natural quanto respirar. Por isso os cientistas acreditam que a coceira, que existe em praticamente todos os vertebrados terrestres, seja um mecanismo de defesa – para que os animais aprendam a detestar, e evitar, picadas de insetos e outros agentes irritantes.

Mistérios que coçam

Ninguém sabe com certeza por que algumas regiões do corpo coçam mais do que outras. Mas a chave desse mistério pode estar numa condição bizarra e rara, conhecida como “coceira deslocada”. Nas pessoas que têm esse problema, as sensações da pele sofrem uma espécie de curto-circuito. Ao coçar o pé, por exemplo, a pessoa sente pontadas em outra região do corpo, como a barriga ou o tórax. “A coceira ainda é um dos grandes quebra-cabeças da medicina”, afirma Hermann Handwerker, pesquisador da Universidade de Erlanngen-Nuremberg, na Alemanha, e pioneiro no estudo do assunto.

Embora a dor e a coceira percorram o mesmo caminho para chegar ao cérebro, elas não acontecem juntas. É por isso que uma sensação inibe a outra, e muitas pessoas coçam a mesma região até se machucar, para que a sensação de coceira passe. “Assim que meu nariz começa a ficar vermelho ou sangrar, a sensação de coceira é substituída pela dor. Mas eu acho muito mais fácil lidar com isso do que com a coceira em si”, afirma Kelly. Isso acontece porque nosso organismo está mais acostumado com a dor do que com o prurido. “Algumas pesquisas indicam que as vias de dor sempre mandam um impulso ao cérebro, com freqüência maior ou menor. Ou seja, é como se sentíssemos dor o tempo todo, mas em graus diferentes. Já as vias de prurido só são acionadas quando sofrem um estímulo direto”, diz o neurologista Marcus. É por isso que os analgésicos podem causar coceira. Como bloqueiam os sinais de dor, o sistema nervoso fica mais sensível, “escutando” melhor os sinais de coceira.

A mecânica da coceira é simples: no contato da pele com agentes externos (uma picada de inseto, por exemplo), o organismo libera histamina, uma substância presente no sangue que faz a pele coçar. Por isso, a principal arma da medicina são os anti-histamínicos (mais conhecidos como antialérgicos), que cortam a ação dessa substância. Mas, para casos extremos como o de Kelly, eles não funcionam. Isso porque recentemente se descobriu outro tipo de coceira. “Ela também pode ser psicológica. Pacientes com ansiedade ou depressão podem desenvolver o hábito de coçar determinado local da pele, e lá ter alterações cutâneas pelo ato constante de coçar”, diz Magda Blessmann Weber, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

“Uma opção é a psicoterapia, usada para que o paciente tente descobrir a verdadeira causa da coceira”, diz o especialista Richard Honsinger, da Universidade de Medicina do Novo México. Foi o que sugeriram a Ieda S., de 66 anos. Pouco depois de perder o marido e ter sua casa assaltada, a aposentada começou a sentir toda a região abaixo dos seios coçar incessantemente. De lá, a coceira passou para a barriga, os braços e as pernas, e o verão castigou ainda mais Ieda, que, sem solução aparente, coçou seu corpo todo até formar feridas. Ela fez mais de 20 testes de laboratório, mas só foi descobrir que sua coceira era emocional depois de ficar quase 5 meses com o corpo praticamente em carne viva. “Eu andava com bolsas de gelo pela casa, não conseguia dormir, me alimentar direito e nem conviver com outras pessoas”, conta. Com a ajuda de acupuntura e acompanhamento psicoterápico, Ieda conseguiu mudar a mensagem que seus neurônios estavam enviando ao cérebro e deixou de ter o incômodo. “Mas não há uma solução garantida”, diz a dermatologista Magda.

É gostoso. Por quê?

“Coçar é uma das melhores gratificações da natureza, e à mão mais do que qualquer outra”, escreveu o filósofo Michel de Montaigne, no século 16. Isso ninguém discute. Mas por que é assim? “Por motivos que ainda não são conhecidos, o prurido estimula uma região do cérebro relacionada ao prazer. Isso faz com que coçar se torne um tipo de recompensa para o cérebro”, diz Marcus. Ainda que o ato forneça alívio momentâneo, normalmente piora a coceira, pois ela tende a se realimentar. Veja o hábito masculino de coçar o saco, por exemplo. Seja porque não tem nada para fazer, seja para ajeitar a cueca, o homem dá uma leve coçadinha. Isso faz o corpo liberar histamina, que causa inchaço e vermelhidão na pele, atiça as terminações nervosas, que aumentam a coceira... e por aí vai.

É por isso que, quanto mais você se coça, mais coceira sente. Mas vale a pena fazer um esforço para maneirar. “Qualquer alteração de comportamento, como o hábito de ler bastante, faz com que as ligações entre os neurônios se modifiquem. Se você começa a se coçar sempre e em excesso, produz alterações que podem criar novos caminhos para a transmissão de informação no corpo”, acrescenta o neurologista Marcus. Se coçar muito, e todos os dias, pode fazer com que o seu cérebro fique mais propenso a sensações de coceira. Que, além de psicológica, também pode ser social. O córtex cingulado anterior, uma região do cérebro relacionada a nossas emoções, é ativado quando você está se coçando. Isso pode ajudar a explicar por que, como o bocejo, o ato de coçar é contagioso. “Faz parte da atuação de neurônios associados com a empatia, que só os primatas sentem”, justifica Marcus. É por isso que, provavelmente, você sentiu coceira ao ler esta reportagem. Pensar no assunto, ou ver imagens que remetam a ele, é o suficiente para provocar prurido. E a coceira “social” pode tomar proporções assustadoras. Ela foi responsável por um ataque de histeria coletiva na China, onde epidemias de coceira foram aparecendo em várias cidades vizinhas. Os médicos acabaram descobrindo que não havia nenhuma doença ou alergia – todo mundo começou a se coçar simplesmente porque viu outras pessoas fazendo isso. Em 1982, dois alunos de uma escola da Virgínia do Oeste, nos EUA, começaram a se coçar incontrolavelmente assim que chegaram para a aula. Em poucas horas, 57 estudantes já estavam com pruridos. O pior caso aconteceu na África do Sul, em 2000, e afetou 1 400 estudantes.

Recentemente, descobriu-se que o prurido pode ser genético. Em experiências com ratos, cientistas americanos descobriram que um gene, conhecido pela sigla GPRP, está ligado ao processamento dos sinais de coceira no cérebro. Os ratos que não têm esse gene são praticamente imunes à coceira. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas se coçam mais do que outras. Graças à engenharia genética, talvez um dia seja possível desligar o GPRP dos seres humanos antes mesmo do nascimento. Mas será que isso é uma boa idéia? “A coceira é um mecanismo de suma importância e não deve ser suprimida”, protesta Gil Yosipovitch. Afinal, um pouquinho de coceira não faz mal a ninguém. Não procure sarna para se coçar... dê uma coçadinha e seja feliz!

300 milhões de pessoas no mundo todo sofrem de sarna – a principal causa de coceira intensa.

O corpo humano é coberto por 2 m² de pele. Mas a coceira pode começar em pontinhos minúsculos, de 0,6 mm².

Os sinais de coceira viajam para o cérebro com velocidade de 0,5 m/segundo. Isso é 20 vezes mais devagar do que os sinais de dor, por exemplo.

Numa experiência feita com ratos, as fêmeas se coçaram 23% mais do que os machos.

Aí não! Pára! Pára!

É só alguém passar a mão numa região sensível do seu corpo, como embaixo do braço, na sola do pé ou perto do joelho, e pronto: você começa a se contorcer, ri incontrolavelmente e é tomado por uma sensação extremamente desagradável. A cócega é uma das reações mais bizarras do organismo. Como uma coisa tão inocente pode produzir um efeito tão horrível, a ponto de já ter sido usada como forma de tortura? E por que ninguém consegue fazer cócegas em si próprio? Assim como a coceira, a cócega é o que sobrou de um mecanismo de defesa criado para nos proteger de predadores e ameaças em geral – como a aranha que está subindo agora no seu pescoço (brincadeira). Só que a cócega é uma reação ao inesperado: como nos avisa sobre coisas que estão chegando de surpresa, e portanto são potencialmente mais perigosas, é mais desagradável do que a coceira. Se você tentar fazer cócegas em si mesmo, o cerebelo (área do cérebro que coordena os sentidos) conclui que a situação não é inesperada, e não dispara sinal nenhum. A exceção fica por conta dos esquizofrênicos. Um estudo mostrou que, como eles não distinguem sensações externas daquelas causadas pelo próprio organismo (é por isso que têm a impressão de ouvir vozes), muitas vezes têm a capacidade de fazer cócegas em si próprios.

 

Para saber mais

Itch: Basic Mechanisms and Therapy

Gil Yosipovitch, Malcolm Greaves, Francis McGlone Informa HealthCare, 2004.

 

publicidade

anuncie

Super 336 - Astrologia funciona (mas não como você imagina) E mais: seu signo talvez não seja aquele que você pensa. Assine a Super Compre a Super

Superinteressante ed. 336
agosto/2014

Astrologia funciona (mas não como você imagina)
E mais: seu signo talvez não seja aquele que você pensa.

- sumário da edição 336
- folheie a Superinteressante

Você está na área: Saúde

publicidade

anuncie