Dor nas costas

Por que o homem sente tantas dores nas costas.

por Lúcia Helena de Oliveira

Olha, não tem muito jeito. Ninguém tem a coluna retinha. As vértebras não conseguem ficar no lugar a vida inteira. Depois dos 30, então, teimam em desviar pra valer. Mas calma. Coluna um pouco torta não causa, necessariamente, as temidas dores nas costas. Só 5% delas são causadas pelas vértebras. A maioria tem origem muscular. Umas e outras, porém, são herança de um antigo atrevimento da humanidade. Quem mandou querer andar sobre duas patas?

Nos anos 40, um grupo de ortopedistas ingleses e americanos resolveu, num estudo conjunto, medir o que chamaram de “curvatura lombar” de mais de mil “voluntários saudáveis” — sem dor nas costas, bem entendido. Assim, fizeram a média e divulgaram, nos quatro cantos da Terra, um padrão de normalidade, conhecido como ângulo de Fergunson. Segundo ele, para ser normal, a curva lombar devia ser de 47 graus. Acontece que, nos quatro cantos da Terra, os indivíduos saudáveis não são iguais.

A coluna tem suas curvaturas naturais. E o grau dessas curvas varia de lugar para lugar, de raça para raça. Um americano típico tem bumbum chato porque suas vértebras lombares formam um ângulo menor — ou seja mais reto — do que aquele padrão de normalidade. Já os três povos mais significativos no Brasil — os índios, os judeus mediterrâneos e os negros — estão numa situação oposta, porque seu ângulo é bem maior, em torno de 53 graus. A lordose, quem diria, é a razão do bumbum arrebitado da mulher brasileira. Mas o nome lordose, que não indica doença, assusta o ouvinte, quando ele está à procura de uma causa para a sua dores lombares.

“É um absurdo achar defeito o que é normal”, alerta o cirurgião ortopedista Aloysio Campos da Paz, que dirige, há 19 anos, o Hospital de Doenças do Aparelho Locomotor, conhecido em Brasília como Sarah, numa homenagem à ex-primeira-dama Sarah Kubitschek, que ajudou a fundá-lo. “Existem muitos mitos nessa história de costas retas”, diz Campos da Paz. “Não quer dizer que é certo ser corcunda. Mas um pequeno desvio aqui, outro ali, quase todo mundo tem. E quem ainda não tem, pode vir a ter.”

Envelhecer é curvar-se. Não é à toa, é uma adaptação: o coração já não agüenta passadas tão rápidas; o cérebro deixa de ser tão veloz nos seus reflexos. As vértebras, então, puxam o freio e obrigam o sujeito a levar a vida num ritmo mais lento. No extremo oposto da vida, na infância, as costas são mais retas e extremamente flexíveis, topam qualquer cambalhota. Quem está aprendendo a andar está sujeito a quedas e tropeços, que só um tronco flexível pode suportar. É no meio desse caminho, porém, que as pessoas mais reclamam de dor no pescoço, dor nos quadris. No Brasil, os consultórios recebem 4,63 milhões de pacientes com esse problema, todo ano, segundo o Ministério da Saúde. Oito em cada dez queixas são de gente entre 30 e 50 anos de idade.

Só que, em 95% dos casos, os culpados não são os desvios. Por trás da maioria das dores estão músculos. Ligados às vértebras, eles nunca relaxam. Ainda bem. Como, por incrível que pareça, ainda não estamos acostumar a ficar em pé, sem os músculos cairíamos como bonecos de pano. Às vezes, porém, a musculatura exagera na tensão. Daí, aperta os ramos dos nervos que saem da coluna. Estes são mais finos do que um fio de cabelo, mas dóem que não é fácil.

Aquele hominídeo que ficou em pé, há 4 milhões de anos, não foi castigado por essa ousadia. Ele vivia trinta anos, no máximo. E a sua coluna conseguia ter essa mesma vida útil na fatigante posição vertical. Além disso, o corpo humano criou um reforço muscular. Isso mesmo. As vértebras não nos mantêm erguidos sozinhas. Uma série de músculos também nos sustenta, principalmente os do abdome e os das nádegas.

“Barriga flácida é meio caminho andado para as costas nos torturarem”, diz a fisioterapeuta Zilda Aparecida Palhares, responsável pela rotina de exercícios do presidente FHC, desde que ele apareceu em fevereiro passado, no Hospital Sarah de Brasília, com dores fortíssimas. “Ele é disciplinado e nunca reclama”, fala sobre o seu ilustre paciente. Aquele hominídeo, no entanto, seria dispensado das aulas de abdominais. Predador, ele corria atrás de sua caça e mantinha excelente forma física. “Dor nas costas é um mal moderno”, afirma o reumatologista José Knoplich, presidente do Centro Brasileiro de Estudos da Coluna Vertebral, em São Paulo.

A vida média atual do brasileiro é 65 anos. Aos 30, ele ultrapassa o prazo de validade de sua coluna, por assim dizer. E, pior, fica cada vez mais tempo sentado. Indiretamente, até a mais confortável poltrona provoca sofrimento. Primeiro, porque o estilo sedentário promove a flacidez e a coluna perde o auxílio muscular. “Além disso”, completa Knoplich, “quando estamos sentados, a pressão sobre as vértebras aumenta 50%”.

O estresse diário agrava a situação, deixando os músculos tensos. Desse modo, eles ficam enforcando os nervos. Existem remédios para relaxá-los. Mas têm tantos efeitos colaterais, que não devem ser tomados sem consulta médica. “Até porque são paliativos”, diz a fisioterapeuta Zilda, que também não é fã das massagens. “Elas soltam os músculos naquele instante. Depois, a pessoa pensa nos problemas e, em segundos, os músculos se contraem de novo.” Para ela, o melhor remédio é cada um aprender a relaxar, com alongamentos que possam ser feitos até no trabalho.

O ortopedista paulista Haruo Nishimura é outro crítico dos massagistas. Para ele, que fez fama tratando do ex-presidente João Baptista Figueiredo em 1984, só médicos podem mexer nas vértebras: “Já atendi gente que ficou paralítica depois de uma massagem”. Nishimura trata hérnias de disco manipulando a coluna dos pacientes — como a atriz Cláudia Raia, que já teve duas hérnias. “Ela exagera na ginástica”, diz o médico da estrela. “Isso é tão perigoso quanto o sedentarismo.”

Às vezes, o bisturi é inevitável para curar a hérnia. Foi a salvação do próprio Figueiredo em 1985. “Mas, hoje, ele realiza cortes que nunca ultrapassam 3 centímetros”, conta o cirurgião Marcos Masini, do Hospital Sarah. “O paciente tem alta em dois dias e, passado um mês, leva uma vida sem restrições.” Isso tudo graças ao avanço de microcirurgia, a cirurgia feita com a ajuda do microscópio. A técnica ainda não resolve as entorses, quando os pontos de contato entre as vértebras se esbarram e incomodam. Mas a Medicina vai chegar lá.

 

 

 

 

Para saber mais:

O dia em que o homem nasceu

(SUPER número 2, ano 4)

Assim caminha a humanidade

(SUPER número 6, ano 4)

 

 

 

Assim se entorta a humanidade

A evolução e os problemas da coluna.

Entre oito e cinco milhões de anos atrás, um suposto ancestral comum do homem e do chimpanzé vivia de quatro.

Sua coluna era um tubo rígido, que não sustentava o corpo — servia apenas de elo entre os membros superiores e inferiores.

Há quatro milhões de anos, porém, ele libertou as patas dianteiras do chão. Tornava-se o Australopithecus afarensis. Como? Curvando a ponta inferior da coluna, empinando as nádegas. Este hominídeo mal sabia caminhar direito só com os membros inferiores — andava com os pés para fora.

Já faz 1,5 milhão de anos que as vértebras deram uma nova empinada, estufando o peito. Desse jeito, conseguiram erguer completamente o tronco. Surgia o Homo erectus. O homem ficou de pé.

Em 1995, 80% da população mundial têm dor nas costas. Nesses mais de 1 milhão de anos, o ser humano ainda não se adaptou a ser bípede. Ele até agüenta essa postura por duas ou três décadas. Depois dos 30, a situação pode se tornar cada vez mais insuportável.

 

 

As curvas perigosas do corpo humano

A coluna é parte de um sistema com nervos e músculos, que disparam a dor à menor tensão.

Parece uma pilha de ossos. E é. Mas as 33 vértebras da coluna são tão bem empilhadas que a menor mudança no ângulo de uma delas pode fazer a maior diferença. Basta que um nervo seja pinçado e pronto: por menor que ele seja, vai torturar o cidadão. O equipamento de sustentação do corpo humano é formado ainda por músculos. Se um músculo se contrair um pouco mais, depois de um dia de trabalho complicado, poderá também contrair um nervo, que terminará dolorosamente inflamado.

 

 

A região mais frágil

Lordose cervical é o termo científico da curvatura natural das vértebras para fora. Sem ela, nossa cabeça ficaria caída, olhando para o chão, como se andássemos de quatro. Essa área próxima ao pescoço é a mais flexível. Para possibilitar tanta movimentação, passam por ali muito mais nervos do que nas outras áreas — nervos que, ao menor aperto, causam sofrimento. Por isso, é uma área frágil.

 

 

Os amortecedores

Compostos por um anel de cartilagem com um núcleo gelatinoso, os discos intervertebrais amortecem o impacto entre as vértebras. Como são solicitados a todo instante, tendem a se desgastar com o tempo e causar problemas — as temidas hérnias.

 

 

A área de proteção

Cifose dorsal é outro palavrão que designa mais uma curvatura natural, dessa vez para dentro, necessária para equilibrar o tronco erguido do homem bípede. Suas vértebras, de tamanho intermediário, são inflexíveis. A rigidez se explica: elas fazem parte da caixa toráxica, que guarda e protege dois órgãos vitais — o coração e o pulmão.

 

 

Os mensageiros da dor

A coluna funciona como um tronco central, de onde partem nervos para comandar os movimentos de todo o corpo. Há também um conjunto de nervos encarregados de mexer este próprio tronco central. São vias de mão-dupla: comunicam as ordens do cérebro, como “curve-se”; ao mesmo tempo, mantêm o cérebro informado sobre a posição das vértebras, dando a consciência do tipo “eu agora estou sentado”. Qualquer nervo, porém, envia mensagens de dor, quando comprimido. As duas áreas flexíveis da coluna — a lombar e a cervical — são as mais enervadas e, portanto, as mais sujeitas a dolorosas encrencas.

 

 

A zona de sustentação

As vértebras lombares agüentam a maior parte do peso corporal e, por isso, são de cinco a seis vezes maiores que as cervicais, que têm de sustentar apenas a cabeça. Elas formam a segunda curva para fora, a lordose lombar, que na verdade foi a primeira das curvas adquiridas na evolução — aquela que permitiu aos humanos erguer o tronco.

 

 

O que os pés têm a ver com os ombros

Uma nova terapia trata o corpo todo como uma “cadeia de músculos”.

Uma dor nos ombros é uma dor nos ombros para a fisioterapia tradicional — que, no caso, opta por exercícios dirigidos a essa região específica. Mas, de acordo com uma nova técnica de tratamento, a dor nos ombros pode ser um calcanhar que pisa mal. Ou, quem sabe, um quadril fora do prumo. Essa linha é a RPG, sigla de Reeducação Postural Global, criada em meados dos anos 80 pelo fisioterapeuta francês Philippe Souchard, professor da Universidade de Saint Mont.

“A ponta de um músculo está ligada à do músculo seguinte”, explica a fisioterapeuta paulista Silvana Ciociorowski. “Assim, a musculatura forma uma cadeia. Se a perna se contrai, a cabeça tende a entortar e, com isso, a sua região dói.” Ela é uma das pioneiras em RPG no país, que hoje já soma quinhentos especialistas.

A técnica consiste em ensinar posturas, que trabalham o corpo dos pés à cabeça, colocando tudo no lugar. “O resultado é mais lento, porém efetivo, porque não nos limitamos a aliviar a dor local”, explica Silvana. Ela só faz um alerta: “Quem aplica RPG é sempre um fisioterapêuta, com pós-graduação orientada pelo próprio professor Souchard. No Brasil, muita gente usa o nome RPG, sem ter diploma.”

 

 

 

Para acabar com o sofrimento

A rotina do Hospital Sarah, de Brasília, é um exemplo.

 

A espera de alívio

Este é o salão de espera do hospital, exclusivo para quem sente dor nas costas. Ele fica lotado todas as manhãs. Só em fevereiro passado foi uma média de 135 atendimentos diários.

 

 

O olhar clínico 

Segundo o neurocirurgião Marcos Masini, só 2% dos pacientes necessitam de operação. “Mas, mesmo quando o problema é tensão, a consulta médica é fundamental para se criar um programa eficiente para cada caso.”

 

 

A ginástica

No final, qualquer paciente é obrigado a fazer exercícios. “Quem foi operado também deve fortalecer os músculos”, diz a terapêuta Zilda Palhares. “Senão, terá uma recaída.”

 

 

O choque contra a dor

Um dos avanços para atenuar o sofrimento são aparelhos que emitem ondas elétricas. Eles dão pequenos choques capazes de bloquear a mensagem que leva ao cérebro a sensação dolorosa.

 

 

Sem impactos

Para quem nem consegue fazer exercícios direito, o jeito é fazê-los na piscina: a água diminui a força da gravidade e, portanto, o impacto sobre as vértebras doentes.

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