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O islã incita a violência?

Fundamentalistas dispostos a matar "infiéis" em nome de Deus existem em todas as religiões. Mas uma coisa não dá para negar: eles são bem mais numerosos no mundo islâmico

Textos Eduardo Szklarz

É fato: há muito mais terroristas muçulmanos em atividade no mundo que cristãos ou judeus dispostos a matar em nome de Deus. Também é verdade que certos trechos do Alcorão, o livro sagrado do Islã, parecem um convite à intolerância – dependendo da interpretação que se faça. Mas nada disso permite a quem quer que seja afirmar que o islamismo é um uma religião mais chegada à violência que as outras.

Fundamentalistas sanguinários nunca foram uma exclusividade do mundo islâmico. Nas Cruzadas e na Inquisição, por exemplo, judeus e muçulmanos sentiram o fio das espadas cristãs ou arderam na fogueira simplesmente porque professavam outra crença. Quanto aos trechos do Alcorão que supostamente incitam a violência, não há como negar: alguns são bastante violentos. Mas a Bíblia e a Torá também os têm (leia mais no quadro abaixo), e nem por isso cristianismo e judaísmo são apontados como religiões propensas ao quebra-quebra.

É graças à fúria de grupos como Al-Qaeda e Hamas que a imagem do Islã no Ocidente anda tão estremecida. Em junho de 2010, levantamento feito pelo instituto de pesquisa britânico YouGov indicou que metade dos ingleses relaciona islamismo com terrorismo, 58% o associam com extremismo e 69% acham que a religião de Maomé encoraja a repressão às mulheres. Para piorar, surgem líderes islâmicos como o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que não se cansa de pregar contra judeus, cristãos e homossexuais. Com lideranças como ele dominando o noticiário internacional, fica difícil não associar Islã e violência.

Parte da má fama do islamismo seguramente se deve também à polêmica jihad – um conceito essencial da religião islâmica e frequentemente confundido com “guerra santa”. “O significado básico é empenho ou esforço, algo mais ou menos como seguir o caminho de Deus com determinação”, explica o historiador Bernard Lewis, autor do livro The Crisis of Islam: Holy War and Unholy Terror (“A Crise do Islã: Guerra Santa e Terror Profano”, inédito no Brasil).

Leia também: O islã é uma religião tolerante

O problema é que Osama bin Laden e quase todos os outros radicais islâmicos interpretam jihad da maneira que melhor lhes convém: para justificar ataques contra “infiéis”. “Esses extremistas representam uma minoria que perverte a religião”, afirma a pesquisadora britânica Karen Armstrong, autora de Em Nome de Deus, sobre o fundamentalismo entre judeus, cristãos e muçulmanos (Companhia das Letras, 2009). Para Karen, é um equívoco considerar o Islã “intrinsecamente violento”.

Por outro lado, é cada vez maior o número de autores islâmicos que contestam essa tese. Gente como a escritora de origem síria Wafa Sultan, uma das vozes mais críticas ao islamismo nos EUA. “O Islã não é só uma religião. É também uma ideologia política que prega violência e aplica sua agenda pela força.” Ayaan Hirsi Ali, autora do bestseller Infiel (Companhia das Letras, 2007), concorda. Nascida na Somália e criada entre Arábia Saudita, Etiópia e Quênia, ela escreve em seu mais recente livro (Nômade, ainda inédito no Brasil): “Crianças islâmicas em todo o mundo são ensinadas como eu fui: a desejar e perpetuar a violência contra o inimigo – o judeu e o satã americano.”


Não terás piedade
Se lidos fora do contexto, certos trechos dos livros sagrados parecem um convite ao genocídio

ALCORÃO
“Uma vez expirados os meses sagrados, matai os idólatras onde quer que os encontreis, e apanhai-os e tornai-os prisioneiros, e ficai a sua espreita; mas, se eles se convertem, se observam a oração, se concedem a esmola, então deixai-lhes livre o caminho, pois Deus é indulgente e misericordioso.”
(Sura 9:5)

TORÁ (Antigo Testamento)
“Quando o Senhor teu Deus te houver introduzido na terra, à qual vais para a possuir, e tiver lançado fora muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os perizeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu. E o Senhor teu Deus as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas.”
(Deuteronômio 7:1-2)

BÍBLIA (Novo Testamento)
“Pois eu vos digo que a qualquer que tiver ser-lhe-á dado, mas ao que não tiver, até o que tem lhe será tirado. E quanto àqueles meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui, e matai-os diante de mim.”
(Lucas 19:26-27)