E Se...

E se Lua não existisse?

Sem a lua, as mulheres se livrariam da tensão pré-menstrual e todos nós viveríamos dentro da água, como na mítica Atlântida

por Denis Russo Burgierman

Faltaria inspiração para os poetas e assunto para os namorados. Mas você não precisa se preocupar com isso, pois sem a Lua provavelmente não haveria nem poetas nem namorados. A nossa espécie nem sequer teria surgido. É que o satélite natural da Terra, enquanto dá voltas, puxa o planeta com sua gravidade e isso determinou a evolução do homem.

Se não fosse esse puxão, a rotação da Terra ficaria frouxa como a de um pião que perde velocidade. O eixo do planeta mudaria de posição a toda hora de uma maneira tão caótica que às vezes os pólos ficariam apontados para o Sol. Segundo o astrônomo Walmir Cardoso, coordenador da Sociedade Brasileira para o Ensino da Astronomia, o clima enlouqueceria. Séculos quentíssimos se alternariam com outros em que camadas de milhares de quilômetros de gelo cobririam os continentes. Nevascas, furacões, enchentes e secas seriam coisa corriqueira. "Com um tempo desses, ficaria tão difícil sobreviver que não dá para acreditar que seres inteligentes como os humanos pudessem se desenvolver", afirma Cardoso.

Ainda assim, se com todos esses obstáculos uma civilização despontasse, ela teria que ser bem diferente da nossa. A boa notícia é que as mulheres se livrariam da tensão pré-menstrual. "Provavelmente devemos o ciclo da menstruação ao luar", diz o paleontólogo Reinaldo Bertini, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). É que nossos ancestrais do sexo masculino caçavam de noite, quando os animais saem das tocas, e sobretudo na lua cheia, quando há mais luz. Na lua nova, portanto, eles ficavam em casa com as esposas. "Só as mulheres férteis nesses períodos tinham filhos", afirma Bertini. Com o tempo, o organismo feminino adaptou-se ao ciclo da Lua, de 28 dias.

Sem o astro, também os mares se tornariam bem diferentes do que são hoje. Sumiriam as grandes variações de maré, provocadas pelo puxão gravitacional da Lua.

A maioria dos animais seria aquática porque, dentro da água, a temperatura sobe e desce mais devagar. Dessa forma, o mar protegeria os bichos do clima maluco. Talvez a civilização humana se parecesse com a da mítica Atlântida.

A sorte desses seres marinhos é que haveria mais oceanos na Terra. O nosso satélite é um naco terrestre que foi arrancado quando um planeta desenfreado chamado Orpheus bateu em nós há 4 bilhões de anos. Orpheus tinha o tamanho de Marte e a Terra era bem maior. Os geólogos estudaram rochas daquele tempo e concluíram que havia mais água aqui antes da trombada interplanetária. O líquido evaporou e escapou da atmosfera com a violência da pancada. Se isso não tivesse acontecido, a Lua jamais teria existido e os oceanos dominariam a Terra.

Outro efeito da ausência do satélite é que os dias seriam mais curtos. Isso porque a gravidade lunar, além de segurar o eixo da Terra, faz com que a velocidade da rotação do nosso planeta diminua lentamente. Se não houvesse um satélite ao nosso redor, esse freamento não ocorreria e a Terra continuaria rodando muito rápido. Cada volta iria se completar em 15 horas. Essa seria a duração do dia.

A Lua é tão importante que um grupo de pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos, já está pensando numa solução para o dia em que ela for embora. É isso mesmo, tchau, Lua. O satélite, enquanto roda, está lentamente fugindo de nossa órbita: escapa entre 1 e 3 centímetros a cada ano. Daqui a alguns milênios, ela estará tão distante que a gravidade terrestre não conseguirá mais segurá-la por perto. Para evitar essa desgraça, os americanos acham que teremos que capturar um satélite de Júpiter e trazê-lo para o lugar da velha Lua.

Os poetas e os namorados terão que se acostumar com a novidade. Poderão compor odes a um astro chamado Io, ou Europa ou – essa vai ser dura – Ganimedes. Será péssimo para a métrica das poesias. Mas é melhor do que morar sobre um pião enlouquecido.

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setembro/2014

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