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Claude AI pode ter sido usado para desenvolvimento de armas biológicas e sistemas de mísseis

Novo relatório da Anthropic denuncia casos de “mal uso” da ferramenta, incluindo ciberataques russos na Ucrânia. Entenda

Por Diego Facundini 11 set 2026, 19h47
Claude AI pode ter sido usado para desenvolvimento de armas biológicas e sistemas de mísseis Priorizar nos meus resultados Google

A Anthropic, empresa americana responsável pelo Claude AI, afirma que identificou e impediu uma série de usos indevidos de sua ferramenta de inteligência artificial em possíveis atividades maliciosas, que incluem desde ciberataques até o desenvolvimento de armas biológicas.

Em relatório divulgado na quinta-feira (10), a empresa reuniu episódios dos últimos oito meses envolvendo abusos de seu modelo de IA. Com destaque, o Claude teria sido usado para o desenvolvimento de armamentos convencionais, como armas de fogo, mísseis, drones e bombas, no que seria, segundo o documento, uma categoria inédita de uso malicioso da ferramenta.

A lista de agentes maliciosos supostamente inclui instituições estatais de propaganda, grupos patrocinados por Estados, criminosos com motivações financeiras, fornecedores de spyware e indivíduos politicamente motivados. Ainda de acordo com o documento, grande parte dos abusos teria partido de regiões banidas pela plataforma, como China, Rússia, Coréia do Norte e Irã.

“Os casos que apresentamos aqui não são usos indevidos típicos, mas sim exemplos das atividades maliciosas mais notáveis e inovadoras que identificamos até o momento. Estamos publicando este trabalho porque acreditamos ter a responsabilidade de divulgar o uso malicioso de nossos serviços. À medida que os modelos se tornam cada vez mais capazes, seus riscos aumentarão, a menos que os desenvolvedores de IA e os defensores da sociedade ajam para torná-los mais seguros”, escreve a empresa.

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Mísseis e armas biológicas

Uma das intervenções citadas ocorreu no norte do Iêmen. A Anthropic afirma que o Claude foi usado “no lugar de engenheiros de software humanos” para desenvolver sistemas que guiam mísseis e de controle de vôo. Para isso, o desenvolvimento foi separado em três etapas, com instâncias (conversas) separadas do Claude a cargo de cada uma delas.

Essa separação de tarefas é uma das estratégias usadas para burlar as restrições instaladas na ferramenta. Nesse caso, algumas das instruções acabaram sendo bloqueadas, mas outras passaram e foram obedecidas pela IA.

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Se alguém chegar numa IA e pedir “me ajude com um ataque cibernético”, as barreiras de segurança do algoritmo vão acender um alerta. Agora, se em cada conversa com o Claude (sem conexões com as demais), os agentes maliciosos podem ser capazes de pedir fragmentos do que eles desejam (“analise a lista X, crie um código para Y”). E aí, juntar as peças depois, sem que a IA entenda o contexto geral da coisa.

O relatório não é explícito quanto aos envolvidos nesse caso, mas, pelo contexto, é possível supor que o episódio teria partido dos Houthis, a milícia patrocinada pelo Irã que domina a região. Segundo a empresa, não há evidências de que o grupo foi capaz de criar um armamento que realmente funcionasse, mas, ao que tudo indica, ao menos um teste mal sucedido aconteceu.

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Além disso, o relatório detalha outras três ocorrências relacionadas ao desenvolvimento de softwares para armamentos convencionais acontecendo na China, e mais duas na Rússia.

A Anthropic também suspeita que seu modelo tenha sido utilizado para auxiliar o desenvolvimento de armas biológicas. Um dos exemplos descritos aconteceu em maio, quando um usuário pediu para que a IA escrevesse um pedido de financiamento para uma pesquisa sobre o vírus do Chikungunya – uma das doenças transmitidas pela picada do mosquito Aedes Aegypti. 

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O experimento consistiria na criação de uma versão geneticamente modificada do vírus que se tornasse progressivamente mais transmissível na medida em que infectasse, repetidas vezes, animais vivos. Como o Chikungunya é uma doença que circula naturalmente, a versão modificada do vírus usada como arma biológica seria dificilmente distinguível de um surto comum.

Ainda assim, a Anthropic afirma que não pode determinar se esse era, de fato, o objetivo daquele usuário. Afinal, modificações genéticas do gênero são comuns em pesquisas visando, por exemplo, o desenvolvimento de vacinas. A empresa afirma que foi capaz de identificar, porém, que a pesquisa pertencia a um instituto de pesquisa militar, o que intensificou a preocupação. O usuário foi banido. 

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Ciberataques e espionagem

De acordo com o relatório, o Claude também teria sido usado por hackers para orquestrar e executar ciberataques. Um dos grupos de hackers citados teria conduzido uma série de ataques digitais contra o governo, o exército e setores diplomáticos da Ucrânia. Os ataques consistiam na invasão de redes de wi-fi em hotéis, operações de roubo de contas no Whatsapp e phishing – um tipo de golpe digital em que criminosos se passam por instituições confiáveis para conseguir informações sensíveis.

O principal suspeito no caso é o Midnight Blizzard, um grupo de espionagem russo.

Do lado da espionagem industrial, a Anthropic atribuiu uma série de ataques a sete empresas de tecnologia da China – incluindo Xiaomi, Deepseek, Moonshot e Alibaba.

A principal acusação tem a ver com supostas tentativas ilícitas de “destilação”, uma prática na qual um modelo de linguagem maior é usado para treinar um modelo menor. No caso da Alibaba, gigante do e-commerce chinês, a Anthropic afirma ter flagrado 151 milhões de interações entre seu modelo e a empresa entre maio e julho desse ano, feitas através de mais de milhares de contas descritas como fraudulentas, com o objetivo de treinar os modelos da IA Qwen.

Quanto ao Deepseek e o chatbot Kimi, da Moonshot, o relatório alega que essas ferramentas teriam, em segredo, redirecionado as conversas de seus usuários para o Claude, incluindo informações potencialmente sensíveis. (Ou seja, fizeram um gato).

Na política norte-americana, as novas revelações podem representar um aumento de tensão entre a Anthropic e o governo dos EUA. Ainda nesse ano, o Departamento de Defesa do país classificou a empresa (que é de lá) como um “risco para a cadeia de suprimentos”.

Acontece que a Anthropic se recusou a remover as restrições de uso de suas tecnologias para armamentos automatizados e vigilância em massa. O caso resultou em uma disputa legal com o governo do país. 

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