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O herói nacional gay que pode virar símbolo de união na Irlanda

Em 1899, um britânico de origem polonesa publicou um romance baseado nas suas experiências na África. O livro virou clássico e escancarou aos olhos europeus um empreendimento brutal e desumano que não podia mais ser ignorado. Com O Coração das Trevas, Joseph Conrad mobilizou os artistas e personalidades da virada do século 20 para o que estava acontecendo no Estado Livre do Congo, a gigantesca empresa de exploração de borracha e outras matérias-primas que o rei belga, Leopoldo II, comandava no território do que seria um dos maiores países do mundo.

Isso mesmo, o Estado Livre do Congo, quase duas vezes maior que o Pará e 77 vezes o tamanho da Bélgica, rico em minérios e com o segundo maior rio do continente, não era uma colônia, mas uma possessão do monarca. Com tanto poder, sem precisar dar satisfação ao Parlamento, a diplomatas ou a outros países europeus, Leopoldo II foi o grande responsável por uma das maiores atrocidades de todos os tempos. Os maus tratos, trabalho forçado, torturas e doenças espalhadas em prol da borracha deixaram um rastro de 10 milhões de mortos.

Conrad conseguiu mobilizar a opinião pública, mas ele não fez isso sozinho. Talvez tão importante quanto sua divulgação foi o trabalho de Sir Roger Casement. Amigo de Conrad, ele trabalhara no Estado Livre, onde presenciou diversas cenas horrendas. Capatazes que precisassem punir seringueiros não deveriam desperdiçar bala, então para cada uma gasta eles tinham que apresentar aos patrões uma mão decepada – ou seja, não só o sujeito podia levar um tiro, como tinha a mão cortada, já que a munição valia mais que ele.

(National Library of Ireland on The Commons/Reprodução)

 

Em suas missões como diplomata britânico, Casement também esteve na fronteira do Peru com o Brasil, onde viu índios escravizados – de novo por causa da indústria da borracha. Os horrores testemunhados impulsionaram sua carreira humanitária, mas também seu nacionalismo. Com as denúncias sobre o Estado Livre correndo o mundo, o Parlamento da Bélgica comprou a megafazenda do rei, em 1908, e o transformou em colônia (o Congo Belga). Os abusos continuariam, mas em uma escala bem menor (soa estranho, mas virar colônia até que foi uma boa, dadas as condições, já que agora ela não estava à mercê dos caprichos de uma única pessoa, no caso, um rei).

Casement estava agora envolvido em outra causa, a independência de sua Irlanda natal. Para ele, congoleses e irlandeses tinham algo em comum, os abusos sofridos por uma força estrangeira. Quando a Primeira Guerra estourou, em 1914, o momento pareceu propício, já que Londres se enfiou nas trincheiras contra alemães, austro-húngaros e turco-otomanos. Homens e mulheres irlandeses se juntaram para lutar pelo fim de 115 anos de domínio inglês. Mas o Levante da Páscoa, como foi conhecido, fracassou e foi violentamente reprimido.

Entre os condenados, estava Casement. Em 1914, ele havia cruzado as linhas inimigas para recrutar prisioneiros de guerra irlandeses e conseguir armas com os alemães, que viam vantagem no estouro de uma revolução no quintal dos britânicos. Dois anos depois, e apenas uma semana antes do início do Levante, ele foi preso ao desembarcar na Irlanda em um submarino cheio de armas e munições alemãs. Foi enviado a Londres para ser julgado por traição.

Até o momento, Casement era um cidadão exemplar do império. O homem que foi agraciado cavaleiro pelo rei Jorge V pelas suas campanhas humanitárias em defesa de povos indígenas na África e na América do Sul. O homem que encomendou missa pela morte da rainha Vitória em pleno Estado Livre do Congo. Sir Roger Casement era um traidor da coroa.

Ele ainda poderia ser salvo, então faltava algo para acabar de vez com sua reputação. Fácil, bastava escancarar o fato de que Casement era gay. Enquanto ele estava na prisão aguardando julgamento, oficiais britânicos tornaram públicas diversas páginas dos diários que Casement manteve no exterior. Entre anotações mundanas do dia a dia diplomático, havia pormenores bastante íntimos. Trechos com relatos de sua vida sexual – assunto tão ligado à independência da Irlanda quanto o bigode de Ruy Barbosa ou os bichos de estimação de Theodore Roosevelt – foram usados para detratá-lo, humilhá-lo. Um exemplo de anotação, de 28 de fevereiro de 1910, no Rio: “Rua do Hospício [atual Buenos Aires], só $3 quarto bom. Janela fechada. Encantador, jovem – 18 e glorioso. O maior desde Lisboa julho 1904…Perfeitamente gigante.” 

Agora pense. Se em pleno 2017 ainda se fala em “cura gay”, quais as chances esse homem teria na Londres de 1916 de ser absolvido? Homossexualidade foi crime no Reino Unido até 1967, na primeira reforma legislativa do assunto desde que sexo anal virou crime no reinado de Henrique VIII, em 1533. Sim, Henrique VIII, aquele mesmo, que teve seis esposas cujos destinos viraram rima macabra de crianças inglesas: “divorced, beheaded, died. Divorced, beheaded, survived” 

Quer dizer, quando os Rolling Stones lançaram (I Can’t Get No) Satisfaction, ser gay era crime no país. Então, Casement, coitado, não tinha muita chance. Foi enforcado e enterrado em uma prisão em Londres, quando desejava ser sepultado em Antrim, um dos seis condados que formariam, em 1921, a Irlanda do Norte. Ele queria que sua última morada fosse perto da casa dos parentes que o acolheram na juventude, após a morte de seus pais.

Túmulo de Casement no cemitério Glasnevin, em Dublin. (Divulgação/Reprodução)

Com o passar dos anos, a legitimidade dos diários foi contestada. Biógrafos se dividiram. Casement de fato era o autor daquelas linhas? Ou era tudo forjado, uma manobra das autoridades britânicas para minar de vez a imagem dele e levá-lo à forca? Em 2002, estudos forenses comprovaram que os diários eram realmente dele. 

Após a independência da católica Irlanda, em 1922, em que o norte da ilha, protestante, se separou e permaneceu no Reino Unido, Casement virou símbolo nacional. Em 1965, um funeral com honras de estado transferiu seus restos para Dublin, em um gesto político para sacramentar a aproximação econômica entre ingleses e irlandeses, ambos vetados de entrarem na Comunidade Econômica Europeia, antecessora da União Europeia.

O historiador Kevin Grant lembra que ao longo dos últimos 100 anos Casement foi símbolo de diversas causas e antagonismos. Atualmente, ele ganhou ainda mais relevância. Em 2015, a Irlanda se tornou o primeiro país do mundo a legalizar, por meio do voto popular, o casamento gay. E, em 2016, o Reino Unido decidiu sair da UE, embora a maioria da Irlanda do Norte tenha votado para continuar no bloco. Com isso, reunificar a Irlanda (do Sul), da qual Casement é símbolo da independência, com a Do Norte, que ele adotou como terra querida a ponto de desejar ser sepultado lá, virou uma realidade menos distante.

“Ao representar Casement como um homem de contradições, os biógrafos o avaliaram nos termos dos conflitos na sociedade irlandesa que persistiram muito depois de sua morte: a divisão sectária entre protestantes e católicos, os problemas entre a Irlanda e a Grã-Bretanha e a discriminação contra homossexuais imposta pela religião e pela lei. À medida que esses conflitos se dissipam, Casement será reformulado sob uma nova luz”, escreveu.

Desprovido de títulos e posses, humilhado e enforcado aos 51 anos. De nada adiantou prendê-lo e executá-lo. E nem adiantaria tentar “curá-lo”. Após um século de antagonismos, esse homem, herói nacional irlandês e herói humanitário de dois continentes, pode, enfim, se tornar um símbolo de união.

***
Em 2010, ano em que ganhou o Nobel de Literatura, o peruano Mario Vargas Llosa lançou O Sonho do Celta, romance baseado na trágica e heroica vida de Casement. O livro é ótimo, especialmente se você não se incomodar de ficar algumas semanas com um buraco no peito após a leitura.

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