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A bactéria que existe em você

Se você consegue respirar oxigênio, agradeça a uma velha bactéria que, um belo dia, resolveu virar parte das suas células e ajudou a criar a vida complexa

Texto Giovana Girardi

As bactérias são uma das mais primitivas formas de vida. Esses organismos unicelulares, que surgiram há cerca de 3,8 bilhões de anos, são procariontes, ou seja, não têm núcleo celular definido. Apareceram quando o planeta ain­da era quase uma criança (ele tem 4,5 bilhões de anos) e permaneceram os únicos seres vivos por 2 bilhões de anos.

Apesar de tanta simplicidade, porém, elas contribuíram para que um grupo mais sofisticado de seres vivos, os eucariontes, desse um salto de complexidade e modificasse a história da vida na Terra, gerando, com o passar do tempo, os fungos, as plantas, os animais e, por fim, nós.

Fusão repentina

Ao que parece, essa mudança aconteceu meio de repente. Estavam duas bactérias cuidando de sua vidinha quando, por descuido ou não, uma invadiu a outra – ou foi capturada, vai saber –, dando origem a uma célula completamente diferente do que existia até então, com núcleo definido e outros corpúsculos. Na verdade, esse processo, chamado de endossimbiose (ou simbiogênese) deve ter ocorrido ao mesmo tempo com outras bactérias também.

O tal salto de complexidade ocorreu, segundo a teoria proposta pela bióloga americana Lynn Margulis, porque a bactéria “engolida” virou uma mitocôndria, a organela responsável pela produção de energia nas células, com a ajuda do oxigênio. É ela que possibilita que os eucariontes respirem. Sem as mitocôndrias, a Terra ainda seria um planeta de micróbios. Outra fusão produziu os cloroplastos, que permitem que as plantas capturem a energia do Sol. O organismo invasor nesse caso foi uma cianobactéria – micróbios azuis-esverdeados que aprenderam a incorporar o hidrogênio presente nas moléculas de água e liberar o oxigênio para a atmosfera, inventando assim a chamada fotossíntese.

A teoria de Margulis, proposta em 1981, não foi muito bem aceita no começo, porque se imaginava que os eucariontes teriam surgido ao longo da evolução por mutações genéticas. A bióloga, aliás, está acostumada a controvérsias – ela é uma das autoras da Teoria de Gaia (leia na pág. 26).

No entanto, ela foi a primeira a conseguir explicar algumas características bizarras da mitocôndria e dos cloroplastos e hoje é largamente aceita pela comunidade científica. Ocorre que essas organelas são, de certo modo, independentes do resto da célula, com capacidade própria de se replicar e um DNA diferente do que encontramos no núcleo da célula eucarionte.

Sim, na prática temos DNA de bactéria inserido no nosso. Sem esses invasores primordiais, nem sequer existiríamos.

“A vida não tomou conta do planeta competindo, mas formando alianças.”

Lynn Margulis