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A franco-atiradora

Ricardo Arnt

Os torpedos mortais de uma mosca do Brasil estão sendo testados nos Estados Unidos contra a invasão de outra brasileira: a formiga lava-pé. Emigrada nos anos 30, ela virou praga no sul dos EUA. Foi dada a partida para o grande duelo.

Não se sabe exatamente quando nem onde a encrenca começou. A maioria dos indícios são de que, por volta de 1930, um navio americano que estivera no Brasil atracou no Texas e minúsculas formiguinhas sul-americanas, transportadas por acaso no porão, ganharam o porto. Foi assim que a Solenoposis invicta, a popular lava-pé, aquela formiga vermelhinha que já mordeu quase todo moleque brasileiro, entrou nos Estados Unidos. Transplantada para um ambiente diferente, sem predadores naturais, ela se reproduziu cinco vezes mais, expulsou as espécies nativas e tornou-se um flagelo em onze Estados do sudeste americano, infestando 1,1 milhão de quilômetros quadrados.

Apesar de diminuta, a lava-pé é onívora, ou seja, come tudo: plantações, outros insetos, pequenos animais, madeira, pneus e até fios elétricos enterrados. Ataca a agricultura, estradas, edifícios e áreas de recreação. Sua mordida fere trabalhadores manuais e pode ser mortal para alérgicos. “A lava-pé”, diz o entomologista (zoólogo especializado em insetos) Daniel Wojcik, do Serviço de Pesquisa Agrícola dos Estados Unidos, “é o inimigo público número 1 dos agricultores e jardineiros da Flórida.” Só na Internet, hoje, há 200 endereços oferecendo técnicas para combatê-la.

Aflitos, cientistas americanos procuram desde os anos 70 uma arma eficaz para a peste. Em 1995, outro entomologista do Serviço de Pesquisa Agrícola dos Estados Unidos, Sanford Porter, juntou-se a Marcos Pesquero, Sofia Campiolo e Harold Fowler, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São Paulo, e identificou nas moscas da família Phoridae as mais eficazes inimigas da lava-pé. Os forídeos depositam seus ovos dentro do corpo da formiga, usando-o como casulo para desenvolver os próprios filhotes. A larva cresce dentro da hospedeira e vai comendo o seu tórax e a sua cabeça até matá-la. Mais ou menos como os monstros do filme Alien, o Oitavo Passageiro, do cineasta britânico Ridley Scott. Por isso mesmo, a lava-pé entra em pânico toda vez que vê a mosquinha.

Em 1996, Porter veio ao Brasil estudar os insetos inimigos no seu ambiente natural. Decidiu, então, escolher como força aérea de ataque para atuar nos EUA a espécie Pseudacteon tricuspis, uma valente representante da família Phoridae, de 2 milímetros de comprimento, que acossa lava-pés de qualquer tamanho. “Nos testes de laboratório”, contou à SUPER, “elas se mostraram as mais capazes de reduzir a população de formigas.” Só restou uma dúvida: “Não sabemos quão eficazes elas serão soltas, em condições naturais.” A sorte está lançada.

Uma mosquinha brasileira de 2 milímetros de comprimento é a arma mortífera importada pelos americanos para acabar com a peste das lava-pés

Sem predadores naturais, a formiguinha lava-pé, com 3 milímetros de comprimento, virou praga no sudeste dos EUA

Estratégia ecológica para matar pragas

Em julho passado, Sanford Porter soltou centenas de Pseudacteon tricuspis no Jardim Botânico de Kanapaha, em Gainesville, Flórida. Só daqui a seis meses, quando houver passado um ano, o resultado poderá ser avaliado. Segundo Porter, as moscas são úteis não apenas porque matam as formigas, mas porque as apavoram. Quando a lava-pé pressente uma mosca da família Phoridae, reage como se tivesse ouvido um alarme antiaéreo: esconde-se imediatamente ou, se não pode, imobiliza-se para não chamar a atenção ou toma posição defensiva, abrindo as afiadas mandíbulas ameaçadoramente.

Assim, a presença da Phoridae afeta toda a existência e a reprodução das formigas. “As lava-pés”, explica Porter, “param de pilhar e estocar forragem.” Dessa forma, outras espécies de formigas podem comer o que elas coletam. “Se detivermos a voracidade delas, favorecendo as formigas nativas, poderemos recuperar o equilíbrio ecológico. As espécies norte-americanas se reproduzem muito menos e não mordem.”

O risco da pequena Pseudacteon tricuspis virar uma nova praga está descartado. “Nossos estudos demonstram que ela ataca só esse tipo de formiga, sendo inofensiva ao ambiente.” A farra da lava-pé nos Estados Unidos pode estar prestes a acabar.

Sanford Porter, do Serviço de Pequisa Agrícola dos Estados Unidos, soltou a mosca brasileira na Flórida

Torpedo de efeito retardado

Veja como a mosca acaba com a formiga.

“É como o filme Alien em versão miniatura”, diz o entomologista Sanford Porter, do Serviço de Pesquisa Agrícola dos Estados Unidos. Várias espécies de moscas parasitárias injetam ovos em outro insetos, tomando seus corpos como casulo para criar larvas. Mas raras decapitam o hospedeiro.

1. O mergulho

A mosca fêmea mergulha para o alvo. Como um helicóptero, paira sobre a vítima, preparando o bote. A lava-pé tenta fugir.

2. O bote

O golpe é rápido. A Pseudacteon tricuspis enfia um ferrão e injeta um ovo no tórax ou no pescoço da formiga.

3. A larva

Em três dias, nasce uma larva. Durante três semanas, ela cresce dentro do corpo da lava-pé, sempre avançando em direção à cabeça.

4. O casulo

Enzimas dissolvem os tecidos do pescoço e provocam a queda da cabeça. Decapitada (no detalhe), vira um casulo onde a larva cresce, mais três semanas, até virar uma mosquinha.