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A quantidade de horas que você precisa dormir pode estar nos seus genes

E pode ser graças a uma mutação ligada ao cérebro que aquele seu amigo pilhado precisa de menos de 6 horas de sono.

Por Ingrid Luisa - Atualizado em 29 ago 2019, 20h11 - Publicado em 29 ago 2019, 20h09

Para ter uma passagem saudável pela Terra, a maioria das pessoas precisa ficar um terço da vida dormindo.

Das 24 horas de um dia, o ideal é que 8 delas sejam passadas na cama. É claro que muita gente não cumpre a recomendação – e a tendência vista por médicos e cientistas é que estamos dormindo cada vez menos. Para a maioria das pessoas, isso não poderia ser pior. Uma pessoa normal não fica nada bem dormindo repetidamente por menos de 7 horas. Ela fica mais burra, literalmente – o prejuízo cognitivo é equivalente à de uma noite de bebedeira.

Noites mal dormidas levam a alterações de humor, prejuízos à memória e aprendizado, redução da atenção, enfraquecimento do sistema imune e até riscos aumentados de desenvolver doenças psiquiátricas.

Apesar das 8 horas serem o consenso médico… Isso oficialmente não vale para todo mundo. Muito provavelmente você tem aquele amigo que dorme 4 horas por dia e sempre está uma pilha, enquanto você, que tenta dormir ao menos 6, está sempre cansado.

Neurologistas da Universidade da Califórnia, em São Francisco (UCSF), podem ter finalmente descoberto o motivo: genes impactam diretamente no quanto alguém precisa dormir.

Na verdade, essa associação não é nova, começou em 2009. Naquele ano, a mesma equipe de pesquisadores descobriu que pessoas que haviam herdado uma mutação específica em um gene chamado DEC2 precisavam, em média, de apenas 6,25 horas de sono por noite para estarem plenamente bem no outro dia. Enquanto isso, pessoas normais, sem essa mutação, precisavam em média de 8,06 horas.

A descoberta de 2009 foi curiosa, mas até aí os próprios autores acreditavam que a mutação não passava de casualidade. Até agora, quando descobriram um novo gene relacionado ao sono.

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Esse segundo achado e reforça a ideia de que as variações genéticas estão diretamente ligadas às quantidade de horas de sono que o organismo precisa – e que são elas que podem explicar porque as pessoas relatam ter necessidades radicalmente diferente umas das outras quando o assunto é sono.

No novo estudo, divulgado no periódico Neuron, a equipe investigou uma família de sono naturalmente curto – todos os parentes dizem ficar muito bem com 6 horas de sono. O interessante é que nenhum deles apresentava a primeira mutação, no gene DEC2.

Foi aí que eles tentaram procurar outra explicação – e encontraram uma coisa que todos os membros da família tinham em comum no DNA: uma mutação em um gene chamado ADRB1, que é responsável pelos níveis de atividade dos neurônios que ficam no tronco encefálico – mais especificalmente na região dorsal dos núcleos da rafe, área conhecida por controlar os estágios do sono.

Para testar se essa mutação tinha o mesmo efeito fora da família acordadinha, os cientistas desenvolveram um série de testes em camundongos geneticamente modificados com a variante mutada do ADRB1. Não deu outra: eles dormiram em média 55 minutos a menos do que os camundongos comuns – o que sugere que, sim, esse gene está relacionado à falta de sono. A atividade dos neurônios da região era aumentada nos ratos com genes mutantes, o que pode estar mediando o comportamento do sono curto.

Apesar das descobertas, os autores reconhecem as limitações do uso de ratos para estudar o sono humano: uma delas é que os camundongos exibem padrões de sono radicalmente diferentes dos humanos. A parte mais complicada é que, em vez de dormirem por um longo período da noite, como nós fazemos, eles dormem parcelado – dividem o sono em porções ao longo do dia, comportamento conhecido na ciência como “padrão fragmentado”. Esse é um bom momento para lembrar de não testar o padrão do rato em casa. Dormir parcelado faz bem mal à saúde humana.

Outra complicação do estudo é a complexidade que seres humanos naturalmente acabam atrelando a qualquer coisa. Nós, afinal, não dormimos só porque precisamos. Dormimos porque gostamos, ou porque não estamos nos sentido bem emocionalmente. Moldamos nosso sono a uma série de necessidades que não são biológicas, e intencionalmente vamos manipulando o organismo. Ficar acordado até tarde é hobby de toda criança. Beber café demais é um hobby de quase todo adulto.

Daí o fato de que é extremamente difícil separar o que é “biologicamente natural” daquilo que simplesmente é um hábito reforçado por anos. Com isso, dá para afirmar com quase certeza que nem todo mundo que diz ficar bem com menos horas de sono vai ter uma mutação responsável pelos seus hábitos.

De qualquer forma, os autores da pesquisa acreditam que seu trabalho pode eventualmente ter aplicações para o desenvolvimento de novos medicamentos para controle do sono e da vigília. Vamos esperar acordados para ver.

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