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A real sobre a extinção das abelhas

O debate sobre o desaparecimento delas reacende de tempos em tempos. Entenda de uma vez a raiz do problema, quais são as espécies realmente ameaçadas e a importância desses insetos – responsáveis por uma parte significativa dos alimentos que a gente consome.

Por Rafael Battaglia
Atualizado em 25 nov 2022, 17h07 - Publicado em 18 nov 2022, 11h15

Texto: Rafael Battaglia | Edição: Alexandre Carvalho | Design e colagens: Natalia Sayuri Lara

Já é o segundo ano que ativam com sucesso os insetos-drone autônomos (IDAs), no Reino Unido. São milhões de abelhas-robô que, na ausência das abelhas reais, fazem o trabalho de polinizar as flores pelo país.

Essas abelhas foram desenvolvidas por uma empresa, a Granular, em parceria com o governo britânico. Funcionam com energia solar, não precisam de néctar e constroem as próprias casas. Conseguem, inclusive, se reproduzir sozinhas, graças às impressoras 3D de cada colmeia.

É um projeto fictício, claro. Os IDAs fazem parte da trama de “Odiados pela Nação”, episódio da terceira temporada de Black Mirror. Você talvez se lembre: na história, as abelhas são hackeadas e viram arma de uma sádica campanha de linchamento virtual, em que as pessoas elegem pelas redes sociais o “cancelado do dia”. O prêmio? Um ataque mortal dos insetos-drone.

Como toda distopia, a história usa como pano de fundo um problema real – no caso, a extinção das abelhas. É uma preocupação que volta e meia reaparece: não faltam campanhas de conscientização de cientistas, ONGs e órgãos internacionais que alertam o quanto os ecossistemas e a nossa alimentação ficariam prejudicados na ausência delas.

Não só pela falta de mel: 75% das culturas agrícolas dependem, em algum grau, de animais polinizadores – e as abelhas estão entre as mais eficientes nessa tarefa. Segundo a FAO, braço da ONU para questões de alimentação e agricultura, das cem principais espécies vegetais usadas como base para 90% da comida do planeta, as abelhas polinizam 71 delas.

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De 1961 a 2014, o número de colmeias manejadas (isto é, mantidas por apicultores) saltou de 50 milhões para 83 milhões em todo o mundo. Considerando que cada colônia pode abrigar de 20 mil até 80 mil indivíduos, estamos falando de uma população de até 6,6 trilhões de abelhas. Dizer que as abelhas estão sumindo não seria exagero, então?

Não – e nas próximas páginas, você verá por quê. O primeiro passo é entender quais são as espécies realmente ameaçadas.

Bee Movie

Pense em uma abelha. Que imagem vem à sua mente? Provavelmente, um animal com listras pretas e amarelas, que produz mel e, no caso das fêmeas, tem ferrão. Organizam-se em colmeias e se dividem entre rainha, zangões e operárias.

Essa é uma boa descrição das abelhas do gênero Apis (nome que vem do latim e significa, veja só, “abelha”). Existem oito espécies (e outras 43 subespécies) desse gênero, mas a maior representante é, sem dúvida, a Apis mellifera.

A mellifera é originária da Europa e do norte da África. Dócil e excelente produtora de mel, foi domesticada ainda no Egito Antigo, há 4,6 mil anos. Hoje, está presente em todos os continentes (menos a Antártida) e é a espécie mais usada nos mercados de mel, cera e na polinização agrícola – os milhões de colmeias que mencionamos antes são, justamente, dessas abelhas, também chamadas de melíferas.

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No Brasil, as melíferas chegaram em 1839, graças aos portugueses, e têm uma história curiosa. Até os anos 1950, a produção de mel era baixa. É que as abelhas europeias não se adaptaram bem ao clima tropical – muitas delas, aliás, morreram por infecções de ácaros e fungos.

Em 1956, o Ministério da Agricultura bancou um projeto para trazer exemplares de uma subespécie africana, a Apis mellifera scutellata. Elas são abelhas agressivas, porém mais resistentes que as europeias. A ideia era cruzar os animais para criar um híbrido, que se adaptasse bem às condições daqui e produzisse bastante mel.

Só teve um problema: as abelhas africanas de 26 colmeias escaparam – e se espalharam pelo país (e pelo restante da América também; as scutellatas são capazes de viajar grandes distâncias). A partir daí, passaram a cruzar livremente com as abelhas que já existiam aqui, num processo que ficou conhecido como “africanização”.

Pelo comportamento agressivo, as abelhas africanizadas ganharam a infame alcunha de “assassinas”. Hoje, são a maioria por aqui. Os apicultores levaram anos para entender como manejá-las corretamente, mas deu certo: atualmente, o Brasil é o décimo maior exportador de mel.

Mortes misteriosas

A conversa sobre a extinção das abelhas começou a tomar forma nos anos 1990, mas só se intensificou mesmo, com grande repercussão na imprensa, a partir de 2006. Naquele ano, apicultores dos EUA começaram a relatar perdas incomuns de 30% a 90% de suas colônias de abelhas melíferas: as operárias simplesmente começaram a morrer. Responsáveis por buscar água e alimento, além de cuidar do ninho e das crias, elas são vitais para a colônia – na sua ausência, a colmeia entra em colapso.

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Não à toa, o fenômeno recebeu o nome de Distúrbio do Colapso das Colônias (que, inclusive, é mencionado lá no episódio de Black Mirror). Não faltaram hipóteses para o problema: um novo vírus, uso indevido de pesticidas, má nutrição. Em seis anos, o distúrbio afetou 10 milhões de colônias – e causou um prejuízo de US$ 2 bilhões. A situação se complicou a ponto de uma única cultura agrícola, a de amêndoas na Califórnia, precisar de 60% das abelhas restantes de todo os EUA para que a polinização desse certo. Era um problema de escala global, já que é de lá que saem 80% das amêndoas consumidas no mundo.

Mas, afinal: qual foi a causa do problema? Até hoje, não se sabe exatamente. Um artigo (1) analisou 61 explicações possíveis, e concluiu que nenhuma era consistente o bastante para ser apontada como a única culpada. O mais provável é que as mortes tenham acontecido não por uma, mas por várias razões: doenças, pesticidas, perda de habitat, pouca diversidade de plantas (algo comum em áreas de monocultura e que afeta a dieta das abelhas; falaremos mais sobre isso adiante).

Com o tempo, o número de mortes diminuiu – mas não parou. Entre 2020 e 2021, os EUA perderam 45% de suas abelhas por conta de um ácaro parasita. Mas isso não é exatamente um problema: as colônias se recompõem rapidamente. E, apesar da situação americana, o número de colmeias cresce a cada ano no mundo: hoje, já são mais de 90 milhões.

Ou seja: as abelhas melíferas não estão ameaçadas de extinção. Mas não podemos dizer o mesmo das outras.

Enxame de espécies

As Apis representam apenas uma pequena fração do número de espécies de abelhas: são mais de 20 mil em todo o mundo (o Brasil abriga 1,9 mil delas). “Pensar nas melíferas como o único tipo de abelha é o mesmo que pensar apenas em galinhas quando falamos de aves”, comparou Isabelle Dajoz, pesquisadora de polinização da Universidade de Paris, em uma entrevista para o canal Deutsche Welle.

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Essas abelhas, conhecidas como selvagens (ou silvestres), são bem diferentes das que estamos acostumados. Grande parte delas não produz mel nem se organiza em colmeias. Pelo contrário: adotam um estilo de vida solitário, em que se juntam apenas para acasalar. A fêmea põe os seus ovos em um lugar seguro, junta comida suficiente para as larvas – e mete o pé.

E se as abelhas melíferas costumam polinizar diversas espécies, 120 milhões de anos de evolução tornaram as abelhas selvagens altamente especializadas em certos tipos de plantas.

Para polinizar um hectare de macieiras, por exemplo, são necessárias dezenas de milhares de abelhas melíferas. Mas algumas centenas da espécie Osmia cornuta já dão conta do recado. A abelha europeia do pomar, como é chamada, é ótima quando o assunto é maçã – e ainda visita outras 13 famílias de plantas.

Já as abelhas-abóbora são vitais, bem… para as abóboras. É que as flores dessa planta só se abrem bem cedinho, quando liberam doses cavalares de néctar (o que atrai os insetos). São das poucas que acordam cedo o suficiente para polinizar essas flores (as melíferas costumam ser mais ativas à tarde).

Há também flores que só liberam pólen a partir de vibração. Flores do tomate, da batata e da berinjela, por exemplo, funcionam assim. Nesse caso, entram em cena as mamangavas (em inglês, bumblebees – igual ao robô amarelo de Transformers). Elas passam parte do ano sozinhas e parte em colônias – e, ao contrário das Apis, conseguem emitir um zumbido alto o bastante para fazer com que suas flores-alvo vibrem.

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Colagem com 4 abelhas selvagens e as plantas que elas polinizam.
(Colagem: Natalia Sayuri Lara/Imagens: Getty Images, Unsplash e fototeca Cristiano Menezes./Superinteressante)

Apocalipse zumbido?

Não existem dados suficientes para estimar quantas abelhas selvagens existem no mundo nem quantas exatamente estão morrendo. Mas há indícios, sim, de que elas estão sumindo.

Um estudo (2) analisou os registros de abelhas do Sistema Global de Informação sobre Biodiversidade (GBIF, na sigla em inglês), em que instituições do mundo todo disponibilizam dados de plantas, animais, fungos e micróbios. Os pesquisadores notaram que, desde o início do século 20, o número anual de abelhas registradas só cresceu (veja o gráfico abaixo). Faz sentido: com mais cientistas dedicados ao tema e novas técnicas de observação, essa era a tendência esperada.

Mas, considerando apenas o número de espécies, o jogo muda. De 2006 a 2015, 25% menos espécies foram registradas em comparação com antes de 1990. “Na melhor das hipóteses, isso pode indicar que milhares de espécies de abelhas se tornaram muito raras”, escrevem os autores do estudo. “No pior cenário, elas já podem ter sido extintas local ou globalmente.”

Dois gráficos de linha mostrando o número de abelhas por ano e o número de espécies por ano.

Quais as causas desse desaparecimento das abelhas selvagens? A crise climática é uma delas. Se uma região esquenta demais e se torna inabitável para uma espécie, as abelhas vão atrás de outro lugar para morar. E aí podem se deparar com novos predadores, doenças contra as quais não têm anticorpos e falta de alimento.

Esse desarranjo ecológico pode, inclusive, fazer com que as abelhas selvagens disputem espaço e comida com as melíferas. E, nessa luta, as duas perdem: uma pesquisa (3) feita na França apontou que, em áreas com grandes colônias de melíferas, a taxa de sucesso das selvagens em encontrar néctar diminui 50%; a das melíferas, 40%.

Mas o principal problema está na forma como usamos a terra – e como a agricultura se desenvolveu nas últimas décadas.

As abelhas e o agro

A partir dos anos 1960, o agro passou por uma série de transformações, o que diminuiu o tempo das colheitas e aumentou a produtividade. Foi a chamada Revolução Verde, em que tratores e outras grandes máquinas agrícolas se popularizaram. Foi também quando o uso de produtos químicos se disseminou: fertilizantes, que dão um boost de nutrientes no solo, e os pesticidas – venenos que matam pragas.

A união de tudo isso permitiu áreas cada vez maiores de plantação. Quase sempre na forma de monoculturas, mais rentáveis para quem produz. Mas isso se tornou um problema para os polinizadores.

A expansão de áreas agrícolas pode significar a perda de habitat natural desses animais. Além disso, representa menos diversidade de plantas.
O uso indiscriminado de agrotóxicos também colabora – além das pragas, outros animais podem morrer em contato com o veneno. Esse é um problema especialmente preocupante no Brasil, o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Em 2019, meio bilhão de abelhas morreram por aqui devido, sobretudo, ao contato de pesticidas à base de neonicotinoides e de pirazol, proibido na Europa há mais de uma década.

E se engana quem pensa que, com o avanço das técnicas agrícolas, a importância dos polinizadores diminuiu. Pelo contrário: a dependência em relação a esses animais aumentou 70% desde 1961. A FAO estima que até 8% da produção anual de alimentos depende da contribuição direta de polinizadores – isso corresponde a US$ 577 bilhões.

Colagem com uma pessoa aplicando pesticida, tomates, melância e soja.
(Colagem: Natalia Sayuri Lara/Imagens: Getty Images, Unsplash e fototeca Cristiano Menezes./Superinteressante)

Ora, mas por quê? Uma aula express de botânica: a maior parte das plantas que dão flores é capaz de se reproduzir sozinha, num processo chamado autopolinização. Elas têm dois sexos. O pólen, que contém os gametas masculinos, cai no estigma (parte do aparelho reprodutor feminino) da mesma flor; a partir daí, os óvulos são fecundados e voilà: sementes.

Para se reproduzir de forma sexuada, ou seja, cruzando gametas masculinos e femininos de indivíduos diferentes, as plantas precisam de insetos. Eles vão até a flor, que é o órgão sexual das plantas, em busca de néctar. Ao pular de flor em flor, eles levam gametas masculinos para os estigmas de outros indivíduos.

Bom, reprodução sexuada é sempre melhor. Ela tende a produzir descendentes mais fortes, com características positivas de cada um dos “pais”. “A qualidade dos cultivos aumenta: eles duram mais, são ricos em nutrientes – e mais saborosos”, explica a bióloga Vera Lucia Imperatriz Fonseca, que atua há décadas em defesa das abelhas e de outros polinizadores.

Insetos também podem ajudar as plantas que acabaram se acostumando com a reprodução solitária – caso da soja. A visita de uma abelha a uma flor de soja ajuda-a a se autopolinizar. Enquanto o inseto se remexe lá dentro, acaba levando mais pólen ao estigma. Só que isso praticamente não acontece, já que abelhas não são amigas de monoculturas. Uma pena: um estudo brasileiro (4) mostrou que, com abelhas melíferas e silvestres fazendo esse trabalho, a produção de soja pode aumentar em até 18%.

Gráfico mostrando a porcentagem de dependência de abelhas e outros polinizadores de alguns cultivos.
(Colagem: Natalia Sayuri Lara/Imagens: Getty Images/Superinteressante)

E agora?

Especialistas defendem que a integração entre polinização e agricultura precisa acontecer o quanto antes, e que ela pode trazer uma série de benefícios, tanto para a preservação dos animais quanto para a produção de alimentos.

Não é preciso muito para começar. Com pouco investimento, fazendas podem criar, por exemplo, espaços receptivos para abelhas solitárias. São os chamados “hotéis de abelha”. Nesse ambiente, os “quartos” são árvores ou blocos de madeira com pequenos buracos para elas (e também outros animais polinizadores) se hospedarem. Já o “buffet de café da manhã” consiste em flores de diversas espécies, que proporcionam alimento o ano todo – não só nas épocas de cada monocultura.

Colagem com 2 besouros, uma joaninha, plantas e flores.
(Colagem: Natalia Sayuri Lara/Imagens: Getty Images, Unsplash e fototeca Cristiano Menezes./Superinteressante)

No fim das contas, um mundo sem abelhas não significa, necessariamente, que vamos morrer de fome. Vários elementos que compõem a base da nossa alimentação (cereais, cana-de-açúcar, parte dos tubérculos e legumes) não dependem de polinização animal.

Mas seria uma dieta mais pobre. 90% da produção de frutas como kiwi, melancia, melão e abóbora, além da castanha-do-pará e do cacau, depende da polinização. E, claro: num cenário com menos alimentos, os que sobram ficam mais caros. Pode não render um episódio de Black Mirror, mas já é algo distópico o bastante.

Fontes: (1) Colony Collapse Disorder: A Descriptive Study; (2) Worldwide occurrence records suggest a global decline in bee species richness; (3) Controlling the impact of the managed honeybee on wild bees in protected areas; (4) Higher soybean production using honeybee and wild pollinators,a sustainable alternative to pesticides and autopollination.

Agradecimentos: Cristiano Menezes, biólogo e membro da Associação Brasileira de Estudo das Abelhas (ABELHA); Ricardo Tinôco, agrônomo e integrante do projeto de hotéis de abelha da Pepsico.

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