A real sobre os testes de QI
Eles funcionam, mas não da maneira que você imagina. Entenda os trunfos e as limitações dos testes cognitivos – e o que, afinal, significa ser superdotado
Às vésperas de completar 39 anos, o designer Cícero Moraes fez algo que nunca tinha considerado antes: um teste de QI.
A decisão não nasceu da curiosidade sobre sua inteligência. Meses antes, ele havia começado a ter crises intensas de ansiedade, sem explicação clara. A vida estava estável – casamento, trabalho e rotina seguiam normalmente –, mas algo parecia fora do lugar.
Desde a adolescência, Cícero não tinha episódios semelhantes. Quando comentou com a esposa o que estava acontecendo, ela sugeriu que talvez fosse uma crise de meia-idade. Moraes começou a pesquisar sobre o assunto. Em busca de respostas, ele mergulhou em leituras sobre pessoas altamente sensíveis – indivíduos com percepção emocional e sensorial particularmente intensa.
Muitos desses textos associavam essas características a Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), uma condição geralmente definida por um QI acima da média. “Eu sempre achei que superdotado era aquele estereótipo do gênio da matemática, capaz de fazer cálculos absurdos de cabeça”, diz Moraes. “Nunca me vi dessa forma.”
Ele encontrou descrições que lhe pareciam familiares, como dificuldade de ignorar estímulos do ambiente, sensibilidade acentuada a sons ou luzes e facilidade para perceber mudanças no estado emocional de outras pessoas.
A curiosidade o fez procurar uma avaliação neuropsicológica. A bateria de testes, que durou semanas, incluiu diversos instrumentos usados para avaliar o funcionamento cognitivo – entre eles, o teste de QI. A pontuação de Moraes chegou a 142 (a média geral é 100), um desempenho superior ao de 99,75% da população.
O resultado lhe permitiu ingressar em sociedades internacionais de alto QI, como a Mensa – a mais antiga e conhecida delas, fundada na Inglaterra em 1946. Aqui, a sucursal reúne mais de 6 mil membros. Todos devem ter uma pontuação em testes de inteligência entre os 2% mais altos da população brasileira. A organização promove encontros, palestras e atividades.
Antes de entrar, Moraes imaginava encontrar um grupo de mentes brilhantes discutindo ideias complexas e produzindo grandes projetos. “Eu pensava: se juntar um monte de gente muito inteligente numa sala, alguma coisa extraordinária vai sair dali”, conta.
Não foi isso que encontrou. O principal papel da Mensa, segundo ele, não é reunir gênios para propor alguma solução, mas sim criar um espaço de convivência entre pessoas que têm um processamento cognitivo diferente da normalidade. “Quando essas pessoas saem do mundo geral e entram num ambiente onde quase todo mundo tem características parecidas, elas se sentem abraçadas.”
Nesses encontros, Cícero conta que a superdotação aparece menos como um talento espetacular e mais como uma forma diferente de decifrar o mundo. Nem todos são cientistas, inventores ou prodígios acadêmicos. “Existe todo tipo de gente inteligente”, diz. “Tem pessoas muito produtivas e outras não. Tirar uma nota alta no teste de QI não significa automaticamente que você vai revolucionar alguma área.”
A sigla “QI” (de “quociente de inteligência”) faz parte da cultura popular – geralmente, entendida como sinônimo de genialidade. Mas a história não é tão simples. Para entender o que o teste de QI mede de fato, é preciso conhecer a evolução do próprio conceito de inteligência, e quais estratégias a ciência já usou para avaliar a cognição humana.
Uma breve história da inteligência
A palavra “inteligência” vem do latim intelligentia, derivada do verbo intelligere, que significa “compreender”, “perceber” ou “discernir”. Durante séculos, o termo foi usado na filosofia e no senso comum para se referir, de forma ampla, à capacidade humana de entender o mundo, raciocinar e tomar decisões.
No fim do século 19, porém, alguns cientistas passaram a tentar transformar essa ideia abstrata em algo que pudesse ser medido de forma objetiva.
Um dos primeiros a tentar fazer isso foi o estatístico inglês Francis Galton, primo de Charles Darwin. Para ele, pessoas mais inteligentes tinham uma capacidade mental inata, ligada a traços como reflexos, força muscular ou tamanho da cabeça, que seriam amplamente determinados pela hereditariedade.
Galton fundou o primeiro centro de testes mentais do mundo. Mas, depois de coletar dados sobre diversas características físicas, não conseguiu demonstrar a correlação que esperava entre esses fatores e a inteligência. Acabou deixando de lado essa linha de pesquisa.
O estatístico também foi o primeiro a usar a palavra eugenia, em 1883. O termo descrevia a ideia de melhorar biologicamente a população humana ao incentivar a reprodução de pessoas consideradas “superiores” e desencorajar a de pessoas vistas como “inferiores”. Ele acreditava que diferenças de capacidade entre indivíduos eram principalmente resultado da herança biológica e que, por meio da reprodução seletiva, seria possível “aperfeiçoar” a humanidade. Ao longo do século 20, a ciência abandonou essa ideia estapafúrdia.
Já o psicólogo britânico Charles Spearman seguiu outro caminho. Em 1904, ele observou que os alunos que iam bem em uma matéria escolar costumavam também ter bom desempenho em outras, mesmo quando os conteúdos eram diferentes. É o nerd da sala, que vai bem em todas as disciplinas. A partir disso, Spearman concluiu que deveria existir uma capacidade mental geral por trás da habilidade de ir bem em tudo.
Ele chamou essa capacidade de fator g (de “general”, “geral”). Além dela, também haveria habilidades específicas – como cálculo, vocabulário ou memória – que seriam mais variáveis entre si. (Um aluno poderia sempre tirar 10 em matemática, mas ficar por volta de 7 em português, por exemplo.) Esses foram chamados de fatores s, que se somariam ao fator g.
No ano seguinte, os psicólogos Alfred Binet e Théodore Simon deram um passo além. A dupla francesa publicou o primeiro teste de inteligência amplamente utilizado, a escala Binet-Simon. Baseada sobretudo em exercícios de linguagem, ela tinha como objetivo identificar crianças com dificuldades de aprendizagem nas escolas.
A escala também adotou o conceito de idade mental, que estimava o desenvolvimento cognitivo da criança comparando as tarefas que ela conseguia resolver com aquelas esperadas para determinadas idades. O teste se espalhou para os EUA e passou a ser aplicado em escolas públicas, na triagem de imigrantes e até em tribunais.
Em 1912, o psicólogo alemão William Stern cunhou a sigla QI, abreviação de Intelligenzquotient (“quociente de inteligência”, em alemão). O termo se refere ao cálculo que divide a idade mental estimada na escala Binet-Simon pela idade real da pessoa. Depois, o resultado é multiplicado por 100.
Com o tempo, os testes foram aperfeiçoados. O psicólogo David Wechsler criou uma nova bateria de questões que avaliava diferentes tipos de habilidades, tanto verbais quanto não verbais, e para diferentes idades. Trata-se da Escala Wechsler de Inteligência para Crianças (WISC) e da Escala de Inteligência Wechsler para Adultos (WAIS). Foram largamente adotadas e até hoje são consideradas o padrão-ouro dos testes de QI.
Mas o debate sobre o que é a inteligência não parou por aí. A partir da década de 1940, outros pesquisadores começaram a propor respostas mais complexas.
O psicólogo Raymond Cattell sugeriu que ela poderia ser dividida em dois grandes tipos: a inteligência fluida, relacionada à capacidade de raciocinar diante de situações novas e resolver problemas inéditos, e a inteligência cristalizada, que corresponde ao conhecimento acumulado ao longo da vida.
Aqui vai um exemplo: na escola você aprendeu sobre guerras passadas, que hoje fazem parte da sua inteligência cristalizada. Agora, vamos supor (rs) que você esteja vivendo em um momento de tensão geopolítica. Você identifica características em comum a outros contextos históricos, e pode usar a inteligência fluida para traçar paralelos entre o presente e o passado.
Segundo Cattell, enquanto a inteligência fluida tende a diminuir com o envelhecimento, a cristalizada costuma se manter estável ou até mesmo crescer, por depender de fatores como acesso à educação, estímulos culturais e qualidade do ensino.
Décadas depois, um aluno de Cattell, John Horn, ampliou essa proposta ao sugerir que a inteligência envolve várias habilidades mentais amplas, como memória e velocidade de processamento de informações.
E, nos anos 1990, o psicólogo John Carroll propôs um modelo hierárquico de três níveis: no topo estaria uma capacidade mental geral, semelhante ao fator g de Spearman; abaixo dela, diversas habilidades cognitivas amplas; e, na base, habilidades mais específicas usadas em tarefas particulares, como conhecimento léxico e controle de atenção.
Em 1993, essas ideias foram reunidas em um modelo único conhecido como teoria Cattell-Horn-Carroll (CHC). Ele organiza a inteligência como uma estrutura em níveis, com uma capacidade geral no topo e várias habilidades cognitivas amplas – como raciocínio, memória, compreensão verbal e velocidade de processamento – abaixo dela.
Os testes de QI modernos foram influenciados por essa teoria. Ela foi usada para interpretar diferentes habilidades cognitivas separadamente, permitindo traçar um perfil mais detalhado das capacidades mentais de cada pessoa.
“À medida que as baterias de testes [como o WAIS e o WISC] foram reeditadas, elas trouxeram o modelo CHC para explicar o que está sendo medido”, diz Ricardo Primi, coordenador do Laboratório de Avaliação Psicológica e Educacional (LabAPE). “Hoje em dia elas apresentam o QI global, mas também as notas de inteligência do segundo nível, como memória de trabalho, conhecimento cristalizado, velocidade de processamento, entre outros.”
Entendendo o teste
Ao comprar uma régua, você não se preocupa se os números escritos ali realmente estão a 1 centímetro de distância. Há uma confiança geral de que a régua irá medir aquilo que ela se propõe a medir. Isso só é possível graças ao Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), que estabelece as normas técnicas para instrumentos de medição.
O Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (Satepsi) é o Inmetro da psicologia. Trata-se de um órgão do Conselho Federal de Psicologia que verifica se os instrumentos (os testes) das avaliações psicológicas estão medindo as variáveis desejadas. Isso vale, por exemplo, para o teste psicotécnico do Detran, que mede atenção, tempo de reação e outras funções cognitivas importantes no trânsito. Também vale para a Escala de Identificação de Burnout, que aponta quando há exaustão física e mental causada pelo trabalho.
Os testes de QI fazem parte desse rol, inclusive a Escala de Inteligência Wechsler, que é composta de um conjunto de subtestes que avaliam diferentes funções cognitivas. Ela deve ser aplicada por um psicólogo – esqueça os testes de internet – e geralmente dura mais de uma sessão. O valor varia de acordo com o tipo de teste e o profissional. O WISC custa entre R$ 1 mil e R$ 3 mil.
Para que um teste receba o aval do Satepsi, é importante que ele tenha validade de construto (meça aquilo que ele diz que mede), validade de conteúdo (abranja diferentes facetas daquilo que se propõe a medir) e validade de critério (preveja ou se correlacione com resultados do mundo real). Uma pessoa que tem uma boa pontuação no teste de QI tende a ter bom desempenho acadêmico, o que é um exemplo de validade de critério.
Os testes também têm data de validade. De tempos em tempos (geralmente 10, 15 ou 20 anos), eles devem passar por uma bateria de novos estudos de validação em uma amostra populacional. Isso é importante para verificar se os exames continuam funcionando mesmo em novos contextos históricos e sociais.
Utilizar um teste que tenha sido validado por estudos é essencial – mas não é tudo. A entrevista clínica também é parte importante da avaliação cognitiva. “Às vezes, uma queixa de falta de atenção é fruto de ansiedade, humor deprimido, estresse ou sobrecarga. São variáveis que influenciam o desempenho cognitivo”, diz Antonio Serafim, professor que leciona disciplinas de avaliação de inteligência na USP. “Pode dar a impressão de que a pessoa é desatenta ou tem algum déficit, quando na verdade há outros fatores por trás.”
Considerando possíveis fatores “externos” que possam influenciar o resultado do teste, o psicólogo deve escolher a melhor ferramenta para avaliar aquela pessoa. Os subtestes do WISC e do WAIS, por exemplo, permitem que o profissional diferencie as habilidades cognitivas do paciente – alguém pode se destacar em velocidade de processamento, mas ter dificuldade na hora de recuperar memórias de longo prazo, por exemplo. Em muitos casos, essa informação é mais valiosa do que detectar um número único associado à inteligência geral.
“Os testes de QI podem ajudar a identificar pessoas com deficiência intelectual e pensar em um programa pedagógico, ou pessoas com altas habilidades e superdotação”, diz Serafim. “Geralmente eu oriento a nem colocar a pontuação; só escrever ‘inteligência acima da média’, ‘abaixo da média’, e assim por diante […] A pontuação de QI sempre foi um discriminador.”
Calendário astronômico: o melhor do céu em 2026
Mas, afinal, o que significam os pontos de QI?
Pontos nos (Q)Is
Para explicar esse tópico, vamos usar o teste que é considerado padrão-ouro na psicometria. A pontuação da Escala de Inteligência Wechsler vai até 160. Diversos sites na internet dizem que esse seria o número do QI de Einstein, mas isso é balela. Não há evidências de que o criador da Teoria da Relatividade tenha feito um teste cognitivo em qualquer momento da vida. Esse entra para o rol de mitos sobre o cientista, junto com a história de que ele teria reprovado em matemática na escola (mentira também).
O número é uma forma de quantificar o desempenho no teste cognitivo. Quanto mais alto, melhor a pessoa se saiu em comparação a outras. Os testes são padronizados para que a média do QI em qualquer população de referência seja exatamente 100. Trata-se de uma herança de William Stern, que estabeleceu o quociente de inteligência como a divisão entre o resultado real e o resultado esperado de uma pessoa daquela idade, multiplicado por 100.
Exemplo: uma criança de 8 anos respondeu ao teste e o resultado foi equivalente ao que é esperado de uma criança de 8 anos. 8/8 x 100 = 100, o que é considerado adequado. Mas, se a criança demonstra uma habilidade equivalente a 9 anos de idade, então o resultado será maior, pois 9/8 x 100 = 112,5. O desvio padrão é de 15 pontos para mais ou para menos, então ela ainda estaria dentro da média.
Dessa forma, uma criança de 6 anos e outra de 9 anos podem ter 100 pontos de QI, mas não significa que elas tiveram o mesmo desempenho no teste. A criança de 9 “acertou” mais, já que ela tem mais vocabulário e repertório graças a seus 3 anos extras de aprendizado. Hoje em dia não se utiliza mais o conceito de “idade mental” – os testes de QI usam métodos estatísticos para chegar ao resultado final.
Essa operação matemática é chamada de padronização. Ela pode ser feita considerando a idade da pessoa, como no caso acima, ou de acordo com escolaridade, contexto social, ou dificuldade do teste.
O próprio Enem utiliza uma lógica semelhante: se em um ano as questões estão mais fáceis, a tendência é que todos os participantes se saiam melhor. Por isso, as notas são padronizadas para baixo, mantendo uma média semelhante aos anos em que a prova estava mais difícil. No caso do Enem, a média é sempre 500.
Quando aplicamos os testes de QI no mundo real, observamos que a maioria das pessoas encontra-se na média dos 85 aos 115 pontos. Conforme nos aproximamos das extremidades, a porcentagem diminui, sendo mais raro encontrar pessoas com QI muito alto ou muito baixo. Essa distribuição forma uma curva chamada gaussiana ou normal. Ela é típica de medições que levam em conta múltiplos fatores. No caso do QI, o resultado depende de um misto de escolaridade, ambiente e genética.
As pontuações são normalizadas periodicamente por meio dos estudos de validação, em que os testes são aplicados em uma amostra populacional. Isso significa que, de tempos em tempos, “atualizamos” a média para que ela permaneça 100, mesmo que o desempenho das pessoas mude ao longo do tempo. E ele mudou.
Ao analisar os resultados dos testes, o psicólogo James Flynn notou que o índice de acertos aumentou ao longo das décadas, em diversas populações. Essa melhora geral nos testes de QI foi chamada de Efeito Flynn. Isso significa que alguém com 100 de QI na década de 1950 teria uma pontuação reduzida se fizesse os testes de hoje. E alguém com QI 100 hoje se sairia melhor se pudesse fazer o teste do passado.
Não há consenso sobre as razões desse efeito, mas algumas explicações são o aumento da complexidade da sociedade moderna e a melhora na qualidade de vida, já que mais pessoas hoje têm acesso a nutrição, saúde e educação. Sabemos que uma parte da inteligência é de origem genética; mas também sabemos que são necessárias condições básicas para que ela se desenvolva.
Os testes também são atualizados para compreender estudos e teorias contemporâneas sobre o que a psicologia entende como inteligência. Algumas habilidades ainda estão sendo estudadas e validadas, e geralmente não são medidas nos testes de QI. Uma delas é a inteligência emocional, um conceito recente que descreve a habilidade de reconhecer e gerenciar as próprias emoções. Outras habilidades que não são medidas (no geral por questões práticas) são a olfativa, a gustativa e a tátil, que dizem respeito à percepção sensorial. Perdão, sommeliers.
O fato é que os testes validados medem algumas habilidades cognitivas já bem estabelecidas pela ciência, como processamento visual, conhecimento quantitativo, processamento verbal, entre outros. Os testes de QI fazem parte da avaliação de inteligência, mas não a resumem por completo. Sua importância está, principalmente, em auxiliar na identificação de pessoas que diferem da média da população.
Resultados abaixo de 70 pontos no teste podem ser um indicativo de deficiência intelectual, mostrando que talvez sejam necessárias mudanças na abordagem de aprendizado (a escolaridade aumenta a pontuação de QI). Já os resultados acima de 130 são indicativos de Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) – o que também pode exigir uma educação diferenciada.
O que é (e o que não é) superdotação
A legislação brasileira define os superdotados como pessoas que “apresentam elevado potencial intelectual, acadêmico, de liderança, psicomotor e artístico, de forma isolada ou combinada”. A condição pouco tem a ver com a imagem caricata do “gênio” que resolve equações de cabeça e sabe de cor a bandeira do Kiribati.
Tirar uma pontuação maior que 130 em um teste de QI é um indicativo, mas não um atestado de superdotação. Há pessoas que tiram pontuações maiores e não são consideradas superdotadas, e o contrário também ocorre. É necessário um conjunto de evidências para a identificação – tanto de indicadores que podem ser medidos por testes cognitivos quanto do contexto social e do histórico de desenvolvimento e de comportamento do indivíduo.
Alguns estudos sugerem que o intenso processamento cognitivo, típico dos superdotados, costuma vir acompanhado de uma intensidade emocional igualmente forte. Erros simples podem provocar frustração desproporcional. Mesmo quando acertam quase tudo, ficam presos ao que não conseguiram resolver.
Também é comum surgir uma sensação persistente de deslocamento social. Interesses diferentes dos colegas, sensibilidade elevada e necessidade constante de estímulo intelectual podem tornar difícil achar com quem conversar.
De acordo com Patrícia Schneider, psicóloga e secretária da Mensa Brasil, “é como colocar um adulto para jantar com um grupo de adolescentes: os interesses não batem”. Pessoas superdotadas precisam de mais estímulos. Elas correm o risco de se desinteressarem pela escola ou de disfarçar seu comportamento para serem aceitas.
O quadro é ainda mais complexo quando a superdotação aparece paralelamente a outra condição do neurodesenvolvimento – como TDAH ou autismo. O fenômeno é conhecido como dupla excepcionalidade. Uma característica pode mascarar a outra: dificuldades de atenção, por exemplo, podem esconder habilidades cognitivas elevadas (ou o contrário).
Por isso, identificar esse perfil exige uma avaliação cuidadosa. A superdotação não é considerada um transtorno, e sim uma neurodivergência. Especialistas preferem falar em identificação, não em diagnóstico.
A superdotação é bem diferente das pontuações altíssimas que às vezes aparecem na mídia – como as atribuídas ao matemático Terence Tao (225–230) ou à escritora Marilyn vos Savant (228). Esses números costumam vir de escalas desatualizadas ou de estimativas infladas, baseadas em relatos sobre a pessoa.
Testes de QI confiáveis seguem a distribuição estatística vista anteriormente. Valores em torno de 160 já são extremamente raros. E, como existem poucos indivíduos nessa faixa, é difícil reunir amostras grandes o bastante para calibrar e validar medições mais altas. Sem dados suficientes, a confiabilidade estatística cai. Por isso não existem medições cientificamente aceitas de QI acima de 160.
O fantasma da eugenia
Quanto da personalidade e das características humanas pode ser atribuído à genética, e quanto depende de fatores ambientais?
A resposta mais aceita hoje é que entre 40% e 60% da diferença de inteligência entre pessoas é genética. Essa métrica vem, principalmente, de diferentes estudos com irmãos. Gêmeos univitelinos, que compartilham o mesmo DNA, tendem a ter pontuações de QI mais próximas entre si do que gêmeos fraternos, que só dividem metade da genética. Mesmo gêmeos idênticos criados em famílias diferentes tendem a ter pontuações de QI semelhantes, em especial quando chegam à vida adulta.
A expressão da inteligência é poligênica – ou seja, diversos trechinhos do DNA somados contribuem para o desempenho cognitivo. Uma variante pode agraciar você com uma boa rota de dopamina, o que dá maior motivação; ou você pode ter genes favoráveis à produção da proteína BDNF, uma espécie de fertilizante dos neurônios que estimula a neuroplasticidade. Essa é a capacidade do cérebro de fazer novas conexões neurais – algo ligado ao aprendizado e ao raciocínio.
A genética, porém, é só metade dessa conversa. “Se o meio em que o indivíduo está inserido não tem educação, não tem nutrientes no começo da vida, não é favorável, a capacidade genética não é explorada”, diz a geneticista Daiane Simão.
O debate do comportamento inato versus o influenciado pela criação foi popularizado por Francis Galton – o mesmo pesquisador que criou o termo eugenia. O erro da época foi apostar todas as fichas na genética e poucas no ambiente – sendo que os dois desempenham papéis importantes. “No início do século 20, o movimento eugênico foi gigantesco”, diz José Roberto Goldim, professor de bioética na UFRGS. “Todo o pensamento que serviu de base para a política eugenista do nazismo, que culminou nos anos 1930, já existia.”
A inteligência e o QI estiveram na raiz do pensamento eugênico. Nos EUA, ele serviu de base para a decisão jurídica Buck v. Bell (1927), que determinou a esterilização forçada de mulheres de uma família considerada pouco inteligente. O caso abriu precedentes para leis eugênicas – que resultaram na esterilização de 60 mil pessoas no país.
Entre a elite estadunidense, cresce um movimento apelidado de “nova eugenia”. Ele consiste em fazer fertilização in vitro mesmo quando o casal não apresenta dificuldades reprodutivas, para que os pais possam escolher algumas características do filho. Elas vão desde a exclusão de embriões com doenças genéticas (como a síndrome de Down) até a seleção de cor dos olhos, altura e habilidade cognitiva.
Algumas empresas de reprodução assistida do Vale do Silício, como a Herasight e a Nucleus Genomics, analisam o DNA de cada embrião fertilizado e fornecem a probabilidade de potencial de QI de cada um. Embora existam estudos que associam trechos do genoma à cognição, o resultado da interação entre os genes é complexo – e tem uma margem de erro considerável.
“Ao selecionar características, estamos definindo o que é bom para a humanidade. Hoje nós decidimos pela inteligência; no nazismo se decidiu por uma etnia”, diz Simão. “É consenso que ser inteligente é bom pra todo mundo? Ou as pessoas preferem ser, por exemplo, felizes? Eles não são sinônimos, e não temos certeza dessa beneficência.”
Os testes da Herasight chegam a custar US$ 50 mil (R$ 260 mil). Para Goldim, isso transforma os embriões em produtos. “A essência do pensamento eugênico é a mesma. Antes tinha uma finalidade política e ideológica, e agora existe a lógica comercial.”
O problema do QI não está em encontrar maneiras científicas de definir e mensurar a inteligência humana. E sim em como interpretar os resultados. Os testes de cognição são ferramentas que podem ser usadas para identificar e acolher pessoas neurodivergentes – mas também para fabricar um falso senso de superioridade. Use-os com sabedoria.
Referências: Livro Hereditary Genius, de Francis Galton; livro Human Cognitive Abilities: A Survey of Factor-Analytic Studies, de John B. Carroll; livro Educação no século XXI: Inteligência, pensamento crítico e criatividade; Lista de testes disponível no site do SATEPSI; artigo Sources of human psychological differences: the Minnesota Study of Twins Reared Apart
Agradecimentos: Alexandre Valverde, médico psiquiatra; Felipe Novaes, psicólogo; Marcelo Haas, psicólogo; Julio Cesar Gonçalves Campos Filho, presidente da Mensa Brasil; Letícia Morais Bueno de Camargo, biomédica e doutora em Farmacologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP; Patrícia Rzezak, neuropsicóloga; Priscila Zaia, psicóloga





