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A sonda InSight gravou o som do vento de Marte pela primeira vez – ouça

Conclusão? A atmosfera do planeta é boa para os baixistas: por causa da baixa densidade, sons graves se propagam melhor.

A sonda InSight, da Nasa, que pousou em Marte em 26 de novembro, fez um truque inesperado na última sexta (7): captou e enviou à Terra o som de uma brisa leve, de 16 km/h, no Planeta Vermelho. É a primeira vez que qualquer som marciano chega aos ouvidos terráqueos.

16 km/h equivale a uma nota 3 na escala Beaufort de medição do vento, que vai de 1 a 12 – sendo 1 o ar parado e 12 um ciclone tropical. Ou seja: um ventinho gostoso. E suficiente para transformar brisa em som.

A InSight, na verdade, não contém nenhum equipamento com função de microfone. Seus instrumentos são projetados, entre outras coisas, para medir o calor emanado pelo solo e detectar a atividade sísmica de Marte – isto é, seus terremotos, ou, como os cientistas preferem chamá-los, marsquakes (“martemotos”). Em outras palavras, o objetivo da sonda é ouvir o solo, e não o ar. Esses dados servirão para investigar a crosta, o manto e o núcleo do Planeta Vermelho, e descobrir no que seu interior é ou não parecido com o da Terra.

Acontece que o detector de martemotos da InSight – o nome técnico é sismógrafo – ainda não está apoiado no chão: ao longo da primeira semana de estadia em Marte, ficou pendurado no teto da sonda, como se estivesse no bagageiro, esperando para entrar em operação. Assim, foi possível usá-lo de improviso para sentir a vibração que o vento causou nos painéis solares redondos que fornecem energia elétrica à nave.

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Outro equipamento também registrou o fenômeno: um sensor de pressão atmosférica que faz parte do kit de equipamentos meteorológicos. Os sons estão no vídeo abaixo, divulgado pelo Laboratório de Propulsão à Jato (JPL) da Nasa, mas a SUPER já avisa que é difícil ouvi-los sem bons fones de ouvido ou um subwoofer. Isso porque a atmosfera de Marte é extremamente rarefeita e consiste principalmente em dióxido de carbono CO2 – duas características que beneficiam a propagação de frequências graves.

Por volta de 0:35, a Nasa toca o som original, da forma como foi captado. A partir de 0:58, ouve-se o som duas oitavas acima, em uma frequência mais aguda, confortável para o ouvido humano. “Oitava”, na física, é quando você toca a mesma nota em uma versão mais aguda ou mais grave. Em outras palavras, é como se a Nasa tivesse registrado uma música tocada por um baixista, mas tivese colocado um guitarrista para fazer uma versão mais aguda, audível num falante de celular ou notebook.

Em agosto deste ano, a SUPER conversou com o engenheiro brasileiro Ivair Gontijo, um veterano da Nasa que está participando dos preparativos para outra missão, a Mars 2020 (que será lançada, naturalmente, em 2020). A Mars 2020 levará equipamento especificamente para gravar sons de Marte – dessa vez, com um microfone de verdade, além de outras engenhocas incríveis, como um espectômetro para analisar moléculas orgânicas e uma câmera colorida para tirar fotos de longa distância. 

As previsões de Gontijo para a acústica do Planeta Vermelho bateram com o verificado na prática: “Cientistas franceses já simularam a atmosfera marciana aqui na Terra. Com pouco ar e uma concentração muito alta de gás carbônico, descobriram que as frequências sonoras mais altas desaparecem. Um ruído agudo em Marte, então, deve se tornar grave e abafado.”

Mandou bem, Marte. É a vingança que os baixistas esperavam.