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Aids é pura invenção?

Mentes criativas dizem que a doença é produto do sensacionalismo da mídia. Ou que pode ter sido resultado de relações sexuais entre homens e macacos. Ou ainda: que o vírus foi fabricado em laboratório para ser usado como arma biológica

Mariana Sgarioni

Aids é uma doença que já matou milhões de pessoas no mundo todo. Mais precisamente – até o fechamento desta edição –, os mortos já somavam 22 milhões. Diz a OMS (Organização Mundial da Saúde) que atualmente existem cerca de 42 milhões de infectados no planeta, sendo 14 000 casos novos descobertos por dia. Diante desses números assustadores, não há como negar que a epidemia exista, certo? Atualmente, pode ser. Mas, até o início dos anos 90, muita gente jurava que a doença tinha sido inventada por uma mídia ávida por notícias novas e bombásticas. “Você conhece alguém que morreu de Aids?”, perguntavam os céticos. Como, em geral, a resposta era um sonoro “não”, estava aí a legitimidade de que tanto precisavam. É lógico que, diante da doença que começou a bater na porta de todos nós, hoje em dia pouca gente seria capaz de levantar essa lebre.

Acontece que o boato foi apenas um entre as diversas histórias que surgiram em torno da Aids, identificada pela primeira vez, oficialmente, nos Estados Unidos, em 1981. Na verdade, vamos voltar só um pouquinho no tempo: no dia 12 de dezembro de 1977, morria, aos 47 anos, a médica e pesquisadora dinamarquesa Margrethe P. Rask. Ela havia morado na África e começara a apresentar diversos sintomas estranhos para sua idade. A autópsia revelou que seus pulmões estavam repletos de microorganismos, que ocasionaram um tipo de pneumonia, causando a morte por asfixia. Estudiosos acreditam que o caso dela tenha sido o primeiro óbito por Aids registrado no mundo.

A pergunta que surgiu na época era: o que estava acontecendo? A resposta aos conspirólogos – e, pior, a muita gente séria por aí – só viria mais de 20 anos depois, quando cientistas americanos conseguiram mapear a origem do vírus HIV: a epidemia teria surgido mesmo no centro da África, numa região onde o vírus, antes encontrado somente em chimpanzés, foi transmitido para os humanos através de contato ocasional entre esses animais e os homens. Você pode imaginar o que as mentes poluídas de plantão pensaram, não é? Sim, que humanos andaram transando com os macacos ancestrais e espalharam a doença. “Muitas tribos locais tinham o hábito de caçar chimpanzés. Esses animais eram mortos e esquartejados no local onde eram abatidos, havendo portanto intensa manipulação de sangue, o que facilita a contaminação”, esclareceu o infectologista Esper Kallás, da Unifesp (Universidade Federal de Medicina), quando o assunto foi levantado em uma conversa com o médico Drauzio Varella.

ARMA BIOLÓGICA

Já outros conspirólogos, mais dados a jogos de guerra do que à sacanagem propriamente dita, acreditam que a Aids foi uma doença fabricada em laboratório. Sim, caro leitor, esqueça os chimpanzés africanos de outrora. Até porque, segundo Peter Duesberg, professor de Biologia Molecular da Universidade da Califórnia, a Aids americana é diferente daquela encontrada na África – ele afirma que esta última seria resultado de má nutrição. Para essas mentes preocupadas, o governo americano teria desenvolvido o HIV artificialmente para usá-lo um dia como arma biológica. Só que, como seria previsível numa situação dessas, a criatura acaba fugindo das mãos do criador. O vírus letal teria escapado dos cientistas, sabe-se lá como, e começado a fazer vítimas pelo mundo – iniciando pelos próprios Estados Unidos, em Washington e Nova York.

Se você duvida, saiba que existem até governantes que acreditam nisso. Veja só: “A epidemia da Aids é uma guerra biológica produzida por certos Estados, e não uma doença natural”, declarou o presidente da Namíbia, Sam Nujoma, à agência France Press, durante uma convenção em Genebra (Suíça), em janeiro de 2000. “Trata-se de uma doença fabricada pelo homem. A verdade é que a Aids não apareceu na África. Nós simplesmente nos convertemos em suas vítimas”, afirmou, sem, no entanto, esclarecer quais seriam esses Estados criminosos. Fala sério, hein, presidente!

Eu acredito!

“Depois das revoluções sexuais e culturais dos anos 60 e 70, o mundo parecia caminhar para uma sociedade de puro sexo, drogas e rock’n’roll. O que os ultraconservadores podiam fazer para impedir uma coisa dessas? Puxar as rédeas do sexo e das drogas injetáveis foi fácil – bastou criar um vírus em laboratório, testá-lo em macacos africanos e espalhá-lo pelo mundo. Já o rock·n’roll deu mais trabalho: exigiu um exército de boys band e popstars pré-fabricadas. Mas eles venceram.“

Rafael Kenski, repórter da SUPER, é a favor do sexo seguro