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Será que beleza interior existe na natureza?

Sim, mas ela se manifesta exteriormente.

O pavão é um bom exemplo de que os seres humanos não são os únicos a dar importância à beleza. Sua cauda exuberante é, aparentemente, inútil. Além de pesada, será um estorvo caso ele tenha de fugir de um predador. Mas, sem esse adorno, como ele atrairia as fêmeas?

Na natureza, vale o ditado caipira de que o sapo não pula por belezura, e sim por precisão. “Cada espécie possui traços físicos que indicam a qualidade dos genes de um indivíduo”, explica o zoólogo paulista Ladislau Deutsch, especialista em comportamento animal. “Eles servem para que as fêmeas selecionem os machos capazes de produzir os melhores filhotes.” O primeiro a sugerir que as fêmeas escolhem os parceiros de acordo com seus ornamentos foi o biólogo inglês Charles Darwin (1809-1882), o pai da Teoria da Evolução.

Inspirados no darwinismo, os zoólogos constataram que, em algumas aves, os machos com penas mais vistosas levam vantagem na época do acasalamento. Descobriram, depois, que esses indivíduos eram os mais saudáveis. A simetria também conta, em alguns casos. Entre os cervos, os machos de maior sucesso com as fêmeas não são os que têm os chifres maiores, mas aqueles em que a proporção entre os lados é mais harmoniosa. Nas flores, a simetria é um sinal de abundância de néctar que atrai os insetos polinizadores. Ou seja: as exibições de beleza não passam de uma estratégia sexual. “Os conceitos estéticos existem apenas na nossa cabeça”, explica Deutsch.

(Sobre) vivendo de aparências

A aparência dos bichos não serve apenas como arma de sedução, mas em algumas espécies é a única esperança de continuar vivo. É o que ocorre com insetos como o bicho-pau, que fica o tempo todo escondido em meio à folhagem, com a qual se confunde facilmente. Em certos casos, a feiúra pode ser muito útil. Veja o estratagema desenvolvido pelo baiacu. Em seu estado normal, ele é um peixe lento e inofensivo. Quando se sente ameaçado, engole uma quantidade descomunal de água, inflando como um balão. O inimigo acredita que está diante de um peixe grandalhão e se afasta, deixando o baiacu em paz. Já o peixe-palhaço costuma aplicar um conto-do-vigário nos predadores. Ele age em parceria com a anêmona, que o deixa viver tranquilamente em meio aos seus tentáculos. As escamas vermelhas servem de isca para outros peixes, que acabam na barriga da anêmona. Entre algumas espécies de sapo, o truque consiste em usar forma e cores semelhantes às dos seus primos venenosos. Assim, mesmo sendo apetitosos, eles afugentam os predadores.

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As fêmeas preferem o exagero.

Em 1982, o pesquisador sueco Malte Andersson, da Universidade de Gotemburgo, selecionou quatro grupos de machos de ave-do-paraíso. Em todos eles foi cortada a longa cauda,de cerca de 50 centímetros. No primeiro grupo, a cauda foi reimplantada com 14 centímetros; em outro, com 75 centímetros; nos outros dois, voltou ao tamanho original. Quando foram trazidas as fêmeas,os machos com a cauda alongada conseguiram quatro vezes mais parceiras que os de cauda encurtada e três vezes mais que os de cauda normal.