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Cientistas descobrem lagarto com quatro olhos que viveu há 50 milhões de anos

Quando o assunto são olhos, um é pouco, dois é bom, e quatro... bem, quatro quem tem é o Saniwa ensidens, o réptil extinto que você vê no fóssil abaixo

Shiva, um dos principais deuses do hinduísmo, é razoavelmente parecido com um ser humano comum. A diferença é seu terceiro olho vertical, bem no meio da testa. Também tem os quatro braços, é claro – mas o assunto anatômico do dia é a visão, então vamos com calma.

Acontece que essa história de ficar com um olho no gato, outro no peixe e um terceiro só no caso é bem mais antiga que as religiões asiáticas – e que o próprio ser humano. Surgiu com répteis como os lagartos e anfíbios como as rãs. Entre o par de olhos tradicional, esses animais têm um minúsculo orifício fotossensível que capta variações de luz ao longo do dia – dando uma mãozinha para o cérebro na regulação do relógio biológico.

A estrutura, chamada “olho parietal”, não funciona usando o mesmo mecanismo bioquímico de um olho comum. Ela não forma imagens nítidas, e fica conectada diretamente à glândula pineal – um pequeno órgão no interior do crânio que libera substâncias responsáveis, entre outras coisas, pelo ciclo do sono. Os terapsídeos, ancestrais extintos dos mamíferos, também vinham de fábrica equipados com um olho auxiliar desses. Mas a seleção natural o tirou de nós. Pena.

O negócio é que, se dá para tirar um olho, também dá para instalar mais um, certo? Certíssimo. Paleontólogos da Universidade Yale analisaram o fóssil de um lagarto que viveu há 49 milhões de anos no estado de Wyoming, onde fica o famoso parque de Yellowstone, nos EUA. E descobriram que, além de um olho para a glândula pineal em si, ele também tinha um olho só para um anexo da glândula chamado “parapineal” – totalizando quatro estruturas de visão no crânio.

Esse é a primeira vez que um vertebrado com mandíbula e quatro olhos é documentado, o que é uma notícia e tanto para os biólogos. Até então, pensava-se que só as lampreias – peixes primitivos compridos, de boca redonda – contavam com um par extra de estruturas fotossensíveis. “Os fósseis que nós estudamos foram coletados em 1871, e estão em péssimo estado”, afirmou em comunicado Krister Smith, um dos autores do artigo científico. “Daria para perdoar alguém que os jogasse fora pensando que são inúteis. Nosso trabalho mostra que até indícios pequenos, fragmentados, podem ser extremamente úteis.” Em outras palavras, o calango quatro-olhos espreitava debaixo do nariz da ciência há muito tempo. Só faltava alguém abrir a gaveta do museu e tirar o pó.