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Como um terremoto duplo raro atingiu a Venezuela?

Dois terremotos de alta magnitude atingiram a Venezuela com 39 segundos de distância. Entenda esse fenômeno sísmico raro

Por Ana Clara Caielli Barreiro 30 jun 2026, 10h00
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Na última quarta-feira, dia 24 de junho, dois terremotos consecutivos atingiram a Venezuela, ambos com magnitudes superiores a 7, classificadas cientificamente como muito fortes e capazes de causar danos graves.

O primeiro teve magnitude 7,2. O segundo ocorreu apenas 39 segundos depois, a poucos quilômetros de distância, e atingiu magnitude 7,5. Em seguida, ainda houve dezenas de réplicas, que são tremores que ocorrem após o abalo principal. Elas ainda podem continuar ocorrendo nos próximos dias ou semanas.

O norte da Colômbia, o Brasil e algumas ilhas caribenhas, como Aruba e Curaçao, também sentiram os abalos.

Dois dias depois, na sexta-feira, ocorreu mais um terremoto no país, dessa vez de magnitude 4,9, considerado de menor intensidade. Segundo as contagens mais recentes, os terremotos causaram mais de 1.400 mortes e mais de 3.000 feridos, além de milhares de pessoas desalojadas e centenas de edifícios destruídos.

Desde então, forças humanitárias locais e internacionais (como as da Suíça, Colômbia, Chile, República Dominicana e Espanha) têm atuado em missões de resgate para encontrar sobreviventes sob os escombros dos edifícios e acolher a população que ficou sem moradia. Diga-se de passagem que a tragédia ocorre em um momento de instabilidade política no país, após a prisão do presidente Nicolás Maduro, em janeiro.

Infelizmente, terremotos fazem parte da história da Venezuela, que está localizada em uma região de intensa atividade sísmica. O país fica na convergência entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul: a placa do Caribe se move para leste em relação à sul-americana a uma taxa de cerca de 20 milímetros por ano.

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Parece pouco, mas isso é suficiente para acumular uma enorme tensão. Desde 1900, houve cinco terremotos com magnitude superior a 7 na Venezuela.

Os abalos duplos, por outro lado, são um fenômeno raro. Para entendê-los, é preciso antes voltar ao conceito do que é um terremoto comum.

Eles estão ligados ao movimento das placas tectônicas, enormes blocos de rocha que sustentam continentes e oceanos. Essas placas, por sua vez, deslocam-se lentamente sobre uma camada mais quente e parcialmente líquida do interior da Terra.

Em alguns pontos, elas podem colidir, raspar umas nas outras, afastar-se demais ou uma deslizar por baixo da outra. Esse movimento gera um acúmulo de tensão, que provoca falhas geológicas visíveis na superfície terrestre. O território da Venezuela é repleto dessas falhas, como as de Boconó, San Sebastián e El Pilar.

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Essas falhas podem permanecer imóveis por muito tempo. Mas, quando a pressão acumulada ultrapassa o limite que as rochas conseguem suportar, elas se rompem, liberando energia na forma de ondas sísmicas que fazem o solo tremer. É aí que ocorre o terremoto.

O local, no interior da Terra, onde acontece a ruptura, é chamado de hipocentro, ou foco do terremoto. Já o ponto da superfície localizado diretamente acima dessa ruptura é o epicentro.

Geralmente, os terremotos consistem no rompimento de uma única falha, que gera um terremoto principal. Com ele vem diversas réplicas de menor magnitude, originadas na mesma área de ruptura.

Os terremotos duplos, também chamados de “sismos gêmeos” ou “doublets”, são diferentes. Nesses casos, há dois terremotos principais, originados em duas falhas diferentes. Ou seja: são dois rompimentos e dois epicentros distintos. Para entrar nessa classificação, eles também precisam ter magnitudes semelhantes, ocorrer em um curto intervalo de tempo e em locais próximos.

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Com mais energia sendo liberada, o potencial destrutivo aumenta significativamente. Apesar de terem magnitudes parecidas, o segundo terremoto, de magnitude 7,5, liberou cerca de três vezes mais energia do que o primeiro, de magnitude 7,2. Isso acontece porque a escala de magnitude dos terremotos é logarítmica. Cada aumento de uma unidade representa aproximadamente dez vezes mais energia liberada.

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O terremoto duplo da Venezuela

Os terremotos na Venezuela ainda estão sendo investigados. Até agora, as análises do USGS, o Serviço Geológico dos Estados Unidos, indicam que o primeiro terremoto foi provocado por um movimento horizontal entre as placas tectônicas do Caribe, que se desloca para leste, e da América do Sul, que se move na direção oposta.

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O primeiro teve epicentro próximo à cidade de San Felipe, na falha de Morón. O segundo ocorreu perto de Yumare, na falha de El Guayabo.

O USGS afirma que o surgimento do segundo terremoto está relacionado a um processo de interação entre as rupturas, embora ainda não tenha determinado exatamente qual mecanismo foi responsável. Quando o segundo terremoto começou, o primeiro sequer havia terminado.

Os terremotos duplos podem ocorrer por diferentes fatores. Uma das hipóteses é que o primeiro terremoto desloca as rochas e altera a distribuição de tensões na região. Isso pode ser suficiente para romper uma falha próxima que já estava sob forte tensão. Esse mecanismo, conhecido como Coulomb stress transfer, é uma das principais explicações levantadas pelos especialistas.

Outra possibilidade é que as ondas sísmicas produzidas pelo primeiro terremoto se propaguem pelo subsolo e façam as rochas vibrarem, desencadeando a ruptura da falha vizinha.

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Mais um fator importante é que ambos os terremotos foram relativamente rasos. O primeiro ocorreu a 21,9 quilômetros de profundidade e o segundo a cerca de 10 quilômetros. Quanto mais próximo da superfície ocorre um terremoto, menor é a perda de energia durante a propagação das ondas sísmicas, aumentando seu potencial destrutivo.

Outro ponto importante para explicar o grande estrago causado pelos terremotos de 2026 na Venezuela é a vulnerabilidade de muitos edifícios, construídos sem reforço estrutural adequado ou com materiais como tijolos e blocos de adobe. Muitas construções que resistiram ao primeiro terremoto não suportaram o segundo.

Além disso, a composição natural do solo em algumas das cidades atingidas, como Caracas, é predominantemente sedimentar, o que amplifica as ondas sísmicas.

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