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Descobriram um micróbio que se mata de tanto poluir o próprio ambiente

Qualquer semelhança com o ser humano não é mera coincidência.

Nada de consumo sustentável: bactérias do gênero Paenibacillus sp., quando são alimentadas com açúcar e nutrientes em abundância, perdem a noção do perigo e começam a se reproduzir feito coelhos (na verdade, bem mais rápido do que eles: no reino microscópico, novos indivíduos surgem em questão de horas por divisão celular). O problema é que a digestão de todo esse carboidrato tem efeitos colaterais.

Um resquício ácido das reações químicas que ocorrem no interior das bactérias logo começa a se acumular em volta delas – para falar português claro, de tanto comer e digerir, elas ficam nadando no próprio cocô. Esse cocô, abundante, torna inóspito o próprio ambiente em que vive a colônia. A acidez é nociva para as bactérias, que começam a morrer por causa do pH baixo. Como se estivessem mergulhadas em um balde de ácido sulfúrico.

É suicídio ecológico. Em 24 horas, não mais, a população antes próspera entra em colapso e desaparece do mapa. O único jeito de evitar é aplicar antibiótico – a morte de uma parcela da população devolve o equilíbrio ao sistema (Thanos, de Guerra Infinita, aprova). A descoberta é do biofísico Jeff Gore, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, e foi relatada em um artigo científico publicado nesta semana. 

É claro que a situação é puramente experimental: na natureza, mesmo que houvesse uma enorme fonte de alimento disponível, outras colônias de bactérias do entorno, com seu próprio metabolismo, provavelmente acabariam equilibrando o acidez e evitando a tragédia microscópica. Mesmo assim, carrega uma lição óbvia: o ser humano não está imune à maneira como altera o meio ambiente – como a Paenibacillus sp., se não tomar cuidado, ele pode dar um tiro no pé.

Em entrevista ao New York Times, Jo Handelsman, pesquisador da Universidade de Wisconsin-Madison que não estava envolvido no estudo, afirmou: “Essa é uma descoberta muito importante. Eu não achei que as bactérias fossem tão autodestrutivas, mas o fenômeno é bem simples: o pH muda, os bichinhos morrem. Como deixamos isso passar batido por tantos anos?” A descoberta não se aplica só ao Paenibacillus sp., mas a 25% das demais linhagens de bactérias testadas no estudo. 

É claro que falta de planejamento econômico é rotina na natureza: em 2008, o The Guardian noticiou que a África do Sul perdeu o controle de sua população de elefantes. Na casa das dezenas de milhares, eles estavam comendo (ou esmagando) florestas inteiras – um dano ambiental que, em última instância, se voltaria contra os próprios animais. A seleção natural não consegue regular ecossistemas tão rápido quanto os seres vivos são capazes de alterá-los, e nem elefantes nem bactérias têm consciência de que parar de comer às vezes é uma boa ideia: assim como muito ser humano por aí, eles simplesmente comem.