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Diferenças genéticas podem influenciar predisposição para Covid-19

Alguns estudos sugerem que a presença de certos genes e o tipo sanguíneo dos pacientes podem influenciar a severidade com que eles são afetados.

Por Bruno Carbinatto - 8 Maio 2020, 18h46

Desde o início da pandemia, cientistas vêm tentando entender porque a covid-19 se manifesta de formas tão diferentes em cada paciente. Muitos infectados pela doença têm apenas sintomas leves – semelhantes aos de um resfriado ou uma gripe, como tosse e febre baixa. E há uma porcentagem ainda indeterminada que não apresenta sintoma algum. Outros pacientes, porém, têm quadros graves, que atingem os pulmões e aumentam muito o risco de morrer.

Já sabemos que certos grupos, como idosos e pessoas com doenças crônicas pré-existentes, são mais vulneráveis ao vírus e correspondem a maior parte das mortes. Mas isso não explica tudo: jovens, apesar de morrerem com mesnos frequência, também podem desenvolver os sintomas graves da doença, ao mesmo tempo que vários são assintomáticos. Diversos fatores podem explicar essa diferença, e um deles é a genética.

É bem documentado que diferenças genéticas podem influenciar na gravidade de outras infecções virais. Uma mutação no gene CCR5, por exemplo, pode tornar uma pessoa resistente ao vírus HIV, causador da aids. Mas os dados ainda são escassos para afirmar se algo parecido acontece no caso da covid-19.  Em todo o mundo, equipes de cientistas e empresas privadas de bioinformática e genética estão conduzindo grandes estudos para entender a relação entre nossos genes e a infecção pelo novo coronavírus, mas poucos resultados foram publicados até agora.

Uma informação que já temos bem documentada sobre o vírus da covid-19, porém, é a forma como ele infecta células humanas. Ele não pode sair por aí parasitando tudo o que vê pela frente: precisa de uma chave para abrir a fechadura da célula. No caso dos humanos, essa fechadura é a chamada enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2), uma enzima que aparece na “casquinha” de várias células do corpo humano, incluindo as do trato respiratório. O coronavírus, por sua vez, consegue conectar a proteína S de sua “coroa” nessas enzimas (a chave). Assim, ele entra nas células e começa seu processo de replicação.

Nem todas as pessoas têm a mesma quantidade de ACE2 em suas células. Um dos fatores que influencia a quantidade de ACE2 é uma outra proteína, muita parecida com ela e chamada convenientemente de ACE1 (as duas agem no controle da pressão sanguínea em nosso corpo, resumindo bem).

Pessoas que têm a variação “D” do gene que codifica a ACE1 tendem a ter uma expressão menor do gene que codifica a ACE2, e, consequentemente, têm menores quantidades dessa proteína. Com menos “fechaduras” em suas células, essas pessoas podem ser mais resistentes à infecção. Resumindo, caso você esteja confuso: mais ACE1 do tipo D significa menos ACE2 e, consequentemente, menos mamata para o vírus. 

Essa hipótese ainda não foi demonstrada especificamente com o novo coronavírus, no entanto. O fenômeno foi verificado experimentalmente no caso do coronavírus original, que foi responsável por causar a epidemia de sars (síndrome aguda respiratória grave) em 2002. Como esse coronavírus das antigas também utiliza a ACE2 como porta de entrada para as células, ele nos permite traçar paralelos com seu herdeiro. 

Outra informação importante é que a variação D do gene ACE1s aparece em quantidades diferentes na população de cada país. Assim, espera-se que países cuja a variação D se expressa mais, a população seja menos afetada.

Um novo estudo, que analisou 25 países europeus, aponta que esse pode ser, de fato, o caso. Segundo a equipe, o fator genético explica até 38% da diferença na gravidade com que a doença entre afetou cada país analisado. Além disso, a pesquisa nota que China e Coreia do Sul, dois países fortemente afetados pela pandemia logo no começo, são países asiáticos com baixa prevalência da variante D da ACE1. 

Outro fator genético também pode ter um papel nesse processo. Neste caso, se trata do sistema antígeno leucocitário humano, ou HLA. Não entendeu nada? Normal, vamos lá. Esse é um conjunto de genes que codifica proteínas que ajudam o sistema imunológico a não confundir nosso próprio corpo com invasores. Ou seja, essas proteínas têm a função de classificar as coisas em nosso corpo como “eu” e “não-eu”. Os “não-eu”, é claro, são prováveis causadores de doenças e devem ser atacados.

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Esses genes também variam entre seres humanos. E uma nova pesquisa identificou que, dependendo das variantes, as pessoas podem ser mais ou menos vulneráveis à infecção pelo novo coronavírus. Segundo o estudo, quem tem o gene HLA-B*46:01 pode ser mais vulnerável a doença, enquanto quem tem a variação HLA-B*15:03 parece estar mais protegido. Ainda não se sabe exatamente o porquê disso, mas essa mesma correlação já havia sido feita com a sars anteriormente. Dada a importância do sistema HLA, não é difícil imaginar por que essas variações influenciam na resposta do corpo ao vírus.

Falando em sars, aliás, uma outra variação genética que influencia em sua severidade pode ter o mesmo papel na covid-19. Pesquisadores descobriram que, em camundongos, o gene TICAM2 parece oferecer alguma proteção contra o coronavírus. Quando ele é silenciado por alguma mutação, os camundongos ficavam mais suscetíveis à infecção. Isso porque o gene codifica receptores envolvidos na resposta imune imediata do corpo quando atacado por um invasor. Como a sars é parecida com a covid-19, supõe-se que o gene TICAM2 também pode ter uma função similar, embora ainda não haja demonstração disso.

E os tipos sanguíneos?

Por fim, um último fator genético pode talvez estar envolvido na severidade da Covid-19: os tipos sanguíneos. Um estudo preliminar, ainda não revisado por outros cientistas, indicou que pessoas com sangue do tipo A são mais suscetíveis ao novo coronavírus, enquanto pessoas com tipo O parecem ser mais resistentes. Os dados foram obtidos de 2.173 pacientes na China. O estudo logo chamou a atenção e ganhou manchetes pelo mundo, mesmo sem ter sido publicado. 

Ainda não há explicação do porquê desse fenômeno – sequer sabemos se é uma correlação válida, já que o estudo é preliminar. Mas dá para especular, novamente com base nos estudos feitos com o coronavírus original, da sars de 2002. Antes, porém, precisamos lembrar você das aulas de biologia sobre tipos sanguíneos.

O que define o tipo sanguíneo de uma pessoa é o tipo de proteína que ela tem em suas hemácias (glóbulos vermelhos). Há dois tipos de proteínas: A e B. Logo, pessoas de sangue tipo A têm proteínas A em suas células; as do tipo B têm proteínas B; as tipo AB possuem as duas proteínas; e as tipo O não têm nenhuma das duas. 

Além dessas proteínas presentes nas células, os anticorpos que ficam soltos no sangue de cada pessoa também mudam de acordo com o tipo sanguíneo. Esses anticorpos são nomeados a partir da proteína que atacam: anti-A ou anti-B. Uma pessoa de sangue tipo A têm anticorpos do tipo anti-B, e uma pessoa do tipo B tem anticorpos do tipo anti-A – ou seja, sempre o contrário da proteína que a pessoa tem. É por isso que uma pessoa do tipo A só podem receber sangue do tipo A – se elas receberem tipo B, seus anticorpos vão reconhecer as proteínas B nas células recebidas e vão atacá-las, causando rejeição.

Como o tipo O não possui nenhuma proteína, ele é doador universal, já que seu sangue nunca será rejeitado. Por outro lado, ele só recebe doações de sangue tipo O, já que possui aglutininas anti-A e anti-B. O AB é o contrário: não possui nenhum aglutinina, e por isso é receptor universal, mas só pode doar para outros AB, já que possui os dois tipos de proteínas.

Fim da aula de biologia, voltando a falar sobre coronavírus. Em 2008, pesquisadores descobriram que o anticorpo anti-A, além de atacar proteínas sanguíneas do tipo A, têm outra função: eles inibem a conexão entre o vírus da sars e a enzima ACE2 em nossas células (lembra dela?). Por isso os tipos sanguíneos que possuem esse anticorpo – O e B – parecem ser mais resistentes à infecção, enquanto o sangue A, que não tem anticorpos anti-A, esta mais vulnerável.

Quanto ao anticorpo anti-B, não há dados para afirmar se ele desempenha algum papel. Além disso, ainda resta saber porque o tipo O é mais resistente do que o tipo B, por exemplo, apesar de ambos terem anticorpos anti-A, ou saber porque o tipo AB não é tão vulnerável quanto o tipo A, sendo que os dois não tem anticorpos anti-A. (Que sopa de letrinhas!)

De novo, essa é uma pesquisa feita com outro vírus, o que causou a epidemia de 2002. Apesar de parecido, ele não é igual ao vírus da covid-19. E o estudo que estabeleceu a relação entre tipo sanguíneos e o novo coronavírus ainda é preliminar, então não dá para bater o martelo. Vamos esperar. 

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