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Ela produz arte com fungos mutantes

Jasmine Temple é uma bióloga que conseguiu juntar duas paixões bem distintas: pintura e edição de DNA. Veja como, e aprecie sua obra

Você é mais parecido com o restante dos seres vivos do que imagina. 90% dos genes do seu gato, por exemplo, estão presentes em você – mesmo o rato que ele caça tem 85% do nosso genoma. Uma galinha, 60%. A comparação mais impressionante, porém, está na mesa de bar: é a sua cerveja. Quer dizer, parte dela. 26% dos genes do Saccharomyces cerevisiae, o fungo usado para fermentar a sua gelada, estão presentes no DNA humano.

A boa notícia é que você não precisa ficar com peso na consciência por ter ingerido litros de parentes durante os jogos da Copa: para a ciência, termos primos tão parecidos nas mais diversas escalas é excelente. A genética do S. cerevisiae é bem mais simples do que a humana – ele possui 16  cromossomos, com 12 milhões de pares de bases, frente aos nossos 23 pares de cromossomos e 3 bilhões de pares. Foi por isso que, em 1994, o S. cerevisiae se tornou o primeiro ser vivo eucarionte (isto é, que possui um núcleo genético) a ter seu DNA completamente mapeado. A partir daí, virou a cobaia perfeita. Sabendo como são as estruturas genéticas do fungo, você controla tudo nele: forma, cor, tamanho.

 (Jasmine Temple/Divulgação)

Essa característica passou a despertar a curiosidade de pesquisadores mundo afora. Entre eles, Jasmine Temple, da Universidade de Nova York (NYU). Enquanto alguns começaram a editar o DNA do fungo para buscar novos medicamentos, por exemplo, Jasmine decidiu usar os genes do cerevisiae, para outro propósito: a arte. E não diminua isso. É mais importante do que parece.

Jasmine é uma californiana de 25 anos, que usa um laboratório da NYU para criar obras sem uma gota de tinta – sua ferramenta de trabalho é única e exclusivamente o S. cerevisiae (todas as imagens desta reportagem, aliás, foram criadas dessa forma, a começar pelo auto-retrato de Jasmine, aqui embaixo).

 (Jasmine Temple/Divulgação)

Essa mistura de paixões começou cedo na vida de Jasmine. “Frequentei escolas bem alternativas, então educação artística foi um tema bem importante enquanto criança. Em contrapartida, eu passava minhas férias em acampamentos que ensinavam ciência – num deles, dissequei minha primeira água-viva”, conta Jasmine à SUPER. Essa junção de interesses começou a definir seus objetivos. “Quando terminei o ensino médio, sabia que faria graduação em Biologia, mas não queria abandonar o meu outro lado. A princípio, pensei em apenas algumas aulas de pintura, mas decidi que iria cursar Artes também.”

Durante as graduações, fez alguns bicos (ajudando deficientes físicos a anotar o conteúdo de aulas, por exemplo), mas encontrou a vaga perfeita logo que pegou seus diplomas. O laboratório Boeke (um centro de pesquisas sobre DNA de eucariontes que funciona na NYU) estava precisando de uma nova pesquisadora. Coincidentemente, esse mesmo lugar tinha um projeto que utilizava artes para falar sobre ciência.

Jasmine foi contratada, em 2016, e tomou conhecimento da iniciativa. Em 2012, um grupo de pesquisadores do laboratório teve a ideia de criar desenhos usando micro-organismos. Jasmine, porém, deu um upgrade na ideia. “No começo, os desenhos se resumiam a logos e um ou outro autorretrato”, diz. “Como eu era muito mais familiarizada com a possibilidade de desenhar, resolvi me dedicar a isso. Minha bagagem artística poderia ajudar o projeto a criar coisas mais originais.”

 (Jasmine Temple/Divulgação)

O primeiro passo para fazer obras de arte com fungos é obter as cores necessárias. Jasmine, então, pega o S. cerevisiae e edita o DNA do fungo até conseguir a cor certa. Todo pedaço de DNA, não importa de qual organismo, é feito de quatro estruturas químicas, apelidadas com as letras A, T, C e G. Cada uma das características de um ser está contida em códigos formados por combinações dessas letras. Logo, toda informação que existe no DNA é editável. Mas como saber qual é a edição certa para fazer o fungo mudar de cor?

“Bom, dá para pegar um pedaço do DNA de uma água-viva rosada, por exemplo, e sintetizar o trecho que define a cor dela. Depois, você adapta o código para o fungo, que vai usar seus próprios sistemas para representar aquele genoma – isso vai torná-lo rosa”, explica.

Hoje, o Boeke conta com oito cores (e dez tonalidades), provenientes de vários seres vivos. O rosa vem do DNA de águas-vivas, por exemplo; o roxo, do de corais, o azul, do código genético de anêmonas.

Se o fungo é a tinta, o pincel é uma máquina complexa. Trata-se de um equipamento chamado Echo, normalmente usado na produção de medicamentos. O Echo consegue colocar com precisão microlítrica a quantidade desejada de fungos em cada parte da tela.

 (Jasmine Temple/Divulgação)

Não que se trate exatamente de uma tela. As obras nascem em uma placa retangular e quadriculada, com 1.500 subdivisões. Cada quadradinho recebe um fungo diferente – uma espécie de pixel do retrato final. Depois disso, as placas ficam em uma estufa com temperatura controlada de 30 °C por dois a três dias – tempo o suficiente para que os fungos cresçam. A pincelada final acontece em uma sala fria, de constantes 4 °C. Esse ambiente serve para deixar as cores mais saturadas, num  processo que pode durar meses.

Claro que nem tudo são flores nesse reino de fungos. O Echo aceita apenas um tamanho único de placa: retângulos de 12 cm por 8 cm – praticamente um cartão postal. Dá para o gasto, mas não é exatamente algo que chamaria a atenção numa galeria. “Por enquanto, uso a internet para divulgar as obras, mas definitivamente quero tirá-las dos laboratórios. Minha intenção é achar uma maneira de expandir esses limites, enquanto continuo expandindo nossa paleta de cores”, diz Jasmine.

 (Jasmine Temple/Divulgação)

Outro probleminha: criar uma obra viva significa que, em algum momento, você vai ter uma obra morta. Depois de seis meses, os nutrientes acabam e os fungos morrem. Terminam todos marrons. Além disso, a obra tem de ficar em um ambiente completamente estéril. Outros micro-organismos podem reagir com os fungos e com os nutrientes, afinal, e isso deformaria a obra.

Porta para a ciência

O projeto principal de Jasmine na NYU não tem a ver com arte. Ela está desenvolvendo um estudo sobre como os fungos se comunicam entre si, e com outros micro-organismos. Mas os “quadros” se tornaram seu xodó. E por um motivo nada banal: “A arte é uma ferramenta inacreditável de divulgação científica. Cria uma relação entre o público leigo e um tema complexo como edição de DNA – tudo de uma maneira 100% visual. Meus pais agora entendem o que eu faço profissionalmente”, brinca. “Também tenho dado palestras em escolas sobre esse trabalho. Ele funciona como uma bela porta de entrada para a ciência”.

De fato: uma porta que deve criar novos cientistas num futuro próximo. E, com eles, novas técnicas de edição genética, mais tratamentos contra doenças e, quem sabe, até novas formas de arte. Afinal, diferentemente do que acontece com os fungos, o acúmulo de conhecimento não morre em seis meses. Dura para sempre.