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Este chimpanzé é capaz de brincar de faz-de-conta. Entenda como

Em três testes diferentes, Kanzi brincou de "chá da tarde" com bebidas e frutas imaginárias. Resultados, porém, devem ser encarados com cautela.

Por Luiza Lopes
6 fev 2026, 14h00 •
  • Por décadas, a capacidade de imaginar objetos inexistentes e participar de brincadeiras de faz-de-conta foi tratada como um traço exclusivamente humano, ligado ao desenvolvimento infantil e à linguagem simbólica. Agora, um estudo publicado na revista Science desafia essa fronteira.

    Em uma série de experimentos controlados, pesquisadores mostraram que um chimpanzé-pigmeu (Pan paniscus) – também conhecido como bonobo – foi capaz de acompanhar líquidos e alimentos imaginários em situações simuladas, como brincadeiras semelhantes às usadas em testes com crianças pequenas. Os resultados sugerem que alguns primatas conseguem lidar mentalmente com situações que não estão acontecendo de fato.

    O protagonista do estudo é Kanzi. Ele viveu até os 44 anos e era conhecido no campo da cognição animal por sua capacidade de compreender centenas de palavras em inglês e se comunicar por meio de símbolos gráficos, os chamados lexigramas. 

    Kanzi vivia na Ape Initiative, um centro de pesquisa e conservação nos EUA, e já havia sido descrito como engajado em brincadeiras que lembravam o faz-de-conta. No entanto, até então não existiam testes experimentais rigorosos capazes de separar imaginação de simples associação ou condicionamento.

    A pesquisa foi conduzida por uma equipe liderada por Christopher Krupenye, da Universidade Johns Hopkins, e pela brasileira Amália Bastos, hoje professora da Universidade de St Andrews. A ideia era criar uma situação de brincadeira em que não houvesse objetos reais, apenas ações simbólicas, e observar se o animal conseguiria acompanhar o que estava sendo “fingido”.

    Em humanos, crianças por volta dos 2 anos já participam ativamente de brincadeiras de faz-de-conta, como servir chá em xícaras vazias. Ainda mais cedo, bebês demonstram surpresa quando alguém finge beber de uma xícara que acabou de “esvaziar”. Em animais, há muitos relatos anedóticos semelhantes, mas sempre difíceis de interpretar.

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    Fêmeas jovens de chimpanzé já foram vistas carregando gravetos como se fossem filhotes. Em cativeiro, um bonobo teria “arrastado” blocos imaginários após brincar com objetos reais. O problema é que esses comportamentos podem ter outras explicações, como a repetição de ações que já trouxeram recompensas no passado.

    Para contornar isso, os pesquisadores criaram três experimentos controlados. No primeiro, Kanzi sentou-se frente a frente com um experimentador diante de uma mesa com dois copos transparentes e uma jarra, todos vazios.

    O humano fingiu despejar suco imaginário nos dois copos e, em seguida, “esvaziou” um deles, inclinando-o de volta para a jarra. Então perguntou: “Onde está o suco?”. Na maioria das tentativas, Kanzi apontou para o copo que, segundo a encenação, ainda continha o líquido imaginário, mesmo quando a posição dos copos era trocada.

    Um resultado assim poderia levantar outra dúvida: e se o bonobo estivesse acreditando que havia suco de verdade ali, invisível? Para descartar essa hipótese, a equipe realizou um segundo teste. Dessa vez, havia dois copos, um com suco real e outro vazio. O experimentador fingia encher o copo vazio com a jarra sem conteúdo.

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    Quando perguntado qual copo ele queria, Kanzi escolhia o copo com suco de verdade na grande maioria das vezes. Isso indicava que ele distinguia o líquido real do imaginário.

    O terceiro experimento repetiu o mesmo princípio, mas com uvas. Um experimentador fingia pegar uma uva de um recipiente vazio e colocá-la em um de dois potes transparentes. Depois, fingia esvaziar um deles e perguntava: “Onde está a uva?”.

    Mais uma vez, Kanzi indicava corretamente a localização do objeto inexistente, em uma proporção bem acima do que seria esperado ao acaso. Em nenhum desses testes ele recebia recompensa pela resposta correta, o que reduz a chance de simples aprendizagem por reforço. Confira:

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    “É extremamente impressionante e muito empolgante que os dados pareçam sugerir que os macacos, em suas mentes, podem conceber coisas que não existem”, disse Bastos em comunicado. “Kanzi é capaz de gerar uma ideia desse objeto imaginário e, ao mesmo tempo, saber que ele não é real.”

    Para Krupenye, o impacto vai além de um caso curioso. “É realmente revolucionário que a vida mental deles vá além do aqui e agora”, disse em nota. “A imaginação é vista há muito tempo como um elemento crucial do que significa ser humano, mas a ideia de que ela pode não ser exclusiva da nossa espécie é realmente transformadora.” 

    Ele lembra que descobertas anteriores já haviam abalado fronteiras semelhantes. “Jane Goodall descobriu que os chimpanzés fabricam ferramentas, e isso levou a uma mudança na definição do que significa ser humano.”

    Do ponto de vista evolutivo, os autores defendem que essa capacidade pode ter surgido antes da separação entre a linhagem humana e a dos chimpanzés-pigmeus, em uma população ancestral que deu origem a ambas as espécies, há entre 6 e 9 milhões de anos.

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    Questões em aberto

    Especialistas que não participaram do estudo veem os resultados como um avanço importante, mas com cautela. A primatóloga Zanna Clay, da Universidade de Durham, afirmou ao The Guardian que o trabalho oferece “um primeiro teste experimental rigoroso” da imaginação em primatas, embora mais pesquisas sejam necessárias com animais que não tenham o histórico único de aprendizado de Kanzi. 

    Na mesma linha, o primatologista Richard Wrangham, da Universidade de Harvard, que documentou chimpanzés selvagens carregando troncos como bonecas, considerou o estudo convincente, mas ressaltou à Nature a importância de observar o faz-de-conta em primatas menos “aculturados”. 

    De fato, há limites claros no estudo. Apenas um indivíduo foi envolvido, e Kanzi não iniciou espontaneamente a brincadeira. Ele respondeu a uma simulação proposta por humanos, o que pode impedir comparações diretas com crianças pequenas, que costumam criar cenários fictícios por conta própria.

    Ainda assim, como observou a antropóloga evolucionista Laura Simone Lewis ao Live Science, trata-se da primeira evidência clara de que grandes símios podem acompanhar objetos imaginários em contextos controlados.

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    Os autores concordam que a pesquisa está só no começo. Eles pretendem testar outros primatas e explorar diferentes aspectos da imaginação, como a capacidade de pensar sobre o futuro ou sobre o que se passa na mente de outros indivíduos. 

    Para Krupenye, as implicações vão além da ciência. “Se algumas raízes da imaginação são compartilhadas com os macacos, isso deveria levar as pessoas a questionarem a suposição de que outros animais vivem vidas robóticas, limitadas ao presente”, destacou. “Deveríamos nos sentir compelidos a cuidar dessas criaturas com mentes ricas e belas e garantir que elas continuem a existir.

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