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Estudo com sangue de pítons pode abrir caminho para novos medicamentos contra a obesidade

Pesquisa testou em ratos uma molécula por trás do metabolismo peculiar dessas cobras (e que também está presente em humanos)

Por Ana Clara Caielli Barreiro 20 mar 2026, 19h00
Estudo com sangue de pítons pode abrir caminho para novos medicamentos contra a obesidade Priorizar nos meus resultados Google

Remédios como Wegovy e Ozempic têm sido amplamente utilizados para o emagrecimento. Ambos possuem a semaglutida como princípio ativo, que reproduz a ação do hormônio GLP-1, o responsável por sinalizar a saciedade. Enquanto o GLP-1 dura apenas alguns minutos, a semaglutida possui um efeito prolongado, reduzindo o apetite por longos períodos e levando à perda de peso.

O uso crescente desses medicamentos, porém, tem preocupado cientistas ao redor do mundo, principalmente devido aos seus efeitos colaterais. Wegovy e Ozempic já foram associados a náuseas, vômitos, constipação e até a um maior risco de problemas de visão em pesquisas recentes (vale ressaltar: sempre consulte um médico de confiança antes de começar a usar).

É um mercado com cada vez mais opções de substâncias e formas de administrá-las (via oral em vez de injeções, por exemplo). E um novo estudo, publicado no periódico científico Nature Metabolism, mostra que novas opções contra a obesidade podem estar dentro de animais inusitado. No caso, a píton birmanesa (Python bivittatus).

A descoberta surgiu a partir de um estudo sobre o metabolismo desses animais, que conseguem engolir presas inteiras de uma só vez – algumas, inclusive, maiores do que seu próprio peso. Depois disso, ficam meses (em alguns casos, mais de um ano) sem se alimentar. As pítons birmanesas podem ultrapassar os 5 metros de comprimento e pesar 100 quilos.

E não para por aí. Logo após a alimentação, seus órgãos, incluindo o coração, aumentam de tamanho em até 50%. Já o metabolismo acelera em até quatro mil vezes. Isso acontece para que a cobra consiga dar conta de digerir uma enorme quantidade de alimento, que a sustentará por longos períodos.

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Para entender os mecanismos por trás desse processo, foi analisado o sangue de pítons jovens antes e depois de uma refeição equivalente a 25% do seu peso corporal.

Os cientistas observaram que, após a alimentação, centenas de moléculas associadas ao metabolismo (metabólitos) aumentam de concentração no sangue. O fenômeno era ainda mais drástico para uma dessas moléculas, a pTOS (para-tiramina-O-sulfato), presente também na urina humana, que aumentou em mais de mil vezes. Essas elevações estão também ligadas ao intenso processo digestivo, que demanda energia e estimula a atividade celular, fazendo com que as moléculas se multipliquem mais do que o comum.

Ao identificarem a imponência do pTOS no metabolismo, os pesquisadores testaram a molécula em ratos obesos. O resultado? perda de peso. Os animais passaram a comer menos e emagreceram rapidamente, perdendo cerca de 9% do peso corporal em 28 dias. Não foram observadas mudanças no tamanho dos órgãos nem no gasto energético e tampouco os efeitos colaterais comuns dos medicamentos atuais.

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A principal alteração ocorreu no apetite e nos hábitos alimentares, efeito semelhante ao do Wegovy e Ozempic. Apesar disso, o funcionamento é bem diferente. Enquanto a semaglutida atua retardando o esvaziamento gástrico, o pTOS age diretamente no cérebro, na região responsável pelo controle do apetite.

Ocorre da seguinte forma: bactérias do intestino das pítons quebram a tirosina, um aminoácido presente nas proteínas, gerando o pTOS. A molécula segue então para o hipotálamo, onde ativa neurônios ligados à regulação da alimentação.

Agora, a expectativa é verificar se a substância pode ser segura e eficaz em humanos e, no futuro, servir como base para novos tratamentos contra a obesidade.

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Os pesquisadores acreditam que o corpo humano não reagirá negativamente à molécula, já que ela também está naturalmente presente em nosso organismo. Inclusive, o estudo analisou o sangue de seis voluntários saudáveis antes e depois de uma refeição. Em cinco deles, os níveis de pTOS aumentaram de duas a cinco vezes após comer.

Em alguns casos, porém, esse aumento foi ainda maior, chegando a mais de 25 vezes, com concentrações semelhantes às observadas nas pítons.

Cobras: uma farmácia ambulante

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Essa não é a primeira vez que cobras demonstram potencial para o desenvolvimento de medicamentos.

Componentes do veneno desses animais já foram utilizados na criação de medicamentos para pressão arterial e anticoagulação. Um dos exemplos mais conhecidos é o captopril, usado no tratamento da hipertensão e desenvolvido a partir de estudos com o veneno da jararaca brasileira.

Mais recentemente, em 2024, pesquisadores da Unifesp e do Instituto Butantan

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identificaram peptídeos nos venenos da jararaca-de-barriga-preta e da surucucu, com potencial anti-hipertensivo, que ainda está em investigação.

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