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Islândia sequenciou genoma do vírus em todos os casos de Covid-19 no país

A análise genômica é importante para o monitoramento de novas variantes do coronavírus. O Brasil sequenciou 0,024% dos casos confirmados.

Por Maria Clara Rossini Atualizado em 19 jan 2021, 10h02 - Publicado em 19 jan 2021, 10h01

Em meio ao surgimento de novas variantes do Sars-Cov-2, vírus causador da Covid-19, a Organização Mundial da Saúde alertou para a necessidade de aumentar o número de sequenciamentos genéticos realizados pelos países. Foi essa técnica que permitiu identificar a linhagem 70% mais contagiosa no Reino Unido e a cepa que se espalha por Manaus atualmente.

A Islândia vem atendendo à recomendação da OMS desde o primeiro caso da doença, que ocorreu em fevereiro de 2020 no país. Segundo a agência de notícias Agence France-Presse (AFP), a empresa deCODE Genetics sequenciou o genoma de todos os vírus que causaram casos de Covid-19 na ilha até agora, a pedido das autoridades de saúde islandesas.

O sequenciamento nada mais é do que “soletrar” todas as bases nitrogenadas (representadas por letras) presentes no material genético do vírus. Os humanos, por exemplo, possuem 3 bilhões de pares de bases, enquanto o Sars-cov-2 possui 30 mil. São elas que determinam as características do vírus – como a estrutura das proteínas spike em sua superfície, usadas para infectar as células humanas. 

Quanto mais o vírus circula, mais ele se reproduz – e mais mutações ele sofre. Poucas delas são realmente significativas. Pesquisadores estimam que o Sars-Cov-2 sofra, em média, de duas a três mutações relevantes por mês. As cepas do vírus que circulam hoje são bem diferentes daquele primeiro caso identificado em Wuhan, há um ano. Mesmo que muitas não influenciem a estrutura viral, as mutações são importantes para monitorar surtos e a trajetória do coronavírus.

Acontece que, às vezes, calha de ser uma mutação importante – podendo deixar o vírus mais letal ou transmissível. No caso da variante do Reino Unido, uma mutação importante ocorreu na região do genoma que codifica a proteína spike, o que pode ter facilitado a infecção das células humanas e tornado a linhagem mais contagiosa. O único jeito de identificar essas variantes é sequenciando o genoma do vírus em várias pessoas.

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    A ilha nórdica de 364 mil habitantes se aproveitou da população reduzida e do status de potência genômica para apostar em estratégias ousadas. Em abril de 2020, a Islândia já havia testado 10% de toda a população para a Covid-19. E desde o início do ano passado, todos os casos confirmados tiveram o genoma do vírus sequenciado. 

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    Isso só é possível porque a biofarmacêutica deCODE Genetics, que realiza os testes e o sequenciamento, é referência mundial em pesquisas genéticas. Ela analisa o genoma humano para estudar doenças hereditárias – e agora usa a tecnologia no combate ao coronavírus.

    Segundo o monitoramento da Universidade John Hopkins, a Islândia teve 5.970 casos desde o início da pandemia. Os pesquisadores encontraram 464 variantes do vírus, incluindo a britânica, identificada em viajantes que tentavam entrar no país. Estes fizeram o teste no aeroporto (obrigatório a todos os visitantes) e foram barrados antes que pudessem espalhar o vírus pela ilha. 

    As amostras para o sequenciamento são coletadas por meio do teste RT-PCR, considerado o padrão-ouro para o diagnóstico da Covid-19. Um cotonete é inserido pelo nariz ou boca para colher amostras das células trato respiratório, que então são levadas para laboratório. Se o resultado for positivo, os pesquisadores isolam o vírus e realizam o sequenciamento, que dura em média três horas.

    Por meio do sequenciamento genômico, as autoridades identificaram que a maioria dos casos da segunda onda (que ocorreu em setembro no país) foram causados por frequentadores de um pub em Reykjavík. Isso fez com que as autoridades públicas decidissem fechar bares e boates na capital

    Para ter uma ideia, o Reino Unido sequencia 5% dos vírus de todos os casos confirmados de Covid-19 no país. Já o Brasil lê o genoma de 0,024% dos casos, sendo a maioria deles na região sudeste. Não à toa, a variante presente em Manaus foi identificada pela primeira vez no Japão, em moradores que retornavam de uma viagem ao Brasil. Continuar monitorando essa linhagem no Brasil é importante para o controle da doença, visto que o Ministério da Saúde já confirmou casos de reinfecção causados pela nova variante.

    Pesquisadores relatam um “apagão genômico” de dados sobre o coronavírus no Brasil. Os novos sequenciamentos são publicados na plataforma internacional Gisaid, para que qualquer pesquisador interessado tenha acesso às informações. De todos os genomas sequenciados no Brasil, apenas 8% foram publicados no segundo semestre de 2020. “Isso torna impossível saber, por exemplo, há quanto tempo a nova variante está circulando no país e o quão disseminada ela está”, disse Darlan Cândido, do Centro Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus, à Fapesp.

    A razão para o “apagão” é incerta. Pesquisadores mencionam a dificuldade de importação e alto preços de insumos usados no sequenciamento, além da concentração de profissionais habilitados na região sudeste.

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