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Metanol: o veneno sob nova suspeita

Num achado surpreendente, uma geneticista da USP mostra que o combustível alternativo usado desde 1990 nos veículos a álcool pode estar causando mutações genéticas.

Thereza Venturoli

Em 1989, o governo federal começou a pensar em importar o metanol, um álcool extraído da madeira. Ele seria misturado ao álcool de cana-de-açúcar, combustível de milhões de automóveis, que estava escasseando. Mas os cientistas se preocupavam: nenhum país utilizava (e ainda não utiliza) o metanol em tão larga escala como o Brasil. Na época, não se falava em câncer, mas em danos a órgãos como olhos e fígado.

O governo venceu. O Relatório de Impacto Ambiental feito pela Universidade de São Paulo e pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) concluiu que o metanol não era mais perigoso do que a gasolina. O produto entrou no país em 1990 e, até hoje, algumas regiões de São Paulo e Minas Gerais vendem álcool enriquecido com 7% de gasolina e, no máximo, 33% de metanol (mistura confirmada em análise pedida pela SUPER ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo).

Agora, veio a dramática surpresa. Uma pesquisa — apresentada em dezembro de 1994 num congresso científico em Gramado, no Rio Grande do Sul, e ainda não publicada — realizada por biomédicos do departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), apontou alterações nas células dos frentistas que lidam com metanol. Foram examinadas células da mucosa da boca de 37 frentistas, de 28 postos, em duas rodadas de exames: em 1989, antes da chegada do metanol, e, depois, entre 1991 e 1992. Na primeira etapa, a média dos examinados era normal. Apenas 7 em cada 10 000 células tinham micronúcleos (aberrações nos cromossomos, que podem evoluir para o câncer). Depois, o número subiu para 17 em cada 10 000 células.

Segundo Gilka Gattás, chefe da pesquisa, infecções, uso de bebida alcoólica e cigarro também aumentam temporariamente a quantidade de micronúcleos. Mas os hábitos de fumo e bebida dos frentistas não se alteraram e, portanto, não estão associados à mudança registrada.

Especialistas que leram o relatório da geneticista da USP, a pedido da SUPER, concordam: o trabalho é muito bem feito. Paulo Hilário Nascimento Saldiva, um dos responsáveis pela preparação do Relatório de Impacto Ambiental, em 1990, pondera: “Talvez o metanol tenha facilitado a evaporação da gasolina, que entra na mistura”, especula ele. “A gasolina, sim, sabemos que tem efeitos mutagênicos.”

Outro que se surpreendeu foi o coordenador do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas, em São Paulo, Anthony Wong. Ele fez a avaliação clínica dos frentistas um ano depois de o metanol chegar aos postos. “Nossa preocupação era a possibilidade de cegueira e de alterações no fígado.”

A própria pesquisadora Gilka Gattás sugere cautela. “Os dados ainda não são suficientes para culpar diretamente o metanol. Mas são um alerta: os frentistas estão vivendo um problema de saúde ocupacional. E alguma coisa tem de ser feita.”

Para saber mais:

Um gene contra o câncer (SUPER número 7, ano 3)

Álcool, a molécula partida (SUPER número 7, ano 10)