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O amigo da onça

O biólogo Peter Cranshaw entra em florestas, voa de ultraleve e enfrenta fazendeiros, tudo para ajudar a onça, o maior felino do continente

Antônio Paulo Pavone

Entreacordado, o magnífico felino espreguiça-se no chão da floresta, prestes a despertar do sono induzido por um dardo tranqüilizante. Os inquietos olhos da canguçu (“cabeça grande”, no dizer indígena) já conseguem observar o movimento dos pesquisadores ao redor. É uma fêmea enorme e saudável de onça-pintada (Panthera onca), agora pronta para ser monitorada. O radiocolar em seu pescoço causa algum desconforto, mas vai servir para defendê-la da morte precoce. A tarefa está cumprida.

Maior e mais forte felino do continente, a onça habita as matas das Américas do Sul e Central. Sua distribuição geográfica abrange todo o território nacional, menos o Nordeste. Ela nada, sobe em árvores e tem nas queixadas seu alimento predileto. Os caninos de uma macharrona (macho grande) podem chegar a 5 centímetros de comprimento. Sua mordida é mais poderosa do que a do tigre e do leão.

A equipe de cientistas prepara-se para partir e deixar a onça seguir seu caminho. De repente, um guia chega sem avisar, trazendo um casal de turistas holandeses. Máquina fotográfica em punho, uma senhora franzina aproxima-se do animal e dispara o flash. Mas dispara também o instinto predatório da fera que, apesar de grogue, dá um salto mortal em sua direção. O biólogo Peter Cranshaw, líder dos pesquisadores, coloca seu corpo como escudo e apara o bote com a mão, enfiando alguns dedos na boca do bicho. A força das presas estilhaça um de seus dedos. São 47 segundos de pânico, numa luta titânica entre a criatura e seu protetor. No fim, os dois saem vivos. Cranshaw, é claro, leva a pior, com inúmeros ferimentos e 2 litros de sangue a menos.

Esse episódio, digno de uma ficção de Kipling, aconteceu no dia 31 de julho de 1991, no Parque Nacional do Iguaçu. Foi apenas uma das muitas situações em que esse amigo da onça arriscou a vida protegendo o mais poderoso predador do continente.

Peter Cranshaw, 49 anos, é o introdutor da biologia da conservação em terras brasileiras. Ele já percorreu incontáveis florestas e fazendas, a pé e de ultraleve, colocando radiotransmissores em animais selvagens, estudando seus hábitos e, enfim, criando estratégias para protegê-los de seu único e temível predador – o homem.

Além das onças, Cranshaw já esmiuçou os hábitos de jacarés, capivaras e veados campeiros. Em 1994, seus esforços culminaram na criação do Centro Nacional de Predadores Naturais (Cenap), vinculado ao Ibama. Hoje, além de gerenciar esse órgão, o biólogo tem papel de destaque em programas internacionais de proteção aos felinos como o Save The Jaguar, patrocinado por uma indústria inglesa de automóveis de luxo.

“É impossível calcular quantas onças existem hoje em liberdade no Brasil”, diz Cranshaw. “No Sul, elas estão praticamente extintas. Algumas dezenas ainda sobrevivem no Parque do Iguaçu, mas sob riscos seríssimos.” Na Amazônia, que é grande demais, a quantidade desses bichos é uma incógnita. “Mas, no Pantanal, eu acredito que a população está crescendo.”

Se depender de pessoas como Peter Cranshaw, o futuro desse portentoso predador está garantido. Mas, segundo ele, para que isso realmente aconteça é preciso investir em educação ambiental e em programas de compensação de perdas entre fazendeiros, que continuam combatendo os felinos para proteger o rebanho. A onça precisa de muito mais amigos.