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O atol das 100 mil aves

Consideradas em tempos remotos um perigo para a navegação, duas ilhotas a 240 quilômetros da costa brasileira são um verdadeiro paraíso para as aves marinhas

Roberto Muylaert Tinoco

Durante quatro séculos, o atol das Rocas (do catalão, rochas) foi sinônimo de um arrepiante pesadelo para a navegação. À sua volta, o fundo do mar transformou-se num cemitério de navios despedaçados, e a fina camada de areia que recobre seus traiçoeiros recifes serviu de sepultura para um número incontável de náufragos. Situada a 240 quilômetros da costa do Rio Grande do Norte, Rocas, como todo atol, é uma formação circular de recifes, criada pela superposição milenar de algas calcárias sobre uma gigantesca montanha submersa. Trata-se de um quase imperceptível anel semi-inundado, composto de areia, algas e corais, onde duas ilhotas planas e estreitas são a única parte visível.

Uma delas é chamada ilha do Farol e a outra, num silencioso testemunho das tragédias que ali ocorreram, ficou rotulada de ilha do Cemitério. O atol das Rocas recebeu muitos nomes diferentes desde o século XVI, quando os navegantes, temendo atravessar à noite aquela região – a perigosa zona do “paralelo das Rocas” -, tentavam assinalar em seus mapas a localização aproximada do perigoso baixio. Em 1852, as duas ilhotas foram mapeadas por um oficial americano e batizadas com o nome de The Grass, Islands, ou As Ilhas do Capim.

O militar ficara impressionado com a abundância de uma espécie de capim que recobria quase totalmente as duas ilhas. Na ocasião, ele plantou ali várias mudas de coqueiros, na esperança de que servissem como sinais de advertência aos navegantes, visíveis a longa distância, depois de crescidos; uma técnica consagrada pela marinha inglesa para sinalizar os atóis do Pacífico. O primeiro farol somente veio a ser instalado em 1887, pelo governo brasileiro. Durante quarenta anos a ilha foi habitada por famílias de faroleiros. Desprovida de água doce, uma grande cisterna foi então construída para o abastecimento dos moradores. Na virada do século, um pequeno descuido provocou uma tragédia: uma torneira deixada aberta por uma criança esgotou todo o conteúdo da reserva, matando a família de sede. Apenas o pai sobreviveu, aguentando o suficiente para atrair a atenção dos tripulantes de um navio distante, ateando fogo à vegetação.

Finalmente, em 1924, o atol ganhou um farol automático, e as ilhas continuaram a servir de moradia para milhares de seres vivos que, para sua sorte, não dependem da ingestão de água doce para sobreviver. Em Rocas existem aproximadamente 100 mil aves marinhas. De acordo com a época do ano, podem ser identificadas de quinze a vinte espécies de aves habitando o atol. Dessas, apenas cinco – duas espécies de mergulhões, duas de Anous e a andorinha-do-mar – fazem ali o seu lar, reproduzindo-se e criando os filhotes. As outras são companheiras temporárias, pescadoras errantes ou viajantes, como a fragata e o maçariquinho, que utilizam as Rocas como escala no longo vôo de migração entre a Patagônia e o Canadá.

Um mecanismo adaptativo nessas aves permite que sobrevivam bebendo água salgada. Uma glândula especial retira do organismo o excesso de sal ingerido, eliminando-o através dos orifícios situados no bico, acima das narinas, sob a forma de um líquido cristalino, que contém alta concentração de cloreto de sódio. Antigamente acreditava-se que o suprimento de água das aves marinhas era obtido exclusivamente por meio da alimentação – isto é, absorvido indiretamente durante a digestão dos pedaços de peixes, moluscos e crustáceos. Sabe-se hoje, porém, que até os filhotes alimentados no ninho ingerem água do mar junto com os pedaços de pescado semidigeridos, regurgitados pelos pais.

Caminhar por alguns lugares do atol significa acionar um ensurdecedor alarme de grasnidos e de bater de asas. A atitude das diferentes espécies, quando um estranho se aproxima do ninho, varia. Os dois tipos de atobás, ou mergulhões, que fazem seus ninhos nas Rocas (Sula Leucogaster e Sula dactylatra), não costumam fugir e permanecem junto às crias grasnindo agitadamente. Já as andorinhas-do-mar (Sterna fuscata) iniciam uma estonteante revoada, para em seguida permanecer pairando e gritando pouco acima do intruso. A quarta espécie, a viuvinha-preta (Anous stolidus), é arisca e não permite grandes aproximações, e, quando está com um filhote crescido, costuma se retirar caminhando junto à cria.

O atol das Rocas é considerado um importante viveiro natural para tais aves, mas não é essa a única razão de ter sido legalizado como a primeira reserva biológica marinha do Brasil. Duas espécies de tartarugas oceânicas fazem ali a desova anual. Tanto a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) como a enorme tartaruga-verde(Chelonia mydas) encontram nas areias do atol um dos poucos pontos de procriação em todo o Atlântico. É durante a noite que as mydas escavam os buracos onde depositam os ovos. Elas alcançam as areias do atol depois de atravessar algum dos canais que dão acesso à laguna interna – manobra que só conseguem executar quando a maré está alta.

A corpulenta carcaça e o peso de 300 quilos deixariam a mydas encalhada se tentasse cruzar qualquer outra zona mais rasa. No final das três ou cinco viagens para a postura, as tartarugas-verdes enterram em média 120 ovos. Quatro meses depois, também durante a noite, surgem as tartaruguinhas de dentro da areia. Aos milhares, elas abandonam o atol e se dispersam em todas as direções no oceano. Boa parte delas é devorada ali mesmo, pois as águas do atol abrigam enorme quantidade de peixes.

E este é mais um dos motivos pelos quais Rocas foi transformado em reserva biológica. Em alguns meses, a temperatura da água permanece em torno de 30 graus centígrados e permite ao mergulhador uma visibilidade de até 50 metros. Os paredões submersos do anel de recifes são entrecortados por grande número de fendas, além de esburacados com tocas de todos os diâmetros. Um verdadeiro paraíso para meros, badejos e lagostas. Próximo aos recifes rondam as barracudas em pequenos grupos de três ou cinco. Um pouco mais distantes, deslizam, solitários, os sempre temidos tubarões, embora as espécies locais não sejam consideradas perigosas.

Isso não exclui alguns visitantes indesejados. É assim, comum a presença do tubarão corta-garoupa (Carcharias limbatus), um animal que chega a medir 3 metros, muito bem servido de dentes, cujo maior perigo está no fato de vir abocanhar os peixes arpoados por mergulhadores. Algumas espécies mais perigosas, como a tintureira ou o anequim (tubarão-.branco), também já foram avistadas. Para as aves marinhas, Rocas é um lugar relativamente sossegado, pois não existe ali nenhum predador que as ameace. As aves mortas são devoradas lentamente por uma legião de insetos necrófagos (que se alimentam de cadáveres), como besouros, baratas, tesourinhas, e alguns crustáceos. Ali também é possível encontrar uma espécie de escorpião (Tityussp.) que por falta de inimigos naturais tornou-se abundante na ilha do Farol.

Por uma curiosa ironia, o próprio mar, a grande fonte de alimento das aves, transformou-se simultaneamente no seu controlador natural, impedindo a explosão populacional. De tempos em tempos, uma vigorosa maré inunda as partes mais baixas das ilhotas, afogando centenas de filhotes, ao arrastá-los para o oceano. Um número incalculável de insetos e escorpiões é também varrido para o mar, onde acabam devorados em poucos instantes pelos cardumes mais atentos. Nesse vai-e-vem contínuo do oceano, a vida flui e reflui em perfeito equilíbrio no atol das Rocas. Um equilíbrio constantemente ameaçado pela silhueta de barcos pesqueiros no horizonte. É essa a verdadeira maré predatória da qual o atol deve ser protegido. Por esse motivo é proibida a pesca ao seu redor.

 

 

Para saber mais:

Arquipélago de Alcatrazes: Laboratório da Natureza

(SUPER número 1, ano 10)