Oferta Relâmpago: Super em Casa por 9,90

O mundo das vibrações: o que os sentidos de aranhas e elefantes têm em comum?

Humanos, insetos e tantos outros animais dividem espaço na Terra – mas cada um percebe o planeta à sua maneira. Conheça os sistemas sensoriais capazes de interpretar vibrações de todo tipo.

Por Bela Lobato 20 mar 2026, 11h00 • Atualizado em 23 mar 2026, 12h12
  • I

    magine que você está em um jardim, encantando-se com a luz que atravessa as folhas, o cheiro da terra, o calor do sol e o roçar do vento na pele. Talvez ainda dê para ouvir os pássaros ou o zumbido característico de uma cigarra. 

    Essa é a vida na Terra para os humanos. Esse é o mundo que nossos sentidos nos permitem conhecer. O biólogo e filósofo Jakob von Uexküll (1864-1944) chamava isso de umwelt.

    Mas há outros mundos, outros umwelts. Naquelas mesmas plantas, as abelhas enxergam sinais ultravioleta nas flores, indicando o melhor lugar para pousar e obter pólen. Algumas aves percebem o campo magnético da Terra e sabem se localizar com precisão, como se navegassem numa malha invisível de batalha-naval.

    Certos insetos podem saber que a cigarra está por perto pela vibração das superfícies. As formigas seguem ordens em uma rígida hierarquia e infinitas trilhas a partir das informações obtidas pelos feromônios que deixam umas para as outras. É um sinalizador potente: 1 miligrama de feromônio da formiga-cortadeira-do-texas bem espalhado seria suficiente para guiá-las em três voltas ao redor da Terra (1). 

    No mesmo jardim, pode ser ainda que o focinho de um cachorro encontre pistas úteis sobre dieta, fertilidade, capacidade física e estresse de outros cães das redondezas.

    Para saber que essas coisas – comprimentos de luz que não enxergamos, vibrações mínimas, feromônios – existem, nós precisamos de instrumentos. Eles funcionam como tradutores: falta nos humanos o órgão para sentir as ondas magnéticas, mas você pode entendê-las se forem convertidas em um número ou um desenho no seu campo de visão. 

    Continua após a publicidade

    Nossa visão, aliás, é uma das melhores e mais elaboradas dentre todas as espécies. Nós amamos enxergar: transformamos quase tudo em coisas que podem ser entendidas com os olhos. É o caso desta matéria (e de todas as outras da revista). 

    Sendo assim, ajuste os seus olhos para, nas próximas linhas, imaginar outros mundos.

    Este texto é parte da reportagem “Já é sensação”, da edição 485 da Super. Confira os outros textos aqui.


    N

    ão é exagero dizer que, ao nosso redor, tudo vibra. Numa escala microscópica, os átomos estão em constante agito. E eles se unem em substâncias que também conduzem vibrações a todo momento – como água, ar, madeira, nosso corpo etc. 

    É assim, aliás, que conseguimos ouvir. Quando algo emite um som, as moléculas de ar vibram e geram ondas de pressão. Essas ondas, por sua vez, fazem o tímpano vibrar, e o sistema auditivo transforma esse movimento em sinais elétricos interpretados pelo cérebro.

    Continua após a publicidade

    De vez em quando, dá para sentir também vibrações pelo tato. É o que acontece em um ônibus que balança, perto de caixas de som potentes ou durante um terremoto. Mas sentir não é suficiente para fazer sentido. Nós, humanos, não nos aperfeiçoamos na arte de decifrar vibrações assim. Na maior parte do tempo, nem as notamos ao nosso redor dessa forma.

    Mas, para alguns animais, as vibrações – tanto as minúsculas quanto as que viajam quilômetros – definem o mundo. Elas são tão definidoras para o umwelt deles quanto a luz é para o nosso.

    Ilustração multicolorida de um elefante.
    (Tayrine Cruz/Superinteressante)

    Os elefantes, por exemplo, são equipados com um conjunto de adaptações para captar e decifrar os tremores mais sutis do chão. Apesar de serem gigantes, eles são vulneráveis: filhotes e os mais velhos podem ser lanche de leões e hienas. Sem falar na maior ameaça: os caçadores humanos em busca do marfim de seus dentes incisivos.

    Continua após a publicidade

    Para se protegerem, elefantes andam em manadas. Vira e mexe, eles congelam e apoiam as unhas de uma das patas (ou um pedaço da tromba) no chão, como se estivessem ajustando antenas. A partir daí, identificam, no chão, os estrondos de outros elefantes. 

    Muitas vezes, quando têm algo a dizer, elefantes emitem urros graves e altos, cujas ondas se propagam por quilômetros pelo solo – a mesma coisa acontece com a vibração das pegadas de uma manada que sai correndo. Apoiar partes do corpo mais sensíveis no chão ajuda a fazer a análise da região.

    A jornada para comprovar esse comportamento não foi fácil. Em 2002, depois de anos de observação da vida selvagem, a pesquisadora Caitlin O’Connel gravou elefantes que estavam sendo ameaçados por leões e rinocerontes na Namíbia. Ela “converteu” o barulho feito pelos elefantes para vibrações no solo, calculadas para simular o efeito de uma manada fazendo aqueles mesmos sons a distância. 

    Depois, Caitlin emitiu artificialmente a vibração a partir de dispositivos enterrados em uma reserva particular de elefantes no Texas (EUA). A maracutaia estava montada. 

    Diante dos tremores artificiais, a manada paralisava, silenciosa, apoiando trombas e unhas no chão para entender melhor que remelexo no solo era aquele. E, como se fossem um organismo só, os elefantes entraram em formação de segurança, com os filhotes no centro. Eles estavam se preparando para a chegada de um predador.

    Continua após a publicidade

    Outros experimentos assim já provaram que elefantes têm “sotaques”. Ou seja, às vezes não entendem da mesma forma o significado de ruídos de primos de outras regiões. Eles, porém, conseguem identificar as vibrações produzidas por fêmeas no cio – e, ao sentirem o tremor de trovões e tempestades, marcham em direção à chuva para beber água (2).

    Na outra ponta

    Enquanto os ossos de elefantes conduzem as vibrações corpo acima, ao longo de metros, um mecanismo parecido opera em seres milhares de vezes menores: as aranhas, sobretudo as que fazem teias. 

    Ilustração de uma aranha.
    (Tayrine Cruz/Superinteressante)

    Vamos pegar o caso das aranhas do gênero Trichonephila. Bem comuns no Brasil e inofensivas, elas são facilmente reconhecíveis por suas enormes teias douradas. Elas são profissionais em encontrar rapidamente insetos presos nos fios pegajosos de suas teias e, por incrível que pareça, não dependem de nenhum dos oito olhos para isso. Na verdade, elas enxergam bem mal.

    Na maior parte do tempo, essas aranhas repousam no centro da teia, com cada uma de suas oito pernas apoiadas em um ponto radial. Seus corpos são cobertos por órgãos sensoriais chamados sensilas. Assim, quando algo se choca com a teia, elas sentem o balanço dos fios – e localizam o visitante calculando o quanto vibrou em cada uma das pernas.

    Continua após a publicidade

    Haja sensibilidade: elas conseguem diferenciar o impacto de uma folha do de uma borboleta se debatendo e, assim, dosar a cautela com que se aproximam. Na dúvida, elas ainda podem testar o tamanho e a localização do visitante, puxando cada fio de uma vez – como se tocassem um violão – e acompanhando as variações no retorno das vibrações. 

    Ao se sentirem seguras, as aranhas vão até o visitante, injetam um veneno imobilizante e o envolvem em um casulo de teia. E ele fica lá, para virar refeição mais tarde. 

    Nessa hora, podem entrar outras aranhas espertinhas (e de outras espécies). Discretamente, elas acoplam suas teias às de fios dourados para acompanhar as vibrações. Um gatonet da natureza. Quando elas percebem que algum lanche foi embalado para viagem, vão lá e pegam para si, numa relação ecológica conhecida como cleptoparasitismo.

    O plano, claro, não é tão simples assim. Para não serem elas mesmas detectadas, as outras aranhas só se movem quando a dona da teia também está se movendo, para se misturarem às vibrações dela. Além disso, desfazem com cuidado os fios que prendem o casulo, evitando rupturas abruptas que denunciariam sua presença. Movimentos friamente calculados.

    Entre as várias formas que animais têm de sentir vibrações, o mecanismo das aranhas que tecem teias é especial, porque elas mesmas criam as superfícies que vibram. Portanto, diferentemente do solo para os elefantes, as teias são parte inerente do sistema sensorial desses aracnídeos. 

    Assim, em tempos de estresse, elas conseguem fazer adaptações especiais. Algumas espécies, por exemplo, quando estão com fome, tecem fios mais tensos e mudam o “desenho” e as decorações da teia, de forma a torná-la mais sensível às vibrações produzidas por animais menores. Afinal, às vezes mosquinha é janta.

    Conheça as papa-moscas, as mais fofas das aranhas

     

    O mais interessante é que, em alguns testes, pesquisadores transferiram aranhas saciadas para teias construídas por outros espécimes com fome. Mesmo de barriga cheia, elas eram  “induzidas” pela teia, e respondiam rapidamente à presas pequenas, como se estivessem famintas (3). É como se a teia fosse um órgão sensorial capaz de interferir na regulação da alimentação. 

    Para além de sentir vibrações, mamíferos enormes e invertebrados miúdos têm algo em comum: entre maracutaias no solo e teias quebradoras de dieta, ambos devem ficar bem confusos com as coisas inusitadas que acontecem em sua vida durante as nossas tentativas de compreender seus sentidos. 

    Fontes Livro Um mundo imenso, de Ed Yong; (1) artigo  “Identification of the trail pheromone of a leaf-cutting ant, Atta texana”; (2) livro The Elephant’s Secret Sense; (3) artigo “Web tuning of an orb-web spider, Octonoba sybotides, regulates prey-catching behaviour”.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    Enquanto você lê isso, o mundo muda — e quem tem Superinteressante Digital sai na frente.
    Tenha acesso imediato a ciência, tecnologia, comportamento e curiosidades que vão turbinar sua mente e te deixar sempre atualizado
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Superinteressante todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Completo
    De: R$ 26,90/mês
    A partir de R$ 14,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).